Ritmo de queda dos juros do rotativo do cartão de crédito abaixo do esperado

Em: 30 de janeiro de 2020
Redução dos juros no cheque especial e no cartão de crédito não acompanha queda na Taxa Selic
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Redução dos juros no cheque especial e no cartão de crédito não acompanha queda na Taxa Selic

Os juros do rotativo do cartão de crédito subiram e do cheque especial caíram em dezembro de 2019, de acordo com divulgação do BC (Banco Central), desta quarta (29). Fontes ouvidas pelo Jornal do Commercio consideraram que os valores cobrados nessas modalidades de crédito – as mais caras entre as oferecidas pelos bancos – estão caindo em uma velocidade aquém da taxa básica Selic e em um ritmo abaixo da necessidade da economia do país.

A boa notícia é que, apesar do vai e vem das taxas, e da recuperação econômica brasileira em intensidade abaixo do esperado por investidores e consumidores, o estoque de empréstimos bancários subiu. A alta foi de 1,6% em relação a novembro, e de 6,5% no acumulado. O saldo atingido em todo o país foi de R$ 3,47 trilhões, o equivalente a 47,8% do PIB brasileiro.

A taxa média do rotativo do cartão de crédito subiu 0,6 ponto percentual em relação a novembro, chegando a 318,9% ao ano. Em todo o ano passado, o crescimento foi de 33,5 pontos percentuais acima do percentual de 2018 (285,4%). O valor toma como base os dados de consumidores adimplentes (-6,7 pontos percentuais e 287,1% ao ano) e inadimplentes (+5,3 p.p. e 339,6%). 

O rotativo é o crédito tomado pelo consumidor quando paga menos que o valor integral da fatura do cartão. O crédito rotativo dura 30 dias. Após esse prazo, as instituições financeiras parcelam a dívida. Na modalidade de parcelamento das compras pelo cartão, a taxa chegou a 176% ao ano, com queda de 2,7 pontos percentuais.

Em contraste, a taxa de juros do cheque especial caiu 4,1 ponto percentual em dezembro de 2019, comparada a novembro, e chegou a 302,5% ao ano. A queda acumulou 10,1 pontos percentuais, de janeiro a dezembro de 2019. Em 2018 – quando valor foi de 312,6% –, os bancos anunciaram uma medida de autorregulamentação que não deu certo. Por isso, o BC decidiu limitar a taxa para 8% (151,8% ao ano) e liberar a cobrança de tarifas bancárias de 0,25% sobre o limite do cheque especial que exceder R$ 500, a partir de junho.

Empréstimos e inadimplência

A taxa de juros do crédito pessoal não consignado caiu para 94,6% ao ano em dezembro, com queda de 8,4 pontos percentuais em relação a novembro. No caso consignado, o valor recuou 0,1 percentual, indo para 20,5% ao ano – a menor taxa da série histórica, iniciada em janeiro de 2004. Conforme o BC, a taxa média para as famílias (47,3% ao ano) caiu 2,8 ponto percentual e, para as empresas (16,5%), diminuiu 0,8 ponto percentual.

A inadimplência do crédito para pessoas físicas ficou estável em 5%. Para as pessoas jurídicas (2,1%), a retração foi de 0,4 ponto percentual. Os dados são para o crédito livre, em que os bancos têm autonomia para emprestar o dinheiro captado no mercado e definir as taxas de juros cobradas dos clientes.

“Fora da realidade”

O presidente da ACA (Associação Comercial do Amazonas), Ataliba David Antônio Filho, considera que o aumento no volume de estoque de crédito, embora em nível ainda acanhado, é uma boa notícia para o varejo local, assim como a redução do custo do crédito para as empresas. O dirigente lamentou, contudo, que as reduções seguidas na taxa básica de juros não tenham chegado aos cartões de crédito.

“O pior é que os cartões são justamente a modalidade de crédito mais usada pelo consumidor e uma notícia muito ruim. Acho que o fato de os bancos não repassarem as quedas da Selic não condiz com a atual realidade econômica brasileira”, lamentou.

No entendimento do presidente da ACA, o aumento dos juros no cartão de crédito, além da lenta redução dos juros para outras modalidades, vai comprometer o crescimento potencial do comércio varejista, especialmente no segmento de bens duráveis e nas compras de longo prazo, onde o custo do dinheiro é fundamental para o consumidor se decidir pela compra.

“Nossas expectativas ainda são boas para o setor, dado o bom desempenho de outras atividades, como construção civil, indústria e serviços, que ajudam a alavancar o varejo. Mas, essa situação deve comprometer as vendas para esse tipo de produto, embora não gere tanta diferença para vestuário, calçados e utilidades domésticas, por exemplo”, amenizou. 

“Contra a orientação”

O presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens e Serviços do Amazonas), Aderson Frota, reforçou ao Jornal do Commercio que a virtual falta de concorrência do setor bancário alimenta as taxas de juros nos meios de pagamento de acesso mais fácil ao consumidor, em um processo “inexplicável” e “inaceitável”, diante dos números de inflação e dos juros. 

“E isso ocorre, apesar da orientação do BC para os bancos reduzirem a negatividade e reabilitarem o consumidor ao crédito e às compras. Não entendo porque a autoridade monetária ficou impassível diante dessas taxas abusivas. Voltarei a abordar esse tema na próxima reunião da CNC [Confederação Nacional do Comércio]. O Banco Central tem que se explicar sobre isso”, arrematou.  

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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