Reciclar é a solução

Em: 10 de abril de 2025
Em poucas décadas os plásticos se tornaram grandes vilões poluentes. Ou os dominamos, ou eles nos plastificam.

Não se sabe ao certo quando os plásticos chegaram a Manaus. Possivelmente a capital amazonense os conheceu com a vinda das primeiras indústrias para o Distrito Industrial, a partir do final da década de 1960. Antes os sacos eram de papel; as sacolas de tecido, e até de fibras regionais; os utensílios domésticos eram de louça ou vidro; os engradados, de madeira. O certo é que os plásticos se firmaram, dominaram e segundo dados do Panorama dos Resíduos Plásticos no Brasil, divulgado pela Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), em 2022, cada brasileiro gerou, em média, 64 quilos de resíduo plástico por ano, totalizando cerca de 13,7 milhões de toneladas, e o que é pior, sem receber educação alguma por parte do poder público, a população descarta incorretamente, no meio-ambiente, boa parte desse plástico, que vira lixo e poluição.    

Por isso ações como as da Ascarman (Associação de Catadores de Materiais Recicláveis do Amazonas), ainda que sejam um pingo de água num oceano, são sempre bem-vindas. Em 2021 os catadores da Ascarman ganharam um reforço de peso, após passarem a contar com o Laboratório de Reciclagem de Resíduos Plásticos. Após um período em um espaço provisório sem estrutura adequada, a Ascarman recebeu um novo galpão, com apoio da Semulsp (Secretaria Municipal de Limpeza Pública) e da FAS (Fundação Amazônia Sustentável), em junho de 2024. De outubro de 2024 a janeiro de 2025, o local e equipamentos receberam adequações e melhorias, viabilizadas pelo projeto InnPacto Amazônia, sendo reinaugurado em fevereiro de 2025.

 

Em seis bairros  

“Chamamos de ‘Laboratório’ por dois motivos: primeiro, porque a capacidade produtiva do plástico beneficiado é em escala laboratorial, com capacidade de processamento de 3 kg/hora. Segundo, porque o espaço vai além da reciclagem em si funcionando como um ambiente de experimentação e inovação socioambiental, onde se testam soluções para o reaproveitamento de resíduos plásticos, especialmente o poliestireno, com foco em inseri-los na economia circular”, falou Valcléia Lima, superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da FAS.

“Além disso, o local e equipamentos poderão ser cedidos ou alugados a outras associações de catadores ou terceiros, como uma estratégia de promover a geração de renda para a Associação”, completou.

Valcléia (centro), _chamamos de ‘Laboratório’ por dois motivos.
Valcléia (centro), _chamamos de ‘Laboratório’ por dois motivos.

A Ascarman atua nos bairros Colônia Terra Nova (Santa Etelvina), Monte das Oliveiras, Lírio do Vale, Redenção, Coroado, e São José do Operário.

“Há famílias que participam ativamente do descarte correto nos PEVs (Pontos de Entrega Voluntária) e nos pontos de coleta informados pela Ascarman. Uma das nossas metas é aumentar o engajamento por meio da educação ambiental e ações comunitárias”, avisou.

De acordo com Valcléia, os principais desafios para mais pessoas fazerem esse descarte correto, em Manaus, é a conscientização contínua da população, criar uma infraestrutura de descarte apropriado (pontos de entrega voluntários e lixeiras públicas), e ampliar a logística de coleta de resíduos domiciliares e seletivos.

“Ainda é necessário reforçar o entendimento de que a separação e o descarte correto dos resíduos são responsabilidades compartilhadas e fundamentais para a sustentabilidade urbana. A educação ambiental tem papel-chave nesse processo”, afirmou.

A Ascarman possui caminhão próprio e foi beneficiada, pelo projeto InnPacto Amazônia, da empresa Videolar-Innova, com uma bicicleta elétrica com carreta para a coleta porta a porta na Colônia Terra Nova.

 

ECO-PS®

“Temos a intenção de expandir o projeto para outros bairros, mas essa ampliação depende principalmente de apoio institucional, parcerias estratégicas e fortalecimento da infraestrutura logística. Com o aumento da conscientização e o envolvimento da população, a tendência é que o projeto possa escalar suas atividades gradualmente”, informou.

Para quem não sabe, existem diferentes tipos de plástico, e cada tipo exige tratamento adequado conforme sua composição. No caso do projeto, há um foco especial no poliestireno, mas outros tipos de plásticos também são triados e separados manualmente pelos catadores da Ascarman, garantindo que cada um seja encaminhado de forma correta para sua respectiva cadeia de reciclagem. E do plástico surge um subproduto que ajuda na sua reciclagem, o ECO-PS®.

“O ECO-PS® é uma resina de poliestireno reciclado, pioneira no Brasil, desenvolvida pela Videolar-Innova com até 30% de material reciclado em sua composição. Ele mantém as mesmas propriedades da resina virgem, sendo utilizado em produtos como eletrodomésticos, itens de escritório, impressoras, entre outros. O material é apresentado em forma de pellets (grânulos plásticos) prontos para uso industrial, contribuindo com a economia circular e reduzindo o impacto ambiental da produção plástica tradicional”, explicou.

Mensalmente, a Ascarman recolhe mais de 60 toneladas de resíduos, reciclados e comercializados para a Videolar-Innova, promovendo um ciclo sustentável de reaproveitamento.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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