Empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus (PIM) são obrigadas a importar profissionais de outros Estados por falta de uma mão de obra mais qualificada, segundo dirigentes industriais e consultores econômicos no Amazonas. Com o avanço da tecnologia na era digital, as fábricas estão mais exigentes e a cada dia reclamam pessoal melhor qualificado para atender à demanda local do mercado.
Dos cerca de 120 mil trabalhadores do PIM (número dos últimos indicadores da Suframa), pelo menos 80% dos cargos executivos e das funções que exigem a atuação de expertises vêm do exterior ou de outras regiões do País. E a corrida pela qualificação de excelência ficará mais acirrada com a produção dos tablets, hoje o top de linha do segmento de computadores.
Até agora já são seis projetos aprovados no Amazonas para a produção de tablets dos oito que serão instalados no País. Idealizada não só para produzir eletroeletrônicos, motocicletas e outros bens de consumo mas também tecnologia, a Zona Franca de Manaus (ZFM) recebeu, nos últimos dez anos, exatos R$ 8 bilhões para investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
O dinheiro é oriundo dos 5% recolhidos (uma exigência da legislação) pelas empresas de informática para pesquisa em novas tecnologias. Apesar desse volume alto de recursos, nenhum conhecimento tecnológico foi desenvolvido pelas empresas instaladas no PIM, segundo o deputado federal Francisco Praciano (PT), que contesta o direcionamento da política industrial no Amazonas de só utilizar know-how importado nas linhas de produção de eletroeletrônicos e de duas rodas.
“Se bem utilizados, com todos esses investimentos que as empresas destinam para pesquisa e desenvolvimento, poderíamos (a ZFM) estar exportando tecnologia para o mundo, ao invés de só importar know-hows já desenvolvidos no exterior”, afirma o deputado Francisco Praciano. “Com isso, o PIM não cumpre satisfatoriamente o que deveria realizar a partir de sua idealização há mais de 40 anos – aliar a produção de itens ao desenvolvimento paralelo de novos conhecimentos”, acrescenta o parlamentar.
O presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Wilson Périco, contesta, porém, a informação e garante que o deputado federal Francisco Praciano está “equivocado” em suas declarações sobre a tecnologia desenvolvida no PIM. Segundo Périco, nos últimos anos, as empresas do PIM produziram novos know-hows, principalmente na área de manufaturas.
Manufaturados made in ZFM
Como argumento, o dirigente do Cieam cita a tecnologia da “lanterna do cego” (mouse do cego), desenvolvida no Amazonas pelo cientista Manoel Cardoso, que hoje já é largamente utilizada pelos deficientes visuais nos computadores, facilitando o acesso à internet aos portadores de necessidades especiais.
“A situação não é bem assim, como diz o deputado. Hoje os processo utilizados nas linhas de produção de manufaturados são com tecnologias desenvolvidas aqui mesmo”, afirma ele. “Talvez ele (Praciano) esteja apenas se referindo a produtos de âmbito mundial”, complementa.
O empresário Maurício Loureiro, ex-dirigente do Cieam, disse que falta muito ainda para o parque industrial do Amazonas, apesar de contar hoje com mais de 500 empresas instaladas em Manaus, fazer parte da vanguarda de países produtores de tecnologias de ponta.
“Só países como os Estados Unidos, Japão, Coreia e China, portanto, um grupo seleto, consegue produzir tecnologias e exportar para o resto do mundo”, afirma Maurício Loureiro, que acompanha há muitos anos a atuação do projeto ZFM.
O deputado Francisco Praciano considera também o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) um “elefante branco”, que, segundo ele, até hoje não foi capaz de “corresponder” às expectativas da concepção do projeto original: desenvolver biotecnologias para o desenvolvimento auto-sustentável. “Não passa de uma autarquia, sem função, praticamente inoperante”, sentencia.
Amazonas em quarto lugar no ranking tecnológico
Na contramão dos que consideram o desenvolvimento tecnológico “pífio” e pouco atuante na região, o secretário de Estado de Ciência e Tecnologia, Odenildo Sena, disse que o governo estadual destinou pelo menos R$ 1,4 bilhão para ciência e tecnologia, no período entre 2003 e 2010.
Segundo o secretário, o Amazonas ocupa hoje o quarto lugar no ranking dos estados brasileiros que mais investem em pesquisas e inovação tecnológica. “O Estado investe maciçamente na formação de mestres e doutores com a concessão de bolsas de estudos através da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e do Centro de Educação Tecnológica do Estado do Amazonas (Cetam)”, afirma Odenildo Sena.
Para o secretário, fazer ciência e tecnologia na Amazônia é um desafio, mas mesmo assim o Amazonas ocupa uma posição de destaque em relação aos grandes centros científicos e de inovação tecnológica, à altura dos encontrados nas regiões Sul e Sudeste do País. “Apesar das dificuldades, estamos avançando no desenvolvimento de novos conhecimentos”, diz ele.
Hoje, as indústrias instaladas no parque industrial de Manaus destinam 1% do seu faturamento para a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Até o primeiro semestre do ano, segundo os últimos indicadores da Suframa, as fábricas do PIM faturaram mais de US$ 23 bilhões e, desse volume de recursos, pelo menos US$ 230 milhões foram repassados para a UEA.
Demanda reprimida de vagas
Segundo Wilson Périco, hoje as maiores demandas de profissionais registradas nas empresas do PIM é por engenheiros de injeção plástica e de mecânica, além de especialistas na área de informática. “Realmente, as empresas se ressentem de um pessoal mais qualificado para atuar nessas áreas”, afirma o presidente do Cieam.
De acordo com Wilson Périco, a mão de obra formada pelas universidades e institutos no Amazonas não é suficientemente qualificada para ser absorvida pelas fábricas. Daí a necessidade, segundo ele, de importar especialistas de outros estados e também do exterior.
Ele argumenta que o problema está na educação pública, que começa no ensino fundamental, estende-se para o ensino médico e agrava-se no ensino superior. “A questão é estrutural. Não vamos esperar somente do poder público para qualificar o ensino. É necessária a mobilização de toda a sociedade. Só assim poderemos produzir tecnologias que possam frente à competitividade mundial”, afirma Périco.







