Reflexos da guerra chegam à padaria e a outros produtos

Em: 4 de março de 2022

Produtos derivados da farinha de trigo como massas, biscoitos, bolos e afins, devem sofrer reajustes, com o impacto da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Desde o início do conflito, o preço do trigo teve aumento de mais 13% no mercado internacional. No Brasil, o aumento do preço do insumo vem sendo motivado pelo conflito, o que pressiona o preço do pão francês.

De acordo com informações da Folhapress, a guerra na Ucrânia fez o preço do trigo disparar nesta terça-feira (1°), atingindo o maior valor em 14 anos e pressionando ainda mais o preço do pãozinho e do macarrão.

O preço do trigo na Bolsa de Chicago apresentou alta de 7,54%, com o bushel (27,2 quilos) negociado a US$ 9,98 nos contratos para maior patamar desde 2008. 

Ucrânia e Rússia respondem por cerca de 30% de todo trigo que é exportado no mercado mundial, com os conflitos, a Argentina,  um dos  principais parceiros comerciais do Brasil em termos de importação de trigo deve ter aumento no pedido de compra e gerar concorrência no mercado nacional. 

Américo Esteves,  presidente do Simabim (Sindicato da Indústria de Massas Alimentícias e Biscoitos de Manaus), destaca que a indústria local já está sentindo esse reflexo nas negociações futuras. “O mercado nacional não consegue suprir as necessidades das indústrias de biscoitos e massas. Já estamos sentindo porque esses produtos são negociados em bolsas, por se tratarem de commodities, o que afeta negativamente. O trigo em grão, a própria soja, o óleo de palma que a gente utiliza já vem sofrendo essa pressão de expectativa de aumento”. 

Segundo o dirigente, o mercado está fechado e o setor tem tentado comprar, mas não está conseguindo. Ele informou que os moinhos de trigo estão agindo com prudência aguardando o reflexo do cenário , mas como se trata de commodities já estão repassando os reajustes. “Esses produtos já vem sofrendo aumento constantemente em função da parte cambial que também deve ser afastada com essa crise de conflito. A expectativa é um aumento considerável que vai afetar as indústrias e o próprio consumo”.

Para ele, o cenário é nebuloso e disse que o setor está de ‘mãos atadas’, sem saber o que fazer e que estão tentando negociar para manter os valores, mas está complicado. “O jeito é aguardar e ver de que forma vai se desenhar”. 

Pãozinho

O preço do tradicional pãozinho francês, também, tende a ficar mais caro nas padarias de todo país. O que traz preocupação para os empresários do setor que aguardam respostas do cenário nacional. De acordo com o empresário do segmento, Gabriel Fontes, atualmente o trigo tem um dos maiores valores da cotação internacional. “Esta semana fomos pegos com um novo aumento no valor da farinha de trigo. Aumento que já está em vigor”. 

O empresário explicou que ainda não houve reajuste no pãozinho em função da guerra, porém, se o cenário se estender provavelmente ocorra um aumento em torno de 5%.

Em janeiro, o produto ficou entre 5% a 25% mais alto, em decorrência dos sucessivos aumentos nos valores das matérias-primas. O Sindpam-AM (Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria do Amazonas), comentou que ao longo de 2021, as panificadoras reavaliaram seus custos e mantiveram os preços estáveis, com exceção de algumas que estavam com valores muito defasados em relação aos custos.

Ele explicou ainda que as empresas de produtos panificados não realizam reajuste de preços desde 2020, e que com a pandemia não foi possível repassar esses aumentos para o consumidor, já que as vendas diminuíram.

Por dentro

O Brasil é um dos maiores importadores globais de trigo, tendo de buscar em outros países 60% do que consome, de acordo com a Abitrigo (Associação Brasileira das Indústrias de Trigo), maior patamar desde 2008.

Análise do mercado

De acordo com dados da organização mundial de agricultura (FAO), 14 países compram da Ucrânia o equivalente a mais de 10% de seu consumo interno de trigo. Desses países, um número significativo já apresenta problemas de segurança alimentar, como o Iêmen e a Líbia.

Pedro Serra, Head de Research da Ativa Investimentos, avaliou que mesmo antes dos ataques, conflitos como os que vinham ocorrendo já trazem aversão ao risco nos mercados e esse seria o primeiro canal de transferência, com a possibilidade de fuga de capital de países emergentes para aqueles mais seguros. Porém, vale também traçar um panorama da importância da Ucrânia no cenário internacional.

Com uma das terras mais férteis do planeta, a Ucrânia é um destaque da agricultura europeia há séculos. Atualmente, o país é responsável pela produção de 13% do milho e 7% do trigo mundiais. Além disso, a Ucrânia é um dos maiores exportadores mundiais de outros grãos, como cevada e centeio.

“Caso o surgimento de um conflito bélico na Ucrânia venha a afetar de forma significativa as safras agrícolas do país, podem ocorrer efeitos diversos ao redor do mundo, nomeadamente nos preços de trigo, milho e fertilizantes agrícolas”.

Conforme o especialista, a M Dias Branco, que depende da importação de trigo, assim como a Santa Amália, marca de massas e biscoitos recentemente adquirida pela Camil, deverão sentir efeitos negativos advindos das altas do trigo.

Já a alta do milho, impulsionado pelo conflito ucraniano e a estiagem no Sul do Brasil, pode ser favorável para empresas que produzem e exportam esses grãos, como a SLC Agrícola (SLCE3) e a Brasil Agro (AGRO3).

Por outro lado, empresas compradoras de milho como BRF (BRFS3), Seara (JBS) e Ambev (ABEV3) deverão sentir impactos negativos em seus resultados.

Para além da distorção nos preços de trigo e milho, a crise ucraniana pode também desencadear efeitos adversos no mercado de fertilizantes de forma direta e indireta. Direta porque um potencial conflito pode reduzir as exportações de fertilizantes ucranianos e já vem afetando fábricas de fertilizantes, que tiveram as operações temporariamente paralisadas na região por motivos de segurança.

Andréia Leite

é repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar