O olhar crítico sobre os efeitos extremamente nocivos da divisão técnica do trabalho sobre a formação e o trabalho do alfabetizador tem que ser enfocado à luz do método dialético, haja vista que o mesmo é o único estatuto teórico epistemológico que permite entender “que a manifestação assumida pelo processo de trabalho no capitalismo determina as características, as funções e o significado que a educação adquire para a sociedade capitalista”, como salienta N. J. Paoli. Sabemos que a sociedade capitalista está organizada para produzir, comercializar e distribuir os bens necessários à produção e reprodução da existência do ser humano, e que se baseia em um tipo determinado de relações entre as pessoas.
Segundo G. N. de Mello, a base econômica da sociedade capitalista está dividida entre proprietários (burguesia) e não proprietários (classe média e proletariado). O reflexo dessa divisão dá origem à cisão entre trabalho intelectual (ou trabalho de concepção) e o trabalho manual (ou trabalho de execução), e essa cisão antitética, por sua vez, possui um impacto extremamente decisivo para a formatação dos diversos tipos e modalidade de educação escolar que são oferecidas ora pelo Estado capitalista, ora pelo mercado educacional, ora pelas parcerias público-privadas.
Vejamos alguns aspectos históricos da cisão entre trabalho intelectual e trabalho manual. H. Braverman (1920* 1976†) ensinava que a preocupação de F. W. Taylor (1856* 1915†) era com a adaptação dos trabalhadores e trabalhadoras às necessidades do capital, a partir da organização minuciosa dos processos de trabalho e do controle sobre ele: F. W. Taylor elevou o conceito de controle a um plano inteiramente novo quando asseverou como uma necessidade absoluta para a gerência adequada à imposição ao trabalhador da maneira rigorosa pela qual o trabalho deve ser executado.
Vê-se, pois, que o taylorismo é não só um método de trabalho visando elevar a produtividade do trabalhador, mas também controlar rigidamente todas as ações do operário. É sabido que nas sociedades anteriores a sociedade capitalista, não havia a divisão acentuada entre o trabalho intelectual e o trabalho manual, pois o servo da gleba e o artesão detinham o Know-how do processo de trabalho. Não se quer dizer com isso que não se possa efetuar a cisão entre concepção e execução no processo de trabalho, uma vez que “nos seres humanos não é inviolável a unidade entre a força motivadora do trabalho e o trabalho em si mesmo”.
H. Braverman salienta, ainda, que a unidade estabelecida entre concepção e execução pode ser dissolvida sem que isso signifique, necessariamente, a materialização de um processo abarbaramento dos indivíduos: a razão disso se dá porque a concepção pode ainda continuar a governar a execução, mas a idéia concebida por uma pessoa pode ser executada por outra. Isso significa que a forma diretora do trabalho continua sendo a consciência humana, mas a unidade entre as duas pode ser rompida do indivíduo e restaurada no grupo, na oficina, na comunidade, na sociedade como um todo.
Resumindo, pode-se dizer que na sociedade capitalista a divisão acentuada entre o trabalho intelectual e o trabalho manual provoca um deslocamento do conhecimento do trabalhador individual para o trabalhador coletivo. O que isso significa? Significa que na sociedade capitalista há uma inversão das condições em que opera a produção do conhecimento, e que passa do âmbito de ação do trabalhador para o âmbito do capital. Uma alfabetização que auxilie na superação disso tem que partir da superação do trabalho alienado do professor, e na negação da reificação dos envolvidos no processo educacional.
Dessa maneira, a posse privada dos meios e processos de produção faz com que a classe hegemônica domine a dimensão intelectual e objetiva do saber, deixando aos funcionários as atribuições de conceber, controlar e racionalizar a produção que foi planejado pelas gerências qualificadas. Fernandez Enguita (1989), assim se expressa: a ausência de controle por parte do trabalhador provoca uma nova dimensão à divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual e inicia-se, portanto, o caminho histórico que vai do trabalho complexo e qualificado ao trabalho simples e desqualificado, do trabalho concreto ao trabalho abstrato, do artesão orgulhoso de seu saber profissional ao trabalhador polivalente e multifuncional, um homem de todos os ofícios, mas que não domina nenhum deles.
K. H. Marx (1818* 1883†) já criticava a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual no século 18: “as idéias da classe dominante são, em todas as épocas, as idéias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante na medida, portanto, em que dominam como classe e determinam todo o conteúdo de uma época histórica, é evidente que o fazem em toda sua extensão, e, portanto, entre outras coisas, dominam também como pensadores, como produtores de idéias, regulam a produção e a distribuição de idéias de seu tempo”.
Historicamente, a relação entre a concepção e a execução depende, basicamente, da correlação de forças existentes numa sociedade determinada. K. H. Marx mostra que a cooperação simples não traz grande mudança no modo de trabalho do indivíduo, ou seja; o processo de trabalho continua sendo determinado pelo trabalhador, ao passo que, na manufatura, o processo de trabalho é subordinado realmente ao capital, transformando-o em processo de valorização do capital, isto é, em processo de produzir mais-valia. Com isso, inaugura-se um sistema que se baseia na cooperação generalizada e no trabalhador coletivo.
O próprio K. H. Marx asseverava que o mecanismo específico da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual do período manufatureiro é o próprio trabalhador coletivo. O processo de cisão ocorre porque as diferentes operações que o produtor de uma mercadoria executa alternativamente e que vão se incorporando no conjunto de seu processo de trabalho, dele exigem capacidades diversas. O trabalhador coletivo passa a possuir todas as qualidades produtivas no mesmo grau elevado de virtuosidade e emprega-os ao mesmo tempo, de modo econômico, individualizando todos os seus órgãos em trabalhadores especiais ou em grupos de trabalho aplicados em funções.
O ponto de partida desenvolvido pelo corifeu da práxis nos conduz a afirmar que, durante o período manufatureiro, o trabalhador estava subordinado ao capital apenas do ponto de vista organizacional, e não do ponto de vista técnico, ou seja, não havia subsunção real, e, sim, subsunção formal. L. C. de Freitas registra que nos últimos séculos o capital desenvolveu as três dimensões que produzem lucro maximizado: (a) expropriar o processo de trabalho do trabalhador; (b) separar o momento da concepção do momento da execução; e, por fim, (c) manter o monopólio sobre o conhecimento do processo de trabalho para estabelecer o controle do ritmo e da qualidade das mercadorias e serviços produzidos.
Uma ou duas coisas podem ser inferidas: primeiro, a perda do controle do processo do trabalho pelo trabalhador é uma estratégia da burguesia capitalista direcionada para o controle e manutenção do seu poder de classe. Esse processo de dominação e controle do trabalho não se dá somente na fábrica, mas também nas escolas; segundo, o processo de produção do ensino, enquanto responsabilidade do alfabetizador, não é mais por ele planejado, quer no sentido pedagógico, quer no sentido administrativo, haja vista que ele tornou-se executor e repetidor de tarefas, e não criador intelectual de conhecimentos.
Neste aspecto da constelação de efeitos da divisão técnica do trabalho, pode-se dizer também que a perda de autonomia por parte do alfabetizador conduz a um processo de desqualificação do posto de trabalho, mas isso é assunto da próxima reflexão sociofilosófica, ou se quiserem filosociológica. Não perca!
Artigo: Os efeitos da divisão técnica do trabalho sobre a formação e o trabalho do alfabetizador
Em: 5 de outubro de 2012
Na sociedade capitalista há uma inversão das condições em que opera a produção do conhecimento
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Veja também

Cantora Mahmundi faz show no Encruzilhada Bar neste sábado (19/09)
16 de setembro de 2026

Mercado de beleza se divide entre preços baixos e luxo
16 de setembro de 2026

90% dos brasileiros mudam hábitos de compra para economizar
16 de setembro de 2026

STF provocou mal-estar cívico na população, diz Cármen Lúcia
16 de setembro de 2026

Cirurgias eletivas pelo SUS passam de 7,5 milhões no primeiro semestre
16 de setembro de 2026


Bets reduzem consumo e atividade econômica, diz pesquisa da USP
15 de setembro de 2026

Flávio Dino pede vista de julgamento sobre Moraes e Mendonça
15 de setembro de 2026