Cachaça. A mais brasileira das bebidas, pois surgiu no Brasil nos seus anos iniciais de existência já que o primeiro engenho foi implantado no país em 1532 para se produzir açúcar e, quem sabe, cachaça.
Nas décadas seguintes a produção e o comércio da bebida se tornaram tão intensos que preocuparam Portugal. Vem da época colonial o 13 de setembro (ver box), que desde 2010 passou a ser comemorado como o Dia da Cachaça.
Durante décadas estigmatizada como bebida de pobres e que levava seus consumidores para a sarjeta, a cachaça deu a volta por cima e hoje consegue destaque entre as bebidas nobres. Eventos em bares e restaurantes de várias capitais no país comemoram a data oferecendo drinques e até doces à base da ‘marvada’.
Em Manaus, Nildo Menezes, proprietário do Bar e Cantina Benedetta, é um especialista em cachaças. Em breve ele se formará sommelier.
“Há mais de 30 anos eu bebo cachaça. Meus familiares se reuniam em casa para beber cerveja e tirar gosto com cachaça. Com o tempo passei a colecionar as garrafas de todas as marcas novas que encontrava. Há menos de dois anos comecei a me interessar em conhecer a fundo sobre a bebida”, contou.
“Cachaça é uma coisa, aguardente é outra. Toda cachaça é uma aguardente, mas nem toda aguardente é cachaça. A cachaça é produzida a partir da destilação do caldo de cana fermentado. A aguardente é qualquer bebida obtida a partir da fermentação e destilação de vegetais doces, incluindo a cana de açúcar”, explicou.
Os segredos da boa cachaça
Existem diversos tipos de cachaças produzidas por todo o Brasil, com sabores e, principalmente, qualidades completamente diferentes, com teor alcoólico entre 38% e 48%. Como saber que se tem em mãos uma cachaça de boa qualidade? Siga as dicas de Nildo.
Diferentemente de outras bebidas, como o vinho e a cerveja, a cachaça deve ser sempre pura e bem branquinha (ou dourada, no caso de cachaças envelhecidas).
“Após servir a bebida no copo, faça movimentos circulares com ela que deve sempre escorrer pelas laterais como um óleo, uma característica de sua concentração alcoólica. Se escorrer rapidamente, não tem boa qualidade”, ensinou.
“A segunda dica é o olfato. Ao cheirar uma dose de cachaça, o cheiro da bebida não deve ser desagradável, ao contrário, deve ter aromas adocicados que remetam a madeiras, vegetais e frutas”, disse. “Se causar desconforto e sensação de ardor nas narinas e olhos, pode descartar a boa qualidade”, completou.
“Terceira dica. Assim como a boa cachaça não é agressiva para o olfato, também não o é para o paladar. Ela deve ser apreciada em pequenos goles, que permitem diminuir a agressividade do álcool para que se perceba todas as suas características. Nada de goladas, nem de pressa. Após servida, deixe a bebida alguns minutos descansando no copo”, falou.
“Pra completar, uma cachaça de qualidade não lhe deixará com dores de cabeça (ressaca) no dia seguinte, a não ser que se exagere no consumo, bem como você não ficará com hálito ruim, de bebida forte”, garantiu.
Quem quiser beber uma boa cachaça e ter aulas sobre a bebida, pode procurar o Nildo, no Bar e Cantina Benedetta, rua Padre Antônio Vieira, 101, D. Pedro I, fone: 9 9409-8393.
Homenagens a lendas amazônicas
Para comemorar a data, alguns mixologistas do Rio de Janeiro criaram drinques à base de cachaça homenageando personagens de lendas amazônicas.
O mixologista Roger Bastos, do bar The Rooftop, se inspirou no Curupira e criou o Rapicuru (cachaça em infusão de canela, Cynar, abóbora chinesa e purê de coco); a barmaid Laila Gusmão, do Yoo2, homenageou a Iara (cachaça, licor de açaí, martini rosso, xarope de amêndoas e limão); Cassiano, do Fairmont, criou o ‘Ele, o Boto’ (cachaça, Martiny Extra dry, xarope de cumarú, limão siciliano e espuma de beterraba); e Renato Tavares, da Jigger, foi de ‘Mãe da Mata’ (cachaça, leite de aveia com amêndoas, capim limão, mel e abacaxi).
Um pouco de história
Preocupados com o sucesso da aguardente, que atrapalhava o comércio de sua bebida, a bagaceira, os portugueses, através de uma Carta Real de 13 de setembro de 1649, proibiram a fabricação e a venda da cachaça em todo o território brasileiro.
Os proprietários de cana-de-açúcar e alambiques, indignados com as constantes cobranças de impostos ao longo dos anos e perseguidos por vender a bebida, se revoltam no dia 13 de setembro de 1661 e tomaram o poder no Rio de Janeiro por cinco meses resultando em um dos primeiros movimentos de insurreição nacional, a Revolta da Cachaça.
Com o poder restituído, o movimento foi repreendido com violência e o seu líder, Jerônimo Barbalho Bezerra, foi enforcado e decapitado, tendo sua cabeça pendurada no pelourinho da cidade, como exemplo à população fluminense.
Por isso o 13 de setembro passou a ser o Dia da Cachaça como uma forma de relembrar os tempos de um Brasil colonial, quando o destilado era símbolo de resistência contra a dominação portuguesa.
A data foi aprovada em outubro de 2010 pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados de Santa Catarina como resultado do projeto de lei do deputado Valdir Colatto.






