A crônica em jornais impressos, no Brasil, surgiu na segunda metade do século 19 e alguns dos grandes nomes da literatura nacional, como Machado de Assis e José de Alencar, entre outros, surgiram a partir de suas crônicas publicadas em jornais da época, depois reunidas e transformadas em romances.
Em Manaus o Jornal do Commercio mantém essa tradição, típica do jornal impresso, que é a crônica, texto leve, geralmente apresentando um toque sutil de humor, que narra fatos cotidianos com reflexões, teses e argumentos. São cronistas do JC, Pedro Lindoso, Adriel França e Pedro K. Calheiros. Pedro, no sábado passado, 15, alcançou um patamar mais elevado na literatura ao tomar posse na Alaca (Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia). Pedro, inicialmente, como todo jovem romântico, iniciou escrevendo poesias e foi exatamente no Jornal do Commercio, onde escreve desde 2021, que enveredou para as crônicas.
“Comecei a escrever poesias na quarta-série, quando tinha 15 anos. Elas falavam de amor e surgiram como resultado de minha primeira paixão”, recordou.
O jovem, de apenas 22 anos, carrega consigo um legado familiar importante na literatura amazônica. Ele é filho do escritor e advogado itacoatiarense Francisco Calheiros, um expoente na literatura da região.
“Meu pai foi o melhor pai que eu poderia ter tido. Sempre me incentivou, desde cedo, a escrever, a participar de saraus e foi o ‘paitrocinador’ de meus dois primeiros livros, ‘O amor em quatro versos’, de 2015; e ‘Epifania poética’, de 2018”, falou.
Francisco Calheiros faleceu em 2020, em decorrência de complicações da covid-19.
Talento do pai
Francisco Soares Calheiros (1968/2020) veio para Manaus ainda menino e aqui cursou a Faculdade de Letras, na Ufam. Tornou-se professor publicando os livros ‘Provável poesia’, ‘Canções de novembro e algumas preces’ e ‘Quadro negro’, depois formando-se advogado. Deixou inéditos os livros ‘Flores da rua Aquilino’, ‘João Operário’ e ‘Os filhos da Serpa’. Francisco também foi membro de uma academia, a Alcama (Academia de Letras e Culturas da Amazônia). Mesmo vivendo em Manaus, o escritor nunca esqueceu de Itacoatiara, tanto que é um dos fundadores da AIL (Academia Itacoatiarense de Letras), localizada num prédio histórico da Velha Serpa.
Certamente, um dos grandes feitos de Francisco como advogado tenha sido, poucos dias antes de ser internado, conseguir uma medida judicial que beneficiou a pequena Isadora Thury, portadora de AME (Atrofia Muscular Espinhal), para que se completasse o pagamento do remédio mais caro do mundo, o Zolgensma, o único capaz de salvar-lhe a vida. A iniciativa de Calheiros garantiu R$ 9,5 milhões, que se somaram aos R$ 2,5 milhões obtidos em campanha solidária pela internet para completar o valor do medicamento.
Trazendo na veia o talento do pai para a escrita, Pedro Calheiros publicou ‘O amor em quatro versos’ quando contava 15 anos e, dois anos depois, foi a vez de ‘Epifania poética’.
“Estou preparando mais dois livros, um de crônicas e mais um de poesias. Escrever significa expressar os meus sentimentos através das palavras. Sinto que, através da escrita, transformo um pouco a minha realidade, e a realidade de quem lê, em algo um pouco melhor”, disse.
“Se sou romântico? Olha, sou sim. Mas depende. O meu coração precisa ser fisgado de um jeito especial para eu ser romântico. Não são todas as mulheres que têm acesso a esse lado”, riu.


Reconhecimento no JC
A Alaca foi idealizada pelo jornalista e escritor Rômulo Sena, e fundada em agosto do ano passado com a posse de 115 imortais. Rômulo, atual presidente da Academia destaca que “a instituição cultural é de grande importância para a Amazônia e tem como objetivo reafirmar e reforçar o papel da literatura, da arte e da cultura amazônica e brasileira”.
“Todos os membros indicados para fazer parte da Alaca estão envolvidos nessas vertentes artísticas, com obras publicadas ou projetos em andamento, representando o compromisso da Academia em promover e valorizar a produção cultural da região amazônica e do Brasil”, afirmou.
“O fato de Pedro estar prestes a lançar mais dois livros representa um novo marco em sua carreira literária. Sua posse na Alaca é um reconhecimento de seu trabalho e contribuição para a literatura amazônica, bem como sua conexão com o legado literário de sua família”, concluiu.
No Jornal do Commercio as crônicas de Pedro, lógico, são sobre o amor, mas também descrevem vivências e retratos da sociedade.
“Fico feliz em saber que minhas crônicas no JC têm sido reconhecidas pela qualidade da escrita, além de contribuírem para a cena literária local”, informou.
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