Uma festa relacionada ao capital

Em: 28 de dezembro de 2012
Os presentes que não são tão caros são os que são mais apreciados
Os presentes que não são tão caros são os que são mais apreciados

Você, caro leitor, é convidado todo final de ano para participar das festas de confraternização que podem ser no seu local de trabalho, na sua escola, se for professor, ou na casa de supostos amigos. E você, caro leitor, sabe qual é o verdadeiro sentido das festas natalinas? E das festas de fim de ano? É compensar o índice de maldade praticado pelos poderosos contra os trabalhadores de todas as categorias. No final de cada ano proliferam os apelos à solidariedade, pedidos de doação de presentes para crianças das classes menos favorecidas da sociedade, cujos pais são pessoas assalariadas que não tem condições de fazer uma “cesta básica” quanto mais atender aos pedidos de seus filhos para compra de presentes escolhidas numa caixinha endereçada ao “Papai Noel”.
O caríssimo leitor desse centenário jornal já parou para pensar qual o real significado da famosíssima lenda do Papai Noel ou Pai Natal (“Noël” é natal em francês)? O que se conhece como “Papai Noel” é uma ideologia produzida para gerar consumo, consumismo, descarte etc.. Na sua homilia, o papa Bento 16 deixou também uma exortação relacionada com o consumismo do Natal: “Vamos pedir ao Senhor que nos ajude a ver através do esplendor superficial desta quadra, e a descobrir por trás dele a criança do estábulo de Belém, de modo a encontrar verdadeira alegria e luz”. E acrescentou: “Vamos nos desfazer da nossa fixação no que é material, no que pode ser medido e agarrado. Vamos nos permitir a simplicidade que se revela aos simples de coração”.
Deixemos registrado que o Papa proferiu essa violenta crítica durante a “Missa do Galo”. Ao proferir esta homilia, Bento 16 retoma, com um deslocamento de um século, o tema que já tinha abordado com vigor crítico no início do século 20 por certa escola de pensamento norte-americana, laica e liberal. O seu mais notável representante foi, à época, o jornalista, publicista e escritor satírico estadunidense A. G. Bierce (1842* 1913†). No livro intitulado The Devil’s Dictionary ele definia o Natal como “uma jornada que se consagra à glutonice, à embriaguez, ao sentimentalismo, às prendas, à estupidez pública e ao comportamento doméstico desordeiro”.
A. G. Bierce explica a que se refere: “as prendas” são as famosas “lembrancinhas” que se oferece ao “amigo oculto” “esperando receber alguma coisa melhor”. Nada muito estranho quando falamos de comportamentos que refletem o espírito do capital. Da glutonice, diz que “os homens convertem os seus ventres em deuses, e depois esses deuses mandam fazer festas”. Da embriaguez, diz que os homens só querem uma razão para chancelar o ato. O grosseiro materialismo que já então impregnava o consumo natalício fazia A. G. Bierce lamentar que não encontrasse alguém com suficiente coragem para desejar votos de “próspero Natal” e “feliz ano novo”.
O Papa Bento 16 teve a coragem para criticar o espírito consumista que está impregnado nesta festividade pagã quando disse: “o Natal tornou-se, hoje, uma celebração comercial cujo deslumbrante brilho oculta o mistério da humildade de Deus, que nos convida à humildade e à simplicidade. Roguemos ao Senhor para que nos ajude a ver mais além da cintilante superficialidade dessa época, para trás encontrar o Menino no estábulo de Belém, descobrindo assim a verdadeira alegria e a verdadeira luz”. Só que o consumismo, o descarte e outras patologias humanas já se agregaram a incontrolabilidade do capital e, por conta disso, já se instalou no mundo e em especial no seu rebanho.
O Natal é também uma das datas mais celebradas pelo varejo mundial. Comprar presentes, decorar a casa, preparar a “Ceia de Natal”, tudo faz parte de um ritual que atravessa gerações e fronteiras, e que se traduz, em última instância, no ato de consumir, consumir, consumir… e é claro poluir, poluir, poluir… e demais problemas ambientais motivados pela compulsividade relacionada ao “ir as compras”. Caixas, embalagens e papeis árvores, consumo de energia, e outras consequências menos conhecidas desta época impactam o ambiente de uma maneira que chega a ser chocantes. O consumismo é nocivo porque deixa Deus à margem fazendo do natal à festa do “Papai Noel”.
Claro que não existe nada de errado em querer presentear as pessoas, e entrar no clima da época natalina com a família, os amigos e os conhecidos. Agora, achamos que o ato de dar presentes é importante, no entanto, não achamos que o presente tenha de ser particularmente grande, caro etc.. Os presentes que não são tão caros são os que são mais apreciados. Em nossa opinião, devemos ter sempre em vista um orçamento específico que devemos tentar não ultrapassar. Quando estivermos escolhendo um presente para qualquer pessoa devemos ter em conta os gostos e tentar ficar o mais perto possível da prenda perfeita sem gastar muito dinheiro.
Outra coisa que consideramos imprescindível para esclarecer nossos leitores é recuperarmos o verdadeiro espírito do Natal. O verdadeiro espírito do Natal reside em ser um ser humano bom e generoso. Como sermos bons sem nos sentirmos bobos ou nos tornarmos tirânicos? Já aprendemos nos decorrer dos vários artigos publicados no ano de 2012, que toda relação contém em si algum tipo de troca, de intercâmbio; buscamos ser aceitos em nossa forma de estarmos no mundo, sermos compreendidos em nossos motivos e, principalmente, buscamos ser felizes. Ser bom é diferente de ser bobo, como também querer ser esperto também é diferente de ser generoso.
A diferença é simples: o bobo é aquele indivíduo que na verdade não sabe do que é capaz e, portanto, não consegue perceber do que o Outro é capaz, justamente por não ter real conhecimento da própria natureza humana, coloca-se numa posição de total desproteção, tornando-se vulnerável a alteridade. O esperto é aquele que está sempre tentando levar vantagem em tudo, mas sempre vestido de bom moço, ele se materializa como um produto do entendimento equivocado da palavra generosidade. O sistema produtivo do capital, que é bem diferente do sistema capitalista de produção, nos torna espectadores de nossa própria desgraça.
E finalmente o bom é aquele indivíduo que sabe que não é bom nem mau e ao mesmo tempo é simplesmente o produto dessas duas forças que existem dentro de nós e as quais procuramos, por meio de nossa maturidade emocional, aprender a manter em equilíbrio para nos relacionarmos de forma harmoniosa e feliz. O advento da generosidade é algo maior que o poder econômico. Podemos ser generosos sem necessariamente termos dinheiro, podemos oferecer gratuitamente amor, atenção, solidariedade e principalmente respeito, aprendendo a olhar as pessoas que estão à nossa volta como seres humanos, não apenas enxergando seus defeitos, mas as suas qualidades e potenciais pessoais.
E a coisa do fetiche do Natal não para por aí. Um dos exemplos emblemáticos nos é oferecido pela Rede Globo de Televisão com os apelos realizados com aquela música já superada: “Hoje é um novo dia. De um novo tempo que começou. Nesses novos dias, as alegrias serão de todos, é só querer. Todos os nossos sonhos serão verdade. O futuro já começou. Hoje a festa é sua. Hoje a festa é nossa. É de quem quiser, quem vier”. O sistema produtivo do capital não permite acesso a “tudo”, e nem por “todos”…, logo não é uma questão de querer, é uma questão de poder.
Enfim, no período do Natal há uma série de idiotices que não se vê no dia a dia, durante todo ano. Nós não participamos de festas de confraternização, a não ser aquelas com amigos de infância e com pessoas que temos muita afinidade. E o que significa amizade? Em primeiro lugar, não denominamos amigos os meros conhecidos, pessoas com quem mantemos belas relações, mas para quem não contamos nossos segredos, nem nossos desejos mais profundos. Essa relação acaba sendo superficial sem confiança mútua, base da verdadeira amizade.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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