
Evaldo Ferreira: @evaldo.am
Quando você encontrar um tronco de árvore jogado no chão, seja na cidade, ou no interior, não deixe que ele se perca sendo queimado ou simplesmente apodreça, com o tempo. Saiba que o escultor Sebastião Tavares transforma peças brutas de madeira em belas obras de arte.
Tavares, como é conhecido artisticamente, nasceu no interior de Itacoatiara, na comunidade Agostinho, mas passou sua infância e adolescência do outro lado do rio Amazonas, na cidade de Urucurituba. Foi nessa fase de sua vida que o artista começou a surgir no garoto.
“Eu gostava de desenhar barcos. O tempo todo desenhava barcos, em casa na escola. Era o que eu via, navegando no rio Amazonas, sem falar que meu pai era pescador. Desenhava o que via e gostava, mas os adultos não entendiam isso. Na escola, acabava minhas lições rapidamente e começava a desenhar, aí a professora ia lá, me ralhava e ainda puxava minha orelha, mandando voltar a estudar”, recordou.
Mas o menino não se deixou vencer pelo medo dos ralhos e puxões de orelha.
“Com 14 anos me matriculei num curso de datilografia. Minha mãe achava que aquele seria o meu futuro, mas no curso descobri que o professor também ensinava desenho, e direcionei meu interesse para esse curso, então ele me ensinou a dar mais vida aos meus desenhos de barco, com água batendo no casco, o céu e a mata como cenário, pássaros voando, detalhes das embarcações”, contou.
Como todo adolescente que gosta de desenhar, super-heróis são personagens frequentes em seu imaginário.
“Desenhava na cartolina, com pincel atômico. Quando estava com uns 16, 17 anos passei para as paisagens amazônicas. Com uns 25 anos comecei a pintar telas e, um dia, resolvi esculpir talhas em madeira”, disse.


Alcântara e Tavares
Como todo começo, lógico que os trabalhos iniciais de Tavares não ficaram perfeitos. A perfeição só vem com a prática. Com pouco tempo, o futuro artista passou das talhas para as esculturas. Já em Manaus, em 1990, ele começou dando suas obras, mas depois viu que podia ganhar dinheiro com elas.
“Fui aprendendo sozinho, entre erros e acertos. Visitava exposições e via como os artistas faziam, e tentava fazer igual. Também comprava livros e lia sobre o assunto. Com o tempo fui desenvolvendo a técnica da escultura em madeira, e conhecendo as melhores para se trabalhar”, falou.
De troncos de árvores, cada vez mais perfeitos, surgiam peixes, cutias, antas, cobras, jacarés, tucanos, araras e onças, em vários tamanhos, movimentos e situações diversas, de acordo com o tronco.
O precursor desse tipo de escultura, em troncos inteiriços, foi o também interiorano José de Moura Alcântara, o Alcântara, do Careiro, que no início da década de 1980 se consagrou com suas maravilhosas esculturas, chamando a atenção de quem as via pela perfeição das peças. Tavares atingiu a perfeição de Alcântara.
“Já se vão 30 anos, esculpindo, e de vez em quando fazendo talhas tridimensionais”, revelou.
Uma curiosidade. Assim como o menino Tavares era um apaixonado por desenhar barcos, o homem Tavares tem fixação por onças.

“Não sei porque, mas sempre que vejo uma bela peça de madeira, imagino uma onça saindo dali, e não demora, ela surge mesmo”, garantiu.
Uma peça de pouco mais de um metro pode levar em média de dez a quinze dias para ficar pronta. Com a pintura, o tempo chega a 50/60 dias.
Em busca de troncos
As melhores madeiras para se fazer uma obra inteira num tronco, segundo Tavares, são a mangueira, a jaqueira e a castanhola, além da muirapiranga, ou falso Pau-Brasil, devido à cor vermelha desta madeira. Dificilmente elas racham.
“Eu faço escultura de qualquer animal amazônico. Entalho inicialmente com a motosserra, depois faço o acabamento e os detalhes com outras ferramentas de marcenaria. Posso esculpir tanto uma peça única quanto montar com outras peças menores. Pela prática que tenho nesses mais de 30 anos, não penso muito antes de fazer. Já imagino uma pose do animal, principalmente no caso da onça, que pode estar em diferentes posições, e começo a esculpir”, informou.
“Qualquer peça que eu faço, vende rapidamente. Faço mais onças porque, assim como os barcos de antigamente, elas me atraem”, explicou.
Com Tavares, nenhuma madeira se perde. De uma prancha sai uma talha, de uma ‘bolacha’ de um tronco surge o tampo de uma mesa ou de um móvel, de uma peça ainda menor aparece um prato.

“Ando sempre procurando árvores derrubadas pela cidade, ou no interior, em busca de troncos. Trabalho qualquer madeira. Algumas são melhores do que outras, mas em todas pode se esculpir fazendo surgir belas peças. Só não faço imagens de santos, porque sou Testemunha de Jeová e isso iria contra a minha religião”, adiantou.
Quem quiser conhecer pessoalmente as obras de Tavares pode visitar a galeria Palácio das Artes, no Millennium Shopping; ou visitar seu Face e canal no YouTube: Sebastião Tavares Crizostomo. Informações: 9 9613-5874.







