A Conab revisou para baixo, pela segunda vez consecutiva, a projeção para a safra de cana-de-açúcar 2022/2023 do Amazonas. Divulgado na semana passada, o terceiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento mostra expectativa de produção de 217.600 toneladas, configurando um tombo de 28,90% em relação à safra de 2021/2022 (306.300 toneladas). As estimativas anteriores, divulgadas em abril e agosto, indicavam altas respectivas de 4,59% (322 mil toneladas) e 0,3% (307.200 toneladas).
Com isso, o índice de desempenho do Estado caiu da 16ª para a última posição, em um ranking que reúne 19 unidades federativas e mais três performances negativas. Em contraste, a média nacional (+3,4%) foi corrigida para cima. A região Norte (+2,4%) também se manteve no campo positivo, embora já apareça com taxa de crescimento menor. Os melhores desempenhos foram registrados no Rio de Janeiro (+41,10%), Rio Grande do Norte (+23,70%) e Paraíba (+22,10%).
A cana-de-açúcar do Amazonas vem de um ciclo virtuoso nos últimos anos, tendo avançado 7,1% na safra anterior. As seguidas e decrescentes correções de rota da produção da cultura ocorreram em paralelo com a crise do IPI e os efeitos desse impasse político no polo de concentrados para refrigerantes do PIM – o principal cliente dos produtores do Amazonas. Os dados do ‘Novo Caged’, inclusive, mostraram oscilações significativas de mão de obra em Presidente Figueiredo, onde está a maior parte da oferta. A Conab, no entanto, avalia que o fator preponderante para a performance negativa da safra foi essencialmente climático.
“Nos últimos dois anos, o Estado esteve sob influência do fenômeno La Niña, que ocasionou alta precipitação e pouca radiação solar. Essa situação provocou uma alta saturação do solo, ocasionando uma severa restrição no desenvolvimento da cana, bem como forte lixiviação de nutrientes. Essa situação provocou uma drástica redução na produtividade, que, nesta safra está, está estimada em 56.532 quilogramas por hectare, sendo 31,9% inferior ao obtido na safra passada [83.011 kg/ha]”, assinalou o texto da pesquisa, ressalvando que as “boas precipitações” favoreceram o desenvolvimento das lavouras, na média das unidades federativas do Norte/Nordeste.
Produtividade e área
Até então, a expectativa era que a queda de produtividade no Amazonas seria de 3,9% (79.792 kg/ha) – no lugar da alta de 0,8% (83.634 kg/ha) incialmente projetada. O Estado também aparece com o pior numero do país nesse quesito, ficando bem atrás da média da região Norte (+2,4%), que também registrou declínio no Pará (-5,4%), mas não em Tocantins (+1,4%). O ranking é encabeçado por Paraíba (+21,70%), Rio Grande do Norte (+19,50%).
A Companhia Nacional de Abastecimento acrescenta que os efeitos do La Niña se fizeram presentes em outras regiões do país, com “graves estiagens e geadas”, principalmente no Paraná e em São Paulo. Mas, a intensidade foi menor e foi identificada uma “pequena melhora nas condições dos canaviais”. A produtividade média da atual safra brasileira deve subir 3,9% e atingir 72.026 quilogramas por hectare, “devido à melhoria das condições das lavouras em quase todos os Estados”, embora o patamar ainda esteja abaixo das safras 2019/20 e 2020/21 (76.000 kg/ha).
Os dados da estatal referentes ao Amazonas só foram positivos para área total prevista para a presente safra, que foram corrigidos para cima, na contramão do dado brasileiro (-0,5%). A estimativa é de alta de 3,8% entre e 2021/2022 (3.800 hectares) e 2022/2023 (4.000 hectares). A área colhida ainda deve ser de 3.900 hectares, 4,3% a mais do que a do período precedente (3.700 hectares). A estimativa de área de plantio, por sua vez, é 90,70% maior, tendo passado para 800 hectares. Mas, a expectativa para a área destinada às mudas (100 hectares) segue com decréscimo de 12,3%.
ATR e etanol
O desempenho estadual em valores de ATR (açúcar total recuperável), que é a soma total dos açucares contidos na cana efetivamente aproveitados para a indústria sucroalcooleira, também aparece com tombo significativo. A Conab espera que o ATR total desabe nada menos do que 28,10%, na comparação da safra 2022/2023 (23.288 toneladas) com a de 2021/2022 (32.377 toneladas). Já a projeção para o ATR médio ainda é positiva, mas a taxa de elevação calculada para a mesma comparação foi diminuída para 1,2% (107 kg/ton).
O percentual de aproveitamento da cana cultivada no Amazonas deve ser menor para a produção do açúcar. Segundo o levantamento, o Estado deve somar 12.100 toneladas para este fim, 17,69% a menos do que na safra de 2021/2022 (14.700 toneladas). O dado é ainda pior para o álcool hidratado, que não deve passar dos 4,585 milhões de litros e ficar 40,43% atrás do patamar anterior (7,697 milhões de litros). Em ambos os casos, as projeções sofreram reduções em relação ao levantamento anterior. A produção amazonense é destinada exclusivamente ao álcool hidratado, não havendo dados locais sobre álcool anidro.
A Conab confirma que a maior parte da colheita na região Norte ocorre entre agosto e março. Acrescenta também que, tanto pelo relevo acidentado, quanto pela disponibilidade de mão de obra, o percentual de colheita manual (74%) supera o mecanizado (26%), nos Estados nortistas. O Amazonas, entretanto, aparece como um ponto fora da curva, já que conta com 100% de sua colheita mecanizada desde a safra de 2015/2016.
Preços e clima
Embora concorde que chuvas em excesso e estiagem são fatores climáticos que atingiram a agricultura amazonense como um todo, o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, ressaltou que a produção de cana de açúcar, assim como as demais “culturas agrícolas e industriais” vem sendo impactada pela alta dos custos de insumos para atividade, como adubos e fertilizantes. “A tendência é de persistência da alta, principalmente pela continuidade do conflito Rússia e Ucrânia. Ainda é difícil prever o patamar da produção nos próximos meses, diante das incertezas relacionadas aos preços à questão climática”, assinalou.
O ex-superintendente da Conab, administrador com especialização na gestão de informação ao agronegócio familiar e empresarial, e colaborador do Jornal do Commercio, Thomaz Meirelles, ressalta que a safra não é unicamente direcionada ao açúcar e etanol, mas também para outros fins, como produção de ‘rapadurinhas’. Ele concorda que o resultado se deveu à queda da produtividade e descarta qualquer influência da crise do IPI no resultado. “Certamente o custo de produção aumentou, mas não houve um breque de produção por fatores de mercado. E a área de plantação até aumentou”, encerrou.
Procurado pelo Jornal do Commercio, o titular da Sepror (Secretaria de Produção Rural do Amazonas), Petrúcio Magalhães Júnior, não retornou as perguntas da reportagem, antes do fechamento desta edição.







