Ao contrário de Machado de Assis, que em um de seus textos anuncia ‘ao vencedor as batatas’, a ONU (Organização das Nações Unidas) está pedindo aos países-membros que plantem o tubérculo como forma de driblar a crise de alimentos pela qual passam países como o Haiti, onde protestos dos famintos, ou como diria o presidente petista, os ‘sem-comida’ fizeram o primeiro-ministro daquele país caribenho renunciar, enquanto na República dos Camarões pelo menos 24 pessoas morreram na repressão que se seguiu ao protesto dos sem-comida. Mais prosaica e efetiva talvez tenha sido a decisão do governo egípcio ao ordenar o aumento da produção de pão nas panificadoras tocadas pelos militares daquele país oriental com a finalidade de reduzir as imensas filas nas padarias convencionais em busca do alimento.
Já nas Filipinas, onde exibe sua beleza a nativa Priscila Meirelles, o governo não quer muita conversa: se o cidadão estocar o alimento básico da dieta daquele país, o arroz, vai enfrentar prisão perpétua pelo crime.
A causa de todo este rebuliço é o aumento do preço dos grãos no mercado internacional onde, no decorrer de 2007, o trigo teve aumento de 77% e o arroz 16%, conforme matéria publicada na edição 2.793/170 do Jornal do Senado. De acordo com o texto, a tendência de alta se mantém e, só neste ano de 2008, o preço do arroz já subiu mais de 140%, enquanto uma espécie de trigo superou os 25%.
As causas do aumento no preço destas commodities no mercado internacional são apontadas de forma variada, dependendo dos interesses de quem está analisando a escalada dos preços. Para uma determinada facção, o problema se deve à competição por regiões de cultivo entre a produção de alimentos ou a de etanol. Quer dizer, o dilema econômico antes colocado em termos de armas e alimentos, agora se configura com a alteração da variável armas para energia, contrapondo-se aos alimentos. Neste espectro de posições contrárias à produção de etanol para privilegiar a de alimentos, o Brasil é apontado como um dos países a concorrer para a falta de alimento no mundo.
A assertiva não se sustenta, no entanto, quando se sabe que das 666 (que número!) milhões de toneladas de grãos a ser produzidas neste ano, conforme estimativa da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), 21%, ou 140 milhões de toneladas, brotaram ‘neste país’. De outro lado, o valor estimado pela FAO demonstra a expansão de 2,3% na oferta mundial de grãos ao redor do planeta, configurando em um recorde, atesta aquela organização.
Em que pese a controvérsia a respeito do desempenho brasileiro no cultivo da cana-de-açúcar ou de grãos, o país tem uma posição invejável no cenário mundial em relação ao cultivo de alimentos no território nacional. A produção anual de 420,12 milhões de toneladas de cana-de-açúcar assegura o 1º lugar no ranking mundial com a participação de 32,5%. A laranja brasileira tem participação de 29,8% no mercado internacional, banana tem 9,2%, feijão participa com 16,4%, café 28%, mamão fica com 24,2% e o mate brasileiro tem 63,4% do mercado mundial. Em todos estes alimentos listados acima, o Brasil detém a liderança na oferta, além de outros como soja, carne de frango e bovina nos quais tem assegurada a segunda posição.
Cabe ainda registrar que, em artigo publicado na edição de 2 de maio do Jornal da Ciência, órgão da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), o chefe-geral da Embrapa Agroenergia, Frederico Durães, assegura que no Brasil “a matéria-prima para a produção do etanol brasileiro equivale a 2,3% da área destinada à produção agrícola no país, representa 1,7% das áreas agricultáveis e 0,8% da área total do território nacional”. Como se vê, ainda há muito por se produzir tanto em vegetais voltados para fins energéticos quanto aqueles direcionados à alimentação. Aliás, nas duas situações só o usuário final é que é diferenciado já que, em última instância, estamos tratando mesmo é de energia: para máquinas ou seres humanos.
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