Lideranças do segmento de agronegócios do Amazonas veem na mecanização das atividades no campo como uma forma de alavancar a produção no Estado, que hoje importa pelo menos 80% dos alimentos consumidos no mercado interno. O problema é que a maneira rudimentar de cultivo, centrado nas queimadas, está fora da realidade, desgasta cada vez mais o solo amazônico e enfrenta uma acirrada resistência dos defensores do meio ambiente.
A inovação obriga a adoção de novas práticas agrícolas que, aliadas a estudos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) sobre o uso de novos defensivos agrícolas, podem viabilizar o plantio de espécies com alto poder econômico na região. Entre esses produtos, figura o milho, cuja produção ainda incipiente não atende às necessidades dos produtores locais.
Com isso, o milho é importado de outros Estados e chega às mãos do agricultor com preço onerado. E poucos têm capital para a compra do grão, de primeira necessidade nas atividades agropecuárias. Para agravar a situação, o grupo Amaggi, proprietário do Terminal Graneleiro de Itacoatiara, só vende o produto a partir de cinco toneladas, praticamente inviável para a maioria dos agricultores. A mesma quantidade é exigida para o farelo de soja, outro insumo muito usado no Estado.
“O problema é que nosso solo é muito pobre em calcário, inadequado para o plantio de milho, mas um estudo divulgado recentemente pela Embrapa aponta que a espécie tem grande viabilidade econômica se forem adotadas novas técnicas de cultivo e também o uso de novos defensivos agrícolas”, afirma o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço.
A técnica da Embrapa consiste no uso da bactéria Azospirillum brasiliense que é inoculada em sementes de milho para plantio em terra-firme. Segundo pesquisadores, a tecnologia permitiu uma economia de 20 quilos de nitrogênio por hectare e rendimento superior em 104% à medida da cultura no Amazonas.
“O rendimento médio foi de 5.359 kg por hectare, enquanto a média de produtividade dos cultivos de milho no Estado é de 2.626 kg por hectare”, diz Muni Lourenço. “Com isso, o Amazonas pode se tornar autossustentável na produção do grão, que hoje também passou a ser importado de Tocantins e do Mato Grosso”, acrescenta. “Mas faltam políticas públicas e um maior incentivo à produção para tornar essas novas medidas viáveis”.
Hoje, a saca de milho de 60 quilos custa R$ 49 e a tonelada de farelo de soja, R$ 1.720, no Amazonas. São pelo menos 300 mil produtores rurais que dependem desses insumos para manter as atividades. E são necessárias algo em torno de 120 toneladas anuais de milho para abastecer o mercado interno.
O caroço de algodão e a casquinha de soja são outros insumos também de grande utilidade na região, mas o grupo Amaggi ainda não liberou a venda dos produtos, só disponíveis por enquanto para exportação, segundo agricultores.
Para Lourenço, o que dita hoje os investimentos no setor de agronegócios, principalmente agora com as polêmicas envolvendo a preservação do meio ambiente, é o viés ‘produção x projetos autossustentáveis’. “As velhas práticas agrícolas já não comportam iniciativas e devem ser substituídas pela mecanização, que pode aumentar a produção e também preservar as florestas”, avalia ele.
Preocupado com a repercussão negativa sobre o meio ambiente, o próprio governo do Amazonas anunciou recentemente o zoneamento para definir as áreas que devem ser cultivadas pelos produtores no Estado, uma forma de combater queimadas, desmatamentos e a exploração de madeira e minérios por atividades ilegais.
Mas para essa nova realidade das atividades no campo faz-se necessário preparar tecnicamente o produtor, aplicar cursos efetivamente e desenvolver uma maior campanha de conscientização sobre a preservação ambiental. O que ainda está muito longe de ser consolidada no Estado, avaliam consultores econômicos.
A defesa da floresta amazônica em pé chegou a níveis mundiais tão importantes que obrigou o presidente Jair Bolsonaro (PSL-SP) a rever as suas declarações sobre a iniciativa de abrir a exploração dos recursos naturais da Amazônia pela iniciativa privada. E as vozes do mundo vieram em coro, principalmente da França e da Alemanha, levando à suspensão de financiamentos de recursos estrangeiros que alimentam o Fundo Amazônia.
Segundo o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC-AM), o Estado utiliza também recursos para a preservação ambiental que não fazem parte do Fundo Amazônia. “O zoneamento é uma premissa para convencer o mundo que desenvolvemos medidas de proteção da floresta”, disse.
Quando esteve há pelo menos dois meses em Manaus, acompanhado de uma comitiva de ministros, o ministro-chefe da Casa Civil, Onix Lorenzoni (DEM-RS), anunciou que a manutenção do Fundo Amazônia está garantida. “Os recursos serão retomados e a floresta continuará sendo defendida. É o nosso compromisso”, disse.







