Reflexões de um leitor

Em: 27 de março de 2008
Follow-Up
Follow-Up

Pela importância das reflexões, publicamos, a seguir, o texto de um e-mail recebido do leitor Francisco R. Cruz, estudioso da questão educacional – tema recorrente nas abordagens feitas neste espaço:
“Muito bom o assunto da coluna Follow-up do dia 13.03.08 (Analfabetismo aritmético). Como sempre, a coluna aborda temas da maior importância. A nossa incompetência em ensinar ciências exatas faz com que apenas 1,6% dos nossos jovens optem por cursos nessa área, contra cerca de 10% dos jovens de países onde a educação é eficiente. Gostaria, porém, de referir-me especificamente à decisão da Secretaria de Educação de São Paulo, que dedica os primeiros 42 dias para reforço escolar. Mesmo sendo uma atitude que trará benefícios, em minha opinião interfere e reduz substancialmente o já curto calendário do ensino. Será que não seria mais produtivo encurtar o período das férias? São no mínimo 3 meses de férias (em muitos casos o tempo é ainda maior). Um desastre! O que fará uma criança durante as férias? Em geral pertencente a família sem recursos financeiros, certamente não vai fazer nada. Não irá ao cinema. Não terá acesso a nenhuma atividade cultural. Não viajará. Não frequentará colônia de férias. Os pais –na maioria das vezes pobres e analfabetos–dificilmente incentivarão a criança a rever livros e cadernos para fortalecer o que aprendeu durante o ano letivo.  Sem alternativa, só restará a rua, onde a criança vai esquecer tudo o que eventualmente aprendeu. Ao retornar à escola, não se lembrará de mais nada. 
De certa forma, a iniciativa de São Paulo é surpresa para mim. Sempre imaginei que, em razão dos danos causados pelas longas férias, essa seria uma prática rotineira da escola.  Nunca pensei que se pudesse dar o passo seguinte sem que, minimamente, se conheça a atividade anterior, pois, é visível o encadeamento nas matérias escolares. Sem esse procedimento, como a criança poderá aprender? Será que estaria aí o problema de chegar-se ao fim da quarta série do fundamental sem saber ler, escrever e fazer contas? Se esse reforço não é feito, torna a medida de São Paulo da maior importância, e tem de ser oficializada, urgentemente, em todos os estados. Seria a institucionalização do ‘retrabalho’, prática que a boa gestão condena e desesperadamente procura evitar. Mas, nesse caso, absolutamente necessária, o que fortalece a minha convicção de que as excessivas férias são danosas à educação. Trata-se de uma cultura que nasceu no Brasil rural e que atravessou os últimos dois séculos sem questionamento algum. Naquela época é possível que se justificasse. As escolas só existiam nas grandes cidades, para onde os pais mandavam os filhos estudar. Os deslocamentos eram demorados. Nas férias, que coincidiam com as épocas das colheitas, era imprescindível a ajuda dos filhos nessas atividades. Hoje se atravessa o planeta em 24 horas. 
Até aqui desenvolvi o raciocínio em cima do prejuízo educacional, mas, se isto não for suficiente para nos sensibilizar, que se transfira o argumento para o lado econômico, linguagem que parece interessar mais. É possível Imaginar que os investimentos de bilhões de reais, feitos ao longo de anos, fiquem parados durante 90 dias, todos os anos? Convenhamos, é um absurdo! E o pior de tudo é que isto se confronta com o consenso da sociedade, de que o aluno passa pouco tempo na escola. E por que, então, ninguém combate o absurdo dos 90 dias de férias? São desperdiçados quase 30% do ano, que poderiam fazer a diferença no aprendizado. Em todas as atividades, o normal é que as férias sejam de 30 dias (há conhecidas exceções, sabemos). Se essa prática fosse adotada na escola, rapidamente e com baixo custo adicional, a permanência na escola aumentaria em mais de vinte por cento.
Enquanto isto, a mesma sociedade reclama a escola de tempo integral, absolutamente necessária. Mas é ilusão imaginar que a escola de tempo integral, por si só, seja suficiente para tirar o país da rabeira na classificação obtida nos testes interna

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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