De grande influência na cultura dos lugares onde se instalam, os nordestinos acabam por ter a música, culinária, letras e até seus trejeitos linguísticos e de temperamento incorporados pelos habitantes locais. Assim, o dia 2 de agosto, escolhido por ser a data do falecimento do músico Luiz Gonzaga (13/12/1912 – 02/07/1989), dá início a Semana da Cultura Nordestina. E a escolha por Gonzaga é uma das mais óbvias, o “Rei do Baião”é tido como um dos grandes porta-vozes da cultura nordestina, por ele somente haver tocado melodias da região e cantado letras descrevendo os costumes do nordeste brasileiro, além de sempre trajar no seu tempo o chapéu e o gibão de couro, que são peças indispensáveis na vestimenta tradicional dos nordestinos.
De acordo com o historiador Aguinaldo Figueiredo, foram tantos os nordestinos que vieram, e vêm, para a Amazônia, e trazendo na bagagem uma cultura tão forte que não teve, e não tem, como muitos de seus hábitos e costumes não serem assimilados pela população local. “Talvez uma das mais importantes assimilações seja a massificação da língua portuguesa em detrimento às línguas nativas, muito faladas na região, além de termos característicos e até engraçados (arriégua, paid’égua, arrudeia, pru mode, baitola, sarrabulho, caçuá, cangalha, quenga, estrupício entre tantas); o folclore em forma de danças, folguedos, do alto do ‘boi bumbá’; a vaquejada, a variada culinária e a intensa miscigenação que, junto com outros tipos étnicos, mudou o fenótipo amazônico criando esse cadinho racial fenomenal que temos hoje na região”, explicou.
No Amazonas, que começou a receber os primeiros migrantes daquela região em 1887, algumas tradições nordestinas já se fundiram as locais a ponto de serem reconhecidas como próprias. Assim acontece com o boi bumbá, que tem origens no bumba-meu-boi maranhense e o forró, que em suas variantes (pé de serra, baião, xote), conquistou espaço nas rádios e gerou a abertura de inúmeras casas de shows em Manaus, mesmo que esse forró já não seja mais aquele do Gonzagão.
Influência nas letras
Na literatura amazonense, os migrantes são comuns desde o fim do século 19, sendo influência ou mesmo escrevendo. E uma das maiores tradições literárias nordestinas, o cordel, tem um representante amazonense, o dramatrugo e professor de Teatro na UEA (Universidade do Estado do Amazonas) Jorge Bandeira. Entre as obras de Bandeira no formato e na métrica cordelista estão ‘Luz del Fuego’, de 2003, ‘Alice Cordel’, de 2015 e “Rockordel – 10 estrelas da música pela literatura de cordel” de 2016, esta última com 110 páginas ‘cordelizadas’ biografando aristas e bandas como Lou Reed, Pink Floyd, David Bowie, Sérgio Sampaio, Jimi Hendrix, Joy Division, Rush, Lemmy Kilmister, Patti Smith e Raul Seixas.
“Meu avô, Francisco Almerindo Bandeira, era de Fortaleza, e tinha o hábito de ler cordéis, e aprendi a gostar dessa literatura com ele. Além dos que lancei, também vendo cordéis na minha loja ‘O Alienígena’. Quem os traz para mim é o cordelista José Lacerda que viaja pelo Brasil não só divulgando os mais de 400 folhetos dele como os de outros cordelistas do Nordeste”, disse Bandeira.
Saudades da buchada
O artista plástico José Stênio é da cidade cearense de Parambu, na região de Inhamuns. Logo que chegou a Manaus, em 1990, Stênio estranhou a culinária amazonense. “Aqui o pessoal come muito peixe, e lá onde eu morava nem água tinha, quanto mais peixe”, brincou. “Lá se come muita carne de porco, de carneiro, de frango e a buchada de bode, o prato mais típico do Nordeste que encontrei aqui. Mas tem que saber fazer, se não fica com mau cheiro.
Todas as buchadas de bode que encontrei em Manaus, em restaurantes, eram feitas por nordestinos”, falou.
Sobre o palavreado característico Stênio disse que o ‘ô xente’ é falado em todo o Nordeste, “Mas quando cheguei a Manaus, dizia ‘bulir’, ao invés de mexer, e as pessoas achavam engraçado, então fui mudando meu modo de falar. Mas tem um monte de palavras, que até já esqueci, só faladas na minha terra, como o ‘pau da venta’ (nariz), e o ‘cangote’ (atrás do pescoço) esta, originária da palavra ‘canga’, peça de madeira colocada sobre o pescoço dos bois para uni-los numa carroça.
Cangaceiro também se originou da palavra, devido à quantidade de armas carregadas pelos bandidos”, ensinou.
Stênio diz que uma prática comum onde morava era a vaquejada, e que a encontrou aqui em Manaus praticada por outros nordestinos que, inclusive fundaram a Sovama (Associação de Vaqueiros de Manaus), e a Avam (Associação de Vaqueiros do Amazonas). Na vaquejada dois vaqueiros montados a cavalo têm de derrubar um boi, puxando-o pelo rabo, entre duas faixas de cal. Muito popular na segunda metade do século 20, no Nordeste, passou a ser questionada a partir da década de 2010 por ativistas dos direitos humanos em virtude dos possíveis maus-tratos aos bois. No final do ano passado a Avam organizou uma vaquejada, no Tarumã, mas o Ministério Público Estadual determinou a suspensão do evento alegando ‘maus tratos contra os animais’.
*Colaborou Artur Mamede
“Brabo” como seu Lunga
A brabeza também é uma característica do nordestino em idade avançada. Na música “Respeita Januário”, Luiz Gonzaga conta de sua partida da casa dos pais aos 17 anos e o retorno, 17 anos depois, quando, então, com 34 anos, já começava a ficar famoso como cantor. Ele chega na escuridão da noite, bate na porta, o pai abre e pergunta: “quem é o senhor?”, ao que Luiz responde: “Luiz Gonzaga, seu filho”; e o velho retruca: “isso é hora de voltar pra casa, seu corno?”.
Outro ‘brabo’ que ficou famoso graças as redes sociais foi o cearense, de Caririaçu, Joaquim dos Santos Rodrigues, o seu Lunga, poeta, repentista e vendedor de sucata em Juazeiro do Norte. Seu Lunga se tornou conhecido pela falta de paciência nas respostas e acabou transformado em personagem de cordéis.
Uma ação na justiça impediu que os cordelistas continuassem a contar as histórias de sua brabeza, que ele dizia serem mentiras. Mas o comportamento de seu Lunga já havia ganhado fama nas redes sociais e ele acabou por se transformar em sinônimo de pessoas sem paciência. O velho ‘brabo’ morreu em 2014, aos 87 anos.
Além da mente fértil para os versos, o nordestino é conhecido por ser um povo alegre e comediante, cujas tiradas rápidas demonstram ter o ‘fazer rir’ na veia.
Nesses itens, parece que os cearenses se destacam: Chico Anísio (Maranguape), Renato Aragão (Sobral), Tom Cavalcante (Fortaleza), Falcão (Pereio), Tiririca (Itapipoca) e Tirulipa (Fortaleza), entre outros, são todos da terra de Iracema.







