Produção do polo oleiro do AM sofre recuo de 25% no trimestre

Em: 30 de março de 2010
O Polo Oleiro Cerâmico de Iranduba (a 34 km de Manaus, em linha reta) e Manacapuru (a 68 km) está trabalhando com uma média de produção 25% menor neste trimestre em relação a igual período do ano passado.
O Polo Oleiro Cerâmico de Iranduba (a 34 km de Manaus, em linha reta) e Manacapuru (a 68 km) está trabalhando com uma média de produção 25% menor neste trimestre em relação a igual período do ano passado.

Por Margarida Galvão

O Polo Oleiro Cerâmico de Iranduba (a 34 km de Manaus, em linha reta) e Manacapuru (a 68 km) está trabalhando com uma média de produção 25% menor neste trimestre em relação a igual período do ano passado. A Aceram (Associação dos Ceramistas do Amazonas) aponta que a tendência é reduzir ainda mais a produção por falta de material de queima que alimenta os fornos das olarias. Duas empresas do setor estão paradas.
O presidente da Aceram, Sandro Santos disse que a situação é delicada, principalmente com a paralisação do polo de Manacapuru, há mais de 20 dias, decorrente de fiscalização dos órgãos ambientais. A crise do setor começou em novembro de 2008 com a operação “Fogo Limpo”, realizada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e Polícia Federal. Fiscais dos dois órgãos federais multaram e fecharam várias olarias no Estado por estarem alimentando seus fornos com material de queima oriundo de áreas irregulares.

Multas
pesadas
Para evitar novas e pesadas multas os empresários do setor decidiram paralisar as atividades à espera de uma resolução, o que acabou provocando impacto no mercado da construção civil com aumento significativo no preço do tijolo e da telha. Na época, o caso foi parar no plenário da ALE (Assembléia Legislativa do Estado), o que resultou na criação de um Grupo de Trabalho do Polo Cerâmico do Amazonas, coordenado pela secretária de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Nádia Ferreira. Participaram também o presidente do Iteam (Instituto de Terras do Amazonas), Sebastião Nunes, além dos prefeitos de Iranduba e Manacapuru, Nonato Lopes e Washington Régis (à época). Ao todo, 15 instituições e mais de 30 ceramistas estiveram envolvidos na busca de soluções que não vieram até hoje.
De acordo com Sandro Santos,o governo bem que tentou ajudar os ceramistas, procurando encontrar alternativas de queima para alimentar os fornos das olarias. No entanto, ele avaliou que as atuais políticas ambientais adotadas pelo governo do Estado e a burocracia não contribuíram para que se chegasse a um denominador comum. “Mesmo com a ajuda do governo, dentro de um ano e meio ainda não conseguimos regularizar um metro cúbico de lenha”, lamentou. 

Ceramista quer organização da cadeia produtiva para trabalhar na legalidade

Sandro disse que a secretária da SDS, Nádia Ferreira, deu o primeiro passo, depois de várias reuniões entre órgãos políticos e ceramistas, para instituir em portaria o Grupo de Trabalho do Polo Ceramista. À época, Nadia falou que a missão da SDS é organizar as cadeias produtivas do Estado, principalmente, aquelas de impacto ambiental relevantes para o Amazonas. A dirigente do órgão reconheceu que os ceramistas querem trabalhar de forma legal e manifestaram isso em todas as reuniões do GT. “Cabe a nós orientarmos e ajustarmos a conduta destas empresas”, admitiu
Na opinião de Santos, a política da ‘árvore em pé’ é benéfica, mas que sejam apresentadas soluções que permitam aos ceramistas trabalharem de forma digna e sem perseguição para atender a demanda da capital amazonense por tijolos e telha, que é grande. O representante da categoria garante que 92% da construção civil local é abastecida pelos ceramistas de Iranduba e Manacapuru, com tijolos, blocos e telhas entre outros produtos
Segundo o dirigente, o polo cerâmico possui 30 indústrias e gera empregos diretos para cerca de 4.000 pessoas. Vale destacar que a fabricação de cerâmica vermelha nos municípios de Iranduba e Manacapuru é apontada como uma atividade de destaque na economia local. Essas indústrias encontram-se localizadas numa região onde os depósitos argilosos recobrem a formação do Alter-do-chão, que são utilizados como matéria-prima, conforme estudos. Das 30 indústrias oleiras da região, apenas duas fabricam telhas e as restantes produzem tijolos cerâmicos furados (geralmente de oito furos) e maciços, estes últimos sob encomenda.

Empresários do segmento buscam insumos e fornecedores alternativos

Uma das alternativas encontradas pelos ceramistas do Amazonas para obter material de queima seria trazer de Porto Velho (RO), resíduos das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau. Porém, Santos informa que o frete inviabiliza a negociação, o que resultaria na majoração do preço do tijolo e dos demais produtos numa média de 30%.
Os ceramistas bem que tentaram fazer com que o governo arcasse com essa despesa de frete, mas a idéia não vingou. Na avaliação de Santos esse gasto seria de R$ 50 por metro cúbico de lenha. Atualmente, como o setor está vivendo um período de sazonalidade –decorrente das chuvas– as empresas necessitariam no máximo de 1.500 metros cúbicos de lenha por mês.
Com as obras de infraestrutura da Copa de 2014 vão movimentar o mercado da construção civil nos próximos meses –especialmente no verão-, Santos considera que a demanda por tijolos vá dobrar e com isso o setor necessitará de pelo menos 3.000 metros cúbicos de lenha para alimentar os fornos industriais. “Saímos de uma crise que atingiu a todos. Logo, se pudéssemos obter essa matéria-prima de Porto Velho daria para manter nosso processo produtivo por três a quatro anos”, justificou.
O gás natural de Urucu, em Coari (a 368 km), é outra alternativa apontada para o setor manter seus fornos acesos. Santos defende que isso é possível e torce para que aconteça, mas se trata de um projeto de longo prazo, o que para o setor é preocupante. “Atualmente, o setor trabalha com resíduos de madeira. Algumas empresas estão reciclando, outras trazendo de outros Estados da região e, com isso, reduzindo custos, mas precisamos ter uma alternativa de sustentabilidade para mantermos nossas empresas em funcionamento e não sermos vistos como os devastadores da floresta”, finalizou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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