Reencontro

Em: 10 de agosto de 2017

Foi tudo muito bom. Parintins há muito toma o meu tempo. Nada a reclamar. A Ilha Tupinambarana faz parte da minha vida. Ás de ouro da minha incursão pelas veredas literárias. Por esses motivos básicos, deixei de participar, por muitos anos, da reunião de formandos de meio de ano da Escola de Especialistas da Aeronáutica, no primeiro fim de semana de julho de cada ano.

Tudo coincidia. Parintins, problemas a resolver e data de reunião da Turma. Optava por Parintins. Os motivos, não importa. Eram sérios e justificavam minhas decisões. Mas o coração apertava. Em 2017, decidi que compareceria ao congraçamento em Guaratinguetá custasse o que custasse. Assim foi.
Foi muito bom. A correria de Parintins para Manaus, Rio de Janeiro e Guaratinguetá explicou-se em seus próprios motivos. Lá estava eu, de volta ao berço da Amarelinha. De fato, de direito, de corpo e alma. Não há por que me lastimar pelas ausências. Desejo tão somente me regozijar por ter ido.

Maravilhoso foi poder resgatar, dos recantos mais escondidos de minhas lembranças, a imagem de cada um dos amigos de sempre. A turva imagem das sombras do tempo vingou límpida, paulatinamente, na luz do sol, na força do abraço fraterno, no som da voz e na riqueza das recordações.

Sublime é a capacidade do reconhecimento unânime daquilo que representa, para cada um de nós, nome a nome, a figura do nosso amigo Edson, baluarte na dedicação e na persistência para manter vivo o evento.

Aos amigos do Jornal do Comércio trago um pouco da emoção que me envolveu durante o encontro da turma 149 da Escola de Especialistas da Aeronáutica, todos formados no início do segundo semestre de 1968, em Guaratinguetá, Estado de São Paulo. Num passar de olhos menos atentos, este encontro em nada se assemelharia a situações da vida pessoal daqueles que se debruçam sobre as linhas deste texto. Ledo engano.

Façamos de conta que o fiz para resgatar, nos confins do inconsciente, as imagens do outrora que, para mim, se fizeram do hoje. Lá estarão os nossos primeiros passos, a correria, as brincadeiras, aquela fugidinha para fazer o que os pais não deixavam, os amigos inesquecíveis, a primeira escola, a primeira professora, as amizades da adolescência, período fértil no qual já nos julgávamos adultos. Épocas maravilhosas e insubstituíveis.

A maioridade nos trouxe as responsabilidades da vida, a formação profissional e novos companheiros e amigos que ocuparam o lugar visual, a nossa rotina diária e, paulatinamente, também eles abandonaram, por definitivo, a nossa vida, para fazer parte do esquecimento pleno. Correto? Ledo engano, repito.

Não necessariamente o que perdemos do nosso campo visual representa algo por nós sumariamente esquecido. Esta é, sem dúvidas, uma das maravilhas da natureza a nos oferecer um banco de dados incalculável, em algum recanto do cérebro. Convido, portanto, cada um dos que me acompanham nesta leitura, a fazer um retrospecto de sua caminhada.

Estou convicto de que, em algum ponto da jornada, nos foi oferecida a oportunidade de rever amigos ausentes do nosso dia a dia há muitos anos. Tenho certeza de que tal momento em muito não diferiu do que vivi nos últimos cinco dias. O inconsciente, desperto de sono profundo, primeiramente, olhar embaçado, pouco distinguiu além de vultos disformes à sua frente. As faces do desconhecido insistiam em manter irreconhecíveis as imagens dos rostos apresentados às minhas retinas.

Aos poucos, porém, a névoa se foi. Num repente, o turvo se apagou para trazer a nitidez e os detalhes das expressões faciais. Os Edson, Costa, Jansen, Paiva ou Lage transformaram-se, um a um, em imagens atuais do ontem, vivas e presentes como se nunca tivessem partido. Surpreendente é que esse resgate não nos trouxe os detalhes dos traços do tempo passado, mas o retrato do agora, apresentando cada rosto por inteiro, como agora o é, não como um dia foi.

Os cabelos grisalhos, as rugas. Todo o conjunto foi resgatado da forma como agora se apresenta. O que, naquele momento especial, trouxemos do passado para o presente, revelou-se o próprio presente, que hoje e sempre existiu. Incrível foi constatar que o rosto jovem realmente se perdeu nas malhas do tempo, mantendo-se vivo tão somente nas fotografias, embora irreconhecíveis em função da lacuna temporal existente e que a ninguém perdoa.

Maravilhoso é perceber, naquele momento mágico, a nossa capacidade perceptiva de transformar a visão de agora na imagem do sempre. Mistérios da criação a reforçar a crença na eternidade do hoje, que se fará presente em cada momento a ser vivido com a merecida intensidade, pois o ontem já se foi e o amanhã nem mesmo aconteceu.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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