Artigo: Os efeitos da divisão técnica do trabalho sobre a formação e o trabalho do alfabetizador

Em: 5 de outubro de 2012
Na sociedade capitalista há uma inversão das condições em que opera a produção do conhecimento
Na sociedade capitalista há uma inversão das condições em que opera a produção do conhecimento

O olhar crítico sobre os efeitos extremamente nocivos da divisão técnica do trabalho sobre a formação e o trabalho do alfabetizador tem que ser enfocado à luz do método dialético, haja vista que o mesmo é o único estatuto teórico epistemológico que permite entender “que a manifestação assumida pelo processo de trabalho no capitalismo determina as características, as funções e o significado que a educação adquire para a sociedade capitalista”, como salienta N. J. Paoli. Sabemos que a sociedade capitalista está organizada para produzir, comercializar e distribuir os bens necessários à produção e reprodução da existência do ser humano, e que se baseia em um tipo determinado de relações entre as pessoas.
Segundo G. N. de Mello, a base econômica da sociedade capitalista está dividida entre proprietários (burguesia) e não proprietários (classe média e proletariado). O reflexo dessa divisão dá origem à cisão entre trabalho intelectual (ou trabalho de concepção) e o trabalho manual (ou trabalho de execução), e essa cisão antitética, por sua vez, possui um impacto extremamente decisivo para a formatação dos diversos tipos e modalidade de educação escolar que são oferecidas ora pelo Estado capitalista, ora pelo mercado educacional, ora pelas parcerias público-privadas.
Vejamos alguns aspectos históricos da cisão entre trabalho intelectual e trabalho manual. H. Braverman (1920* 1976†) ensinava que a preocupação de F. W. Taylor (1856* 1915†) era com a adaptação dos trabalhadores e trabalhadoras às necessidades do capital, a partir da organização minuciosa dos processos de trabalho e do controle sobre ele: F. W. Taylor elevou o conceito de controle a um plano inteiramente novo quando asseverou como uma necessidade absoluta para a gerência adequada à imposição ao trabalhador da maneira rigorosa pela qual o trabalho deve ser executado.
Vê-se, pois, que o taylorismo é não só um método de trabalho visando elevar a produtividade do trabalhador, mas também controlar rigidamente todas as ações do operário. É sabido que nas sociedades anteriores a sociedade capitalista, não havia a divisão acentuada entre o trabalho intelectual e o trabalho manual, pois o servo da gleba e o artesão detinham o Know-how do processo de trabalho. Não se quer dizer com isso que não se possa efetuar a cisão entre concepção e execução no processo de trabalho, uma vez que “nos seres humanos não é inviolável a unidade entre a força motivadora do trabalho e o trabalho em si mesmo”.
H. Braverman salienta, ainda, que a unidade estabelecida entre concepção e execução pode ser dissolvida sem que isso signifique, necessariamente, a materialização de um processo abarbaramento dos indivíduos: a razão disso se dá porque a concepção pode ainda continuar a governar a execução, mas a idéia concebida por uma pessoa pode ser executada por outra. Isso significa que a forma diretora do trabalho continua sendo a consciência humana, mas a unidade entre as duas pode ser rompida do indivíduo e restaurada no grupo, na oficina, na comunidade, na sociedade como um todo.
Resumindo, pode-se dizer que na sociedade capitalista a divisão acentuada entre o trabalho intelectual e o trabalho manual provoca um deslocamento do conhecimento do trabalhador individual para o trabalhador coletivo. O que isso significa? Significa que na sociedade capitalista há uma inversão das condições em que opera a produção do conhecimento, e que passa do âmbito de ação do trabalhador para o âmbito do capital. Uma alfabetização que auxilie na superação disso tem que partir da superação do trabalho alienado do professor, e na negação da reificação dos envolvidos no processo educacional.
Dessa maneira, a posse privada dos meios e processos de produção faz com que a classe hegemônica domine a dimensão intelectual e objetiva do saber, deixando aos funcionários as atribuições de conceber, controlar e racionalizar a produção que foi planejado pelas gerências qualificadas. Fernandez Enguita (1989), assim se expressa: a ausência de controle por parte do trabalhador provoca uma nova dimensão à divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual e inicia-se, portanto, o caminho histórico que vai do trabalho complexo e qualificado ao trabalho simples e desqualificado, do trabalho concreto ao trabalho abstrato, do artesão orgulhoso de seu saber profissional ao trabalhador polivalente e multifuncional, um homem de todos os ofícios, mas que não domina nenhum deles.
K. H. Marx (1818* 1883†) já criticava a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual no século 18: “as idéias da classe dominante são, em todas as épocas, as idéias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante na medida, portanto, em que dominam como classe e determinam todo o conteúdo de uma época histórica, é evidente que o fazem em toda sua extensão, e, portanto, entre outras coisas, dominam também como pensadores, como produtores de idéias, regulam a produção e a distribuição de idéias de seu tempo”.
Historicamente, a relação entre a concepção e a execução depende, basicamente, da correlação de forças existentes numa sociedade determinada. K. H. Marx mostra que a cooperação simples não traz grande mudança no modo de trabalho do indivíduo, ou seja; o processo de trabalho continua sendo determinado pelo trabalhador, ao passo que, na manufatura, o processo de trabalho é subordinado realmente ao capital, transformando-o em processo de valorização do capital, isto é, em processo de produzir mais-valia. Com isso, inaugura-se um sistema que se baseia na cooperação generalizada e no trabalhador coletivo.
O próprio K. H. Marx asseverava que o mecanismo específico da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual do período manufatureiro é o próprio trabalhador coletivo. O processo de cisão ocorre porque as diferentes operações que o produtor de uma mercadoria executa alternativamente e que vão se incorporando no conjunto de seu processo de trabalho, dele exigem capacidades diversas. O trabalhador coletivo passa a possuir todas as qualidades produtivas no mesmo grau elevado de virtuosidade e emprega-os ao mesmo tempo, de modo econômico, individualizando todos os seus órgãos em trabalhadores especiais ou em grupos de trabalho aplicados em funções.
O ponto de partida desenvolvido pelo corifeu da práxis nos conduz a afirmar que, durante o período manufatureiro, o trabalhador estava subordinado ao capital apenas do ponto de vista organizacional, e não do ponto de vista técnico, ou seja, não havia subsunção real, e, sim, subsunção formal. L. C. de Freitas registra que nos últimos séculos o capital desenvolveu as três dimensões que produzem lucro maximizado: (a) expropriar o processo de trabalho do trabalhador; (b) separar o momento da concepção do momento da execução; e, por fim, (c) manter o monopólio sobre o conhecimento do processo de trabalho para estabelecer o controle do ritmo e da qualidade das mercadorias e serviços produzidos.
Uma ou duas coisas podem ser inferidas: primeiro, a perda do controle do processo do trabalho pelo trabalhador é uma estratégia da burguesia capitalista direcionada para o controle e manutenção do seu poder de classe. Esse processo de dominação e controle do trabalho não se dá somente na fábrica, mas também nas escolas; segundo, o processo de produção do ensino, enquanto responsabilidade do alfabetizador, não é mais por ele planejado, quer no sentido pedagógico, quer no sentido administrativo, haja vista que ele tornou-se executor e repetidor de tarefas, e não criador intelectual de conhecimentos.
Neste aspecto da constelação de efeitos da divisão técnica do trabalho, pode-se dizer também que a perda de autonomia por parte do alfabetizador conduz a um processo de desqualificação do posto de trabalho, mas isso é assunto da próxima reflexão sociofilosófica, ou se quiserem filosociológica. Não perca!

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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