O pedido de revisão das urnas eletrônicas deixa ainda mais tenso o cenário político no Brasil. Ontem, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, entrou com uma representação pedindo para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) revisar as votações em quase 280 mil urnas eletrônicas que supostamente teriam tido problemas, não refletindo o real desfecho do segundo turno das eleições.
A representação tem como base um laudo técnico do IVL (Instituto Voto Legal) que teria detectado problemas no funcionamento em unidades do sistema eletrônico. E, caso seja revisado, há amplas possibilidades de o presidente Jair Bolsonaro (PL) ter vencido a disputa presidencial, segundo alega Costa Neto.
A iniciativa é do próprio presidente Jair Bolsonaro e da presidência do PL, partido ao qual é filiado o atual chefe do Executivo nacional. “O TSE deu aos partidos políticos a incumbência de fiscalizar as urnas eletrônicas”, ressaltou Neto ao apresentar a ação junto ao tribunal.
O movimento teve grande receptividade entre os apoiadores de Bolsonaro que engrossaram as manifestações nacional em protesto contra o resultado das urnas, que apontou a vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida presidencial deste ano.
“Todos já aguardávamos esta iniciativa. Não tem como o ex-presidente ter vencido as eleições. Por onde Bolsonaro passava, ele era sempre ovacionado, mas no final o resultado foi inverso”, argumenta o garçom Leandro Costa, que participou dos atos públicos em Manaus, inclusive entre os acampados que ocuparam as adjacências do quartel do CMA (Comando Militar da Amazônia), na Ponta Negra, zona Centro-Oeste da capital. “É obrigação do TSE rever esses votos”, acrescentou.
Porém, o professor de sociologia Aurélio Silva diz que não há como contestar o processo eleitoral se até enviados de outros países acompanharam de perto as eleições no Brasil. “Não tem como. Os apoiadores de Bolsonaro e também o partido ao qual ele é afiliado já deveriam ter digerido a derrota. A vontade do eleitor é soberana. O sistema de votação do país é extremamente transparente e um dos mais (quiçá maior) evoluídos do mundo”, contra-argumenta.
Em resposta à petição do PL, o presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, pediu que fossem incluídos documentos de ambas votações (no primeiro e segundo turnos). Lula venceu nas duas fases. O partido do presidente elegeu a maior bancada de deputados para a Câmara Federal, dados em que o magistrado se apoia para contestar a representação contra o resultado das eleições, na visão de fontes consultadas pela reportagem.
Transparência
Valdemar Costa Neto diz que foi atrás de expertises para embasar a representação que pede a revisão dos votos no segundo turno. “Nós não somos especialistas em segurança de dados, por isso fomos atrás de técnicos que fizessem esse trabalho para garantir a transparência do processo eleitoral. Até porque eu, Valdemar, fui eleito com urna eletrônica, e a bancada do PL foi eleita por urna eletrônica, as bancadas do PL foram eleitas por urna eletrônica”, disse. “Então, é natural que se peça um trabalho de fiscalização para que não fique nenhuma dúvida em relação ao nosso sistema eleitoral”, justificou o presidente do partido
O relatório aponta que, a partir da auditoria realizada apenas com base nos resultados decorrentes das urnas do modelo UE2020 (40,82% do total das urnas utilizadas no segundo turno) –deveriam ser computados 26.189.721 votos ao presidente Jair Messias Bolsonaro e 25.111.550 votos ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva, resultando em 51,05% dos votos válidos para Bolsonaro, e 48,95% para Lula da Silva.
“Esse relatório não expressa a opinião do Partido Liberal, mas é o resultado de estudos elaborados por especialistas graduados em uma das universidades mais respeitadas do mundo e que, no nosso entendimento, deve ser analisado pelos especialistas do TSE, de forma que seja assegurada e resguardada a integridade do processo eleitoral”, reafirmou Costa Neto.
O movimento causou uma reação em cadeia dos defensores de Lula no Congresso Nacional. Representantes da esquerda alardearam que partidários de Bolsonaro costuram estratégias para tumultuar o processo eleitoral que, pela soberania da vontade do eleitor brasileiro, escolheu o ex-presidente para dirigir o país a partir do próximo ano.
Por MARCELO PERES
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