Reciclagem é alternativa para metalurgia local

Em: 10 de novembro de 2008
Ligas como níquel, alumínio, cobre e zinco, cujos preços sufocaram o setor no início da crise, chegam a preços mais acessíveis para a indústria da transformação
Ligas como níquel, alumínio, cobre e zinco, cujos preços sufocaram o setor no início da crise, chegam a preços mais acessíveis para a indústria da transformação

Em meio à turbulência do mercado ocasionada pelas altas recordes nos preços das commodities, as indústrias de metalurgia encontraram no reaproveitamento de sucatas uma das saídas para os efeitos da crise financeira mundial, que já se abate às portas do robusto crescimento que o setor vinha acumulando ao longo do ano.
Ligas como alumínio, níquel, cobre e zinco, cujos preços sufocaram o setor da metalurgia local com os sucessivos períodos de alta no mercado mundial durante o início da crise, chegam a preços mais convidativos à indústria da transformação, que já tenciona fortalecer a cadeia produtiva de metais reciclados com projetos de diversificação industrial.
O presidente do Sinmem (Sindicato das Indústrias Metalúrgicas de Manaus), Athaydes Félix Mariano, disse que muitas empresas vêem no reaproveitamento de metais
uma das formas de diminuir o impacto que a aquisição do insumo no eixo Sul-Sudeste vem tendo sobre a receita fabril. Segundo o executivo, a redefinição das políticas internas voltadas à conscientização ecológica tem sido fundamental para o aproveitamento de refugos e sucatas metálicas pelas indústrias do setor, que vêm diminuindo custos com internação de matéria-prima a partir da reciclagem.
“A sucata ganhou tratamento nobre no mercado brasileiro. Nos últimos meses, a cadeia que reúne desde cooperativas de reciclagem a gigantescas fundições e siderúrgicas começou a sentir os reflexos da contínua valorização dos metais não-ferrosos na London Metal Exchange, agora agravada com a crise mundial”, disse.

Pólo eletrônico

Mariano disse que as ligas destinadas à indústria de componentes do pólo de eletroeletrônicos e relojoeiro e obtidas através da reciclagem chegam ao mercado local com valor 45% menor do que seria, caso os metais fossem adquiridos no mercado internacional. O desabastecimento de matéria-prima devido à turbulência do dólar, uma das principais preocupações do segmento metalúrgico de transformação, talvez tenha sido, segundo o presidente do Sinmen, uma das razões também para as empresas importadoras optarem pela compra e encomenda de bloquetes metálicos. “Entre as vantagens competitivas em relação à internação, estão o baixo custo das operações e a negociações direto com a indústria metalúrgica.
Hoje, há fundições antecipando a compra de alumínio e de outras commodities não-ferrosas, porque há uma tendência de mais aperto nos preços”, asseverou.

Ameaça de novo reajuste dos resíduos acelera demanda pela matéria-prima

O palpite de Mariano não está longe de se tornar realidade, já que, segundo os indicadores econômicos no mercado mundial, o quilo do alumínio, níquel, cobre e zinco alcançou, no último fim de semana, respectivamente, US$ 2.01, US$ 11.64, US$ 4.12 e US$ 1.14. As commodities, cujas variações positivas de preço alcançam até 18,78% em média semanal, podem chegar ao dobro do preço em Manaus, quando acrescidas a fatores como logística, transporte e oscilação cambial.
Para o empresário Devanir Brichesi, diretor da Deluma, que fornece componentes metálicos de zinco, alumínio e latão para empresas como a Delphi, Cummins, MVM e ZF, afirmou que a ameaça de novos reajustes e de escassez dos resíduos aceleraram a busca pela matéria-prima. Os compradores vão de autopeças a fabricantes de peças para relógios, além de laminadoras. “Os lotes de sucata não-ferrosa estão entre os mais negociados com as empresas locais”, disse.
Desde o fim de 2007, o quilo da sucata de alumínio considerada de primeira linha foi reajustado pelos atacadistas em mais de 20%. Passou a ser negociado de R$ 5,20 a R$ 5,90, segundo empresas de fundição. Em meados do ano passado, o material era vendido por cerca de R$ 4 o quilo. Reajustes semelhantes ocorrem com outros tipos de sucatas não-ferrosas, como zinco, cobre e latão.
O mercado internacional aponta desequilíbrio entre a oferta e a demanda de 100 mil toneladas de alumínio. Em boa parte dos casos, não é vantajoso substituir as sucatas por ligas virgens. Brichesi alerta que o comércio atacadista de sucata pode estar retendo estoques nos pátios para “criar uma escassez forçada” e assim alavancar seus ganhos com a procura.

Escalada de preços já é real

Arredios, processadores de sucata procurados pelo Jornal do Commercio preferiram fazer declarações desde que não tivessem seus nomes revelados. Eles confirmam que a escalada dos preços embute a perspectiva de falta de material no curto prazo. Segundo um processador no bairro da Cachoeirinha (zona sul da capital amazonense), a fiscalização sobre a procedência da sucata está mais rigorosa pela empresa, que prefere não correr risco adquirindo metais, principalmente cobre, proveniente de furtos e roubos. “Isso tem reduzido o volume de material adquirido das cooperativas”, contou.
Segundo o Sinmen, em Manaus há mais de 200 processadores de sucatas ferrosas e não-ferrosas. Enquanto o preço dos não-ferrosos segue com tendência de valorização, a sucata de ferro mostra situação oposta. Em setembro de 2007, a tonelada de baixa qualidade (misturado a outros materiais) era cotada a R$ 500. Hoje, o preço está em torno de R$ 260 e o mercado encontra-se abastecido com folga.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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