PIM cresce só em dólares

Em: 25 de março de 2026
Faturamento do Polo Industrial de Manaus avança em moeda estrangeira, mas recua em reais e desacelera geração de empregos.
"Produção industrial mantém ritmo desigual no PIM." Crédito: Divulgação
"Produção industrial mantém ritmo desigual no PIM." Crédito: Divulgação

Puxado pelos polos de duas rodas e eletroeletrônico, o PIM abriu o ano com expansão no faturamento em dólares, mas não em reais. O crescimento também mais restrito, e a geração de empregos voltou a desacelerar. As vendas brutas em reais encolheram 1,77% e somaram R$ 18,28 bilhões, na comparação de janeiro com o mesmo mês de 2025, em cenário de IPCA acumulado em 4,44%. Na conversão para dólares, houve incremento de 6,86%, totalizando US$ 3.41 bilhões, em um ambiente de desvalorização de 10,30% da divisa estrangeira, conforme o BC. É o que revelam os Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus, divulgados nessa segunda (24). 

A comparação com dezembro de 2025 (R$ 17,47 bilhões ou US$ 3.10 bilhões), por outro lado, foi favorável para as vendas, tanto em reais (+4,63%), quanto em dólares (+10%), em que pese o fato de que o fim de ano costuma ser de menor atividade para indústria incentivada. O levantamento mensal da Suframa revela ainda que o Polo Industrial de Manaus voltou a perder velocidade nas contratações, já que a média mensal de empregos de janeiro (129.522 trabalhadores) esfriou em todas as comparações. Outro indicativo que sugere números menos promissores no curto prazo vem do nível de aquisição de insumos (US$ 2 bilhões), que está 5,73% menor do que em janeiro de 2025.

Em janeiro, 12 dos 26 subsetores faturaram mais em dólares. Entre os segmentos que carreiam o PIM, os destaques vieram de duas rodas, metalúrgico, químico, termoplástico e eletroeletrônico, novamente em detrimento de bens de informática. As melhores performances vieram das divisões de vestuário e calçados (+105,10% e US$ 1.01 milhão), bebidas (+60,40% e US$ 29.30 milhões) e brinquedos (+37,48% e US$ 6.33 milhões). Em contrapartida, os tombos mais severos ficaram no beneficiamento de borracha (-91,88% e US$ 948.400), naval (-78,32% e US$ 9.14 milhões) e madeireiro (-47,75% e US$ 545.352). 

Os subsetores de bens de informática e de eletroeletrônicos foram mais uma vez em direções opostas. O primeiro (US$ 536.48 milhões) reduziu sua participação para 15,74% do faturamento do Polo e despencou 20,82%. Já os eletroeletrônicos (US$ 539.69 milhões) cresceram 17,85% e viram seu share elevado para 15,82%. Mais aquecido (+21,59%), o subsetor de duas rodas (US$ 749.99 milhões) passou para a liderança, com fatia de 21,96% nas vendas globais. O ranking se completa com os segmentos de “outros produtos” (15,51% do bolo), químico (12,70%), termoplástico (9,20%) e metalúrgico (9,08%).

 

Produção e empregos

O crescimento também ficou restrito em termos de produção industrial. O aumento mais expressivo contabilizado em janeiro veio da linha de motocicletas, motonetas e ciclomotos, que somaram 200.952 unidades e alcançaram incremento de 15,13% frente ao primeiro mês de 2025. Em contraste, divisões de destaque para o PIM, como as de monitores com tela de LCD (-24,26% e 253.553); bicicletas (-19,97% e 21.349); condicionadores de ar do tipo split system (-15,91% e 519.546); celulares (-7,39% e 803.050); relógios de pulso e de bolso (-4,42% e 527.576); e televisores com telas LCE e Oled (-3,59% e 1.177.501) amargaram quedas.

Em paralelo, o nível de empregos do Polo Industrial de Manaus voltou a perder velocidade. A média obtida em janeiro foi de 129.522 trabalhadores, entre efetivos, temporários e terceirizados. A performance ficou pouco baixo da verificada em dezembro (131.711), além de configurar queda de 1,66% diante do registro de janeiro do ano passado (130.325). Dentro da série histórica da Suframa, esse foi o número mensal mais baixo de postos de trabalho, desde outubro de 2024 (129.244) – quando o PIM sofria os impactos logísticos do segundo ano de vazante histórica. 

Os melhores índices de crescimento de empregos vieram dos subsetores de vestuário de calçados (+131,76% e 934 trabalhadores) e de “material de limpeza de velas” (+109,29% e 113). Foram seguidos pelos polos de duas rodas (+97,29% e 51.807) e naval (+95,83% e 2.867). Já os recuos se limitaram aos segmentos e de “produtos diversos” (-9,54% e 569) e mobiliário (-8,19% e 908). Dentro do grupo de mão de obra estritamente efetiva, o Polo abriu o ano com a criação de 592 novas vagas, com 3.710 admissões e 3.118 demissões. 

“Os resultados de janeiro demonstram que o Polo Industrial de Manaus inicia 2026 com bases sólidas, combinando crescimento industrial, estabilidade no emprego e avanço das exportações. Fatos que demonstram e reforçam a competitividade e a relevância econômica do modelo Zona Franca para o Brasil”, avaliou o novo titular da autarquia, Leopoldo Montenegro, em texto veiculado pela assessoria de imprensa da Suframa.

 

“Cenário de resiliência”

O presidente da Fieam, Antonio Silva, considera que os dados revelam um “cenário de resiliência” para o PIM, a despeito de assimetrias que exigem cautela. “A alta do faturamento ter se sustentado unicamente na comparação em dólares evidencia uma dinâmica influenciada por fatores cambiais e precificação internacional de insumos, o que mascara a ausência de expansão real na moeda local. Já a concentração do desempenho positivo em menos da metade dos subsetores demonstra que a retomada não é homogênea, refletindo repasse de custos desigual e demanda interna que ainda hesita frente às incertezas macroeconômicas do país”, lamentou.

Para o dirigente, os dados refletem o encarecimento do crédito e as incertezas em relação aos desdobramentos da guerra. “Bens de alta dependência de financiamento direto sofrem mais com a indefinição da trajetória dos juros básicos. Contudo, a manutenção de mais de 129 mil postos de trabalho atua como indicador de maturidade. As expectativas para o restante de 2026 exigem pragmatismo e agilidade. O PIM inicia o ano provando relevância e competitividade, mas a sustentação dos números dependerá da nossa capacidade de blindar a produção contra choques externos, e de um cenário doméstico que volte a oferecer previsibilidade para investimento e consumo”, ressaltou.

 

Estabilidade e choque

O contador, professor da Ufam e consultor empresarial especializado na indústria, André Costa, considerou que o resultado geral foi positivo para o PIM. “Há estabilidade estatística em reais e crescimento em dólares, reafirmando a atratividade do Polo para investidores estrangeiros. Nos detalhes há motivo para comemoração, pois nos grandes subsetores ocorreram quedas localizadas em bens de informática e mecânico. Já duas rodas, eletroeletrônicos, termoplásticos e químicos tiveram desempenhos muito bons”, comparou.

O especialista avalia que a “dicotomia” entre os principais subsetores deve persistir em fevereiro, com números negativos na produção de condicionadores de ar impactando o polo mecânico, e números positivos favorecendo duas rodas. “Na melhor das hipóteses, os fabricantes de condicionadores de ar estão aguardando as primeiras remessas de compressores importados. Desaponta um pouco também o desempenho do polo naval, pois na virada do ano costuma ocorrer o ápice de entregas de embarcações para o Arco Norte. Para o restante do ano, sabemos que as primeiras previsões para o PIM precisam ser revistas, posto que há um evidente choque vindo da guerra no Irã”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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