O cearense Manoel Thomé de Oliveira Rôla veio para o Acre em fins do século 19, quando a exploração da borracha estava no auge nas terras daquela região. Tornou-se um grande seringalista tanto que quando, em idade avançada, resolveu voltar para o Ceará, deixou de herança três seringais para cada um dos três filhos. Um desses filhos era João de Oliveira Rôla, na casa de quem o pequeno neto Milton Rôla se criou e onde aprendeu a como fazer e como saborear a boa comida preparada no interior da floresta pelos seringueiros. Adulto, já em Manaus, Milton se tornou dono do restaurante ‘Casa do Pirarucu’, no conjunto Acariquara, no Coroado, e há treze anos inaugurou o restaurante Estória de Pescador (rua José de Arimatéia 1 – Adrianópolis).
“Os melhores dias da minha infância foram os domingos na casa de meu avô João de Oliveira, em Rio Branco. Ele gostava de mesa farta e as comidas eram todas dos rios e da floresta, vários tipos de peixes, carne de caça, e tartarugada. A mesa ficava rodeada de filhos, netos e amigos, que ele convidava para aqueles almoços. Naquela época, década de 1960, Rio Branco ainda era uma cidade muito provinciana e a casa de meu avô era um sítio dentro da cidade”, recordou Milton.
Com os tios, Milton aprendeu a gostar de fazer comidas.
“Tia Janara era quem fazia os quitutes servidos aos domingos. Já tio Rubens, ainda que não soubesse, era um confeiteiro. Gostava de fazer bolos. Durante anos fez o bolo gigante servido no aniversário de Rio Branco”, contou.
Do avô, o menino ouvia histórias.
“Ele contava que os seringueiros saiam pela manhã, pelos caminhos na floresta, para ‘sangrar’ as seringueiras, e só voltavam no final do dia. A comida básica que levavam era pirarucu seco, farofa de castanha e banana pacovã. Com aquilo, passavam o dia inteiro”, revelou.
Uns 20 pratos diferentes
Talvez tenha sido naqueles dias que nasceu a paixão de Milton Rôla pelo pirarucu.
“É um peixe que dá o ano inteiro, e nunca falta por causa da pesca de manejo praticada em várias comunidades do interior do Amazonas. Todo o pirarucu que uso, é de manejo”, destacou.

(Foto: Evaldo Ferreira)

Quando abriu o restaurante Estória de Pescador, Milton não quis repetir o nome do anterior, Casa do Pirarucu, porém, o que não faltam no local são pratos à base do peixe.
Apesar de o cardápio do Estória de Pescador ser formado por comidas regionais, o pirarucu se destaca.
“Faço uns 20 pratos onde o pirarucu é o item principal. Por dia, o cliente encontra uns cinco ou seis aqui nas nossas gôndolas”, avisou.
“E preparo um prato aqui que herdei daqueles domingos na casa do meu avô: a ventrecha de pirarucu salmourada com legumes. Tenho vários clientes, de idade avançada, que só pedem essa ventrecha, pois, dizem, a comeram em sua infância, na casa dos pais. Essa memória afetiva é fantástica”, lembrou.
Entre os pratos com o gigante da Amazônia, Milton destaca os recém-lançados filé de pirarucu empanado com torta de castanha e coberto com geleia, o torresmo de pirarucu e o bolinho de pirarucu com banana pacovã.
“Estou sempre criando, buscando novas misturas e sabores para o pirarucu. E ele combina com praticamente tudo. O empanado coberto com geleia está fazendo muito sucesso, assim como o bolinho com banana pacovã. Não é por acaso que o pirarucu é considerado o rei dos rios, e aqui no Estória de Pescador, o rei do cardápio”, concluiu.
Super protegido
Do tupi: pira (peixe) + urucum (vermelho), ou simplesmente pirarucu. É o gigante dos lagos amazônicos, que pode chegar a impressionantes três metros de comprimento. Arapaima gigas é seu nome científico, gigas, de gigante, que fica com as escamas da cauda num tom avermelhado na época da reprodução, por isso o urucum. E você sabia que ele existe desde antes dos seres humanos? O pirarucu chegou a conviver com os dinossauros há 200 milhões de anos. Sabia, ainda, que o peixe precisa vir à superfície para respirar e se não fizer isso, morre afogado. Um peixe morrendo afogado. É essa subida à superfície que o torna vulnerável. O pescador experiente sabe quando e onde o peixe irá emergir, então vai lá e o arpoa sem maiores dificuldades.
Há anos o Ibama, junto órgãos ambientais do Estado, como o Ipaam, ICMBio, Sema e Funai, realiza trabalho de conscientização e orientação junto às comunidades do interior do Amazonas para que pratiquem a pesca de manejo, ou seja, só podem ser capturados exemplares adultos com mais de 1m5 de comprimento, além de, durante a despesca, realizada em alguns períodos do ano, só poderem ser retirados no máximo 30% da população de indivíduos adultos de determinado lago. Essa população é conferida durante o ano. Não à toa, o maior peixe de escama de água doce do mundo, que esteve ameaçado de extinção, hoje se recupera graças a essas regras estabelecidas em várias reservas e Unidades de Conservação espalhadas por 25 municípios amazonenses e praticadas por mais de 1.300 famílias. Com isso, o pirarucu está garantido e nunca faltará nas nossas mesas, preparado em deliciosos pratos da culinária baré.














