Depois do ensaio de recuperação do mês anterior, o varejo do Amazonas voltou a oscilar em fevereiro, acompanhando o movimento do setor em metade do país. As vendas vieram 0,5% mais baixas do que o registro de janeiro – que teve cinco dias úteis a mais. O resultado, no entanto, foi 0,9% melhor do que o atingido no segundo mês do ano passado, quando o Estado sofria os impactos da terceira onda da covid-19. Com isso, o bimestre (+1%) ainda conseguiu sustentar crescimento. Mas, a atividade já entrou no campo negativo, quando se leva em conta as vendas dos últimos 12 meses (-1%). É o que revelam os dados da Pesquisa Mensal do Comércio, divulgados pelo IBGE.
O Estado voltou a perder para a média brasileira do setor em quase todas as comparações. Em um mês com apenas o Carnaval para aquecer as vendas, e ainda marcado pelas cobranças de IPTU, IPVA, compras de material escolar e dívidas contraídas nas festas de fim de ano, a atividade declinou 0,1% em todo o país na variação mensal, após o recorde do mês anterior. Seis dos oito segmentos acompanharam a queda, com destaque para supermercados e produtos alimentícios, assim como tecido, vestuário e calçados. O varejo brasileiro subiu 1% ante fevereiro de 2022 e marcou altas também nos acumulados de janeiro a fevereiro (+1,8%) e dos 12 últimos meses (+1,3%).
Ao contrário do ocorrido no mês anterior, o desempenho dos segmentos que atuam com bens dependentes de crédito se manteve ascendente. A despeito do avanço dos juros na ponta do consumo, o volume comercializado nas lojas de veículos, autopeças e material de construção conseguiu agregar resultado à média do varejo amazonense. A inflação, por outro lado, manteve o descolamento das vendas com os resultados da receita nominal que, desta vez, aumentou em todas as comparações.
O setor teve vendas positivas em apenas 13 das 27 unidades federativas, na comparação com janeiro de 2023. Apesar da queda de 0,5%, o Estado subiu da 22ª para a 17ª posição do ranking. O melhor número veio de Roraima (+2,7%) e o pior, da Paraíba (-11,5%). Com o acréscimo ante fevereiro de 2022, o varejo local escalou do 22º para o 14º lugar, em uma lista liderada por Tocantins (+13,79%) e encerrada pelo Distrito Federal (-2,9%). O Amazonas ficou na 17ª posição no ranking do acumulado dos dois meses iniciais do ano, em uma lista com os extremos em Tocantins (+12,4%) e Paraná (-1,6%).
Receita e crédito
O comércio amazonense manteve o descolamento das vendas em relação à receita nominal – que não leva em conta a inflação do período. A variação mensal ficou positiva em 0,9%, em desempenho melhor do que o de janeiro (-0,5%). O confronto com o mesmo mês do ano passado apresentou elevação de 4,5%, contribuindo para uma taxa de expansão de 5%, no bimestre, e de 4,9%, no aglutinado dos 12 meses. O Estado ficou atrás da média nacional (+0,3%, +7,5% e +9,3% e +13,6%, na ordem) nas comparações de longo prazo.
Em razão do tamanho da amostragem, o IBGE ainda não segmenta o desempenho do comércio no Amazonas. Sabe-se apenas que, desta vez, os subsetores de veículos, de autopeças e de material de construção apresentaram saldo positivo. Com isso, o varejo ampliado avançou 2,4%, em sentido oposto ao placar de janeiro (-0,4%). E, apesar do impacto dos juros na renda das famílias amazonenses, os resultados foram positivos também nas variações anual (+6,8%), do bimestre (+6,9%) e dos 12 meses (+5%). A média brasileira pontuou altas de 1,8%, 6,6% 7,8% e 1,7%, respectivamente.
A retração do comércio brasileiro na variação mensal se disseminou em seis atividades, especialmente em hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-0,7%). Na sequência vieram os subsetores de tecidos, vestuário e calçados (-6,3%); equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-10,4%); artigos de uso pessoal e doméstico (-2%); móveis e eletrodomésticos (-1,7%); e de combustíveis e lubrificantes (-0,1%). Apenas os segmentos de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (+1,4%) e de livros, jornais, revistas e papelaria (+4,7%) conseguiram avançar.
Inflação e juros
O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, enfatizou que o faturamento do comércio amazonense recuou em sintonia com os impactos da inflação no bolso do consumidor, principalmente no caso das mercadorias de “curto prazo”. Já o resultado das vendas de bens duráveis e dependentes de crédito estariam sofrendo também os impactos da escalada dos juros bancários – apesar da estabilidade da Selic. De acordo com o pesquisador, os dados da própria sondagem ainda indicam um panorama incerto para os lojistas do Amazonas.
“A média móvel trimestral do volume de vendas, está positiva em 0,2%, então não se pode assegurar aumento ou queda das vendas para as próximas divulgações. Além disso, o contexto econômico não permite folga no orçamento que permita aumento de consumo”, explanou. “Mesmo assim, as vendas nos dois primeiros meses do ano estão sendo melhores que em 2022. O que, de certa forma, é um bom cenário. Outro fator interessante é que o comércio ampliado, que inclui veículos, motocicletas, peças, material de construção teve um aumento bem considerado”, emendou.
Em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE, o gerente da pesquisa, Cristiano Santos, ressalta que a base de comparação e a redução do ritmo de remarcação de preços contribuíram para o resultado da média nacional. “Podemos fazer uma leitura dos resultados por consequência de um período de Black Friday e Natal ruins, que resultaram em uma recuperação em janeiro e uma sustentação desse patamar em fevereiro. Além disso, um cenário de inflação estável em alguns setores importantes para a nossa pesquisa, como a alimentação em domicílio, que impacta a atividade de hiper e supermercados, também ajuda a entender os resultados observados em fevereiro”, analisou.
“Alento para a retomada”
O presidente da assembleia geral da ACA (Associação Comercial do Estado do Amazonas), Ataliba David Antonio Filho, concorda que o peso dos encargos recolhidos no início do ano não permitiram que as vendas do varejo amazonense fossem mais longe, deixando o Estado em uma posição intermediária do ranking brasileiro. O dirigente salienta, no entanto, que as despesas com material escolar ajudaram o setor a ter um desempenho favorável e que os segmentos dependentes de crédito tiveram performance significativa.
“O varejo ampliado se destaca nesse segmento de material de construção, veículos e autopeças, alavancando as vendas do varejo do Amazonas, como um todo. E o resultado mensal do setor, embora levemente negativo, impressiona, quando se leva em conta que fevereiro teve quase uma semana a menos em termos de dias úteis. Vejo esses dados do IBGE com alento para a retomada de um comércio que ainda depende de um ambiente de negócios que permita crescimento”, arrematou.







