Uso criativo do lixo

Em: 20 de março de 2008
Agricultura & Pecuária
Agricultura & Pecuária

Cresci reutilizando roupas e tudo mais que meus dez irmãos mais velhos deixavam de usar. Muitas vezes, colocava um adereço na roupa ou no objeto que ficavam com aparência de novos, e a satisfação de fazer algo inédito não tinha preço.
Ao entrar no mundo da criança, percebo que não é preciso $$$$(dinheiro) para comprar todas as novidades que a mídia oferece. A criatividade usada num brinquedo e as coisas feitas com as próprias mãos são muitas vezes mais satisfatórias que ganhar um brinquedo caro, “bonito” e sem significado.
Se eu pudesse falar algo que tocasse os corações dos adultos, educadores e pais, eu diria que o que conta muito é com o que a criança brinca, como foi feito o brinquedo, o jogo e com quem foram partilhados esses momentos.
Valorizo muito o resgate de brinquedos e brincadeiras folclóricas, porque acredito que é um passo importante nos dias de hoje, já que brincar na “rua” tornou-se inviável e deve ser substituído pelo brincar na escola, no condomínio, no clube, na praça ou outro local.
Em 1980, dei início à minha profissão de professora na prefeitura de Campinas e a realidade era uma carência de materiais que me instigava a buscar sucatas. Senti necessidade de recursos especiais, porque passei a trabalhar com crianças que apresentaram dificuldades de aprendizagem.

A Rainha da Sucata
Empenhei meus esforços e dediquei-me ao reaproveitamento dos materiais descartados, porque percebi que isso valorizava meu trabalho pedagógico e hoje, não mais em sala de aula, ministro cursos para os educadores que usam a prática lúdica, trocando suas tentativas e experiências nesta maneira simples e criativa de fazer jogos, brinquedos, bandinhas, adereços, presentes e outras coisas mais, com a re-utilização de todo tipo de material.
Em 2005, participei de um grupo que se preocupava com a formação de Brinquedistas no Ceprocamp (Centro de Educação Profissional de Campinas ) oferecendo uma prática de aprender e fazer jogos e brinquedos de sucata. O público atendido era formado de pessoas entre 15 e 80 anos, analfabetos, universitários e de preferência de desempregados.
Aprendo todos os dias com todas as pessoas, com as crianças, professores e outros profissionais, e procuro aprender também em todas as circunstâncias do dia-a-dia. Não crio nada. Tudo já existe e eu apenas modifico dando uma roupagem ou cara nova.
Manipulando os jogos e brinquedos, consigo visualizar a transdisciplinaridade deles. Com algumas adaptações, eles servirão como recurso pedagógico para aulas de história, inglês, geografia, física e todas outras matérias. Tenho até um simulado nos moldes daqueles feitos pela Unicamp cujo tema foi o lixo, feito no Cursinho ZAP, quando ocupei o cargo de coordenadora pedagógica.
Aos olhos do mercado capitalista, eu sei que estou regredindo, porque procuro não consumir tanto e, ainda tento abrir os olhos de quem o faz. Virei uma catadora de lixo que não consegue passar perto de uma caçamba ou entulho sem esticar o olho e muitas vezes aproveitar coisas que lá não deveriam estar.

Mudei minha relação com o lixo, porque consegui ver nele duas coisas importantes:
– Grande problema da atualidade
– Solução possível
O primeiro caso acontece nas grandes metrópoles que já não têm onde colocar o lixo, alugando espaços em outros países e locais, encarecendo este serviço para a população.
O lixo é o vilão que polui água, ar e terra, mas só é tratado com desprezo, pois as pessoas misturam papéis com óleo, borra de café, papel higiênico sujo, curativos, cascas de frutas, frascos de vidros, recipientes de plástico, metais com os mais variados produtos, tornando-o inviável para a reciclagem.
No segundo caso, grande porcentagem do lixo não é lixo, podendo ser reutilizado e reciclado.
Pra mim o lixo brilha feito ouro, pois vejo nele a matéria-prima para todo o trabalho que desenvolvo e milhões de toneladas desta matéria-prima para infinitas utilidades.
A catação de lixo é atualmente um subemprego, mas que

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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