Saúde pelas mãos do kumu tuyuka

Em: 13 de junho de 2017
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Um dia, lá no alto rio Negro, a prima do tukano João Paulo foi mordida por uma cobra venenosa e acabou sendo trazida às pressas para Manaus, para ser tratada. Em Manaus o diagnóstico do médico não demorou: amputar a perna da garota, ao que a família dela se opôs de imediato. Uma “briga” com o médico e o hospital para retirá-la de lá demorou ao menos duas semanas, até que a Justiça interveio e autorizou que a família retirasse a garota do hospital. Levada de volta para a aldeia, o pajé resolveu tratá-la com suas rezas e remédios da mata. Com pouco tempo a garota ficou boa, sem precisar amputar a perna. Essa história aconteceu há dez anos.

Desde então João Paulo, hoje antropólogo, ficou com a indagação na cabeça sobre se a medicina tradicional, utilizada por seu povo há milênios, não era tão boa quanto a dos homens brancos e concluiu que, em muitos casos, sim. Então, no dia 6 passado, João Paulo inaugurou, em Manaus, o Bahserikow’i ou, traduzindo do tukano para o português, Centro de Medicina Indígena da Amazônia.

Os responsáveis pelo centro são o próprio João Paulo e seu sobrinho, Ivan Barreto. Realizando os tratamentos, o kumu, ou pajé, Manoel Lima, da etnia tuyuca, que benze e receita plantas medicinais, para os mais diversos tipos de males. Mas segundo Ivan, o centro não faz distinção de etnias. Kumuãs (pajés) de qualquer povo podem prestar seus serviços. “O kumu faz um primeiro atendimento, uma consulta, onde o paciente vai falar sobre o seu problema. Então se decide sobre o tratamento a ser realizado. Essa consulta custa R$ 10. Depois ele vai ver o tempo de tratamento, as rezas e os remédios que vai usar, aí entram outros preços”, contou.

Orações poderosas
Informações do Instituto Socioambiental dizem que as atividades do kumu, ou benzedor, são desempenhadas pelos homens mais velhos das aldeias tuyuka, os quais fazem os benzimentos que acompanham o ciclo de vida de uma pessoa, desde o nascimento, a primeira menstruação e outras fases da vida, e também atuam em casos de doenças. Os tuyuka, ou ‘filhos da cobra de pedra’, são um dos povos da família linguística tukano oriental, do noroeste amazônico, habitando a fronteira entre o Brasil e Colômbia. Já os tukano vivem às margens do rio Uaupés e seus afluentes (Tiquié, Papuri, Querari e outros menores), reunindo atualmente 17 etnias, muitas das quais vivendo também na Colômbia, na mesma bacia fluvial e na bacia do rio Apapóris (tributário do Japurá).

Barreto é incisivo quanto a eficácia dos tratamentos. “As orações do kumu são poderosas e servem para afastar as energias negativas do corpo de uma pessoa, ou da casa onde ela esteja morando. O kumu benze feridas e pós-cirurgias para que cicatrizem mais rapidamente. Apesar de nossos povos serem do alto rio Negro, o kumu está utilizando plantas vindas do médio Purus, porque não importa o lugar de onde venham, o poder de cura delas é o mesmo”, disse.

Mas o Bahserikow’i é apenas o começo do que João Paulo e Ivan pretendem fazer funcionar no antigo casarão localizado na rua Bernardo Ramos, 97, no Centro. “Hoje servimos chibé (farinha com água), que pode ser acrescido com açaí e tapioca, mas em breve teremos um restaurante com comidas típicas dos povos do alto rio Negro, como a mujeca (peixe com goma), a kinhãpira (sopa de peixes super apimentada) e beiju, a mesma tapioca que comemos nos cafés regionais, sendo que em tamanho gigante”, adiantou Ivan. Outras atividades culturais também fazem parte dos planos, diz Barreto.

“Também realizaremos eventos e cursos de línguas. Só os tukano falam ao menos 16 línguas distintas. Outro curso será sobre cosmologia, para ensinar sobre a origem de nossos povos”, encerra.

O Bahserikow’i funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 13h30 às 17h. Informações: (92) 9 8249-5991.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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