Após encerrar um quinto ano consecutivo de saldo positivo de vendas, as concessionárias amazonenses de veículos zero quilômetro começaram 2026 em derrapagem. Em um mês negativo para seis das sete categorias, o setor somou 6.930 unidades comercializadas, configurando desempenho 22,59% inferior ao de dezembro (8.952). A diferença de um dia útil a mais e a sazonalidade da transição das festas de fim de ano para o período de férias ajuda a explicar o tombo. O confronto com janeiro de 2026 (7.665), por outro lado, apontou 7,96% de acréscimo para as empresas, embora este tenha sido alimentado basicamente pela revenda de motocicletas e automóveis.
Com performance semelhante, Manaus concentrou 79,36% (5.500) das vendas do Estado, durante o mês passado. Os números são da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), que se amparou nos emplacamentos do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) de automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus e motocicletas. Vale notar que os dados locais devem ser levados também sob a perspectiva do transit time (tempo de trânsito) entre faturamento e emplacamento – que pode durar 30 dias, em virtude da logística de translado.
A média nacional apresentou números semelhantes. Janeiro registrou licenciamento de 366.712 veículos em todo o país, em performance 25,54% mais fraca que a de dezembro (492.473), embora 7,42% acima do patamar de 12 meses atrás (341.394). Em comunicado à imprensa, a Fenabrave ressaltou que os números indicam que o mercado de veículos começou 2026 com trajetória positiva. As projeções da entidade para o Ano Novo preveem um aumento de 6,10% (5.259.803) nas vendas dos veículos em geral em todo o país.
Automóveis x motocicletas
Só uma das sete categorias listadas pela Fenabrave vendeu mais, na virada de dezembro de 2025 para janeiro de 2026. A exceção veio de “outros veículos” como tratores, máquinas agrícolas e carretas, que alavancou 39,13%, com a saída de somente 32 unidades. Na outra ponta, implementos rodoviários (-77,01% e 20), caminhões (-75% e 38 unidades), ônibus (-54% e 11), comerciais leves/utilitários (-33,05% e 871), automóveis (-24,26% e 1.970) e motocicletas (-16,29% e 3.988) venderam menos.
A comparação com janeiro do ano passado mostrou desempenho mais favorável, mas nem tanto. Foram registradas duas altas, embora estas tenham sido justamente as majoritárias e na escala de dois dígitos: automóveis (+16,64%) e motocicletas (+12,88%). Em contrapartida, ônibus (-66,67%), caminhões (-60,42%), implementos rodoviários (-53,49%), incluindo outros veículos” (-38,46%) e “comerciais leves (-10,48%), amargaram quedas.
Diferente do ocorrido nos 23 meses anteriores, os veículos de quatro rodas pararam de diminuir sua desvantagem em relação às motocicletas no ranking das categorias veiculares mais comercializadas no Amazonas. A participação das motos no bolo de vendas do Amazonas continuou predominante no aglutinado do ano e desta vez, subiu de 55,04% (2025) para 57,55% (2026) no confronto com igual intervalo do exercício anterior. Em paralelo, a soma dos automóveis e comerciais leves diminuiu sua fatia na mesma comparação, com 41% (2026) contra 41,47% (2025).
De acordo com a base de dados da Fenabrave, os três modelos de veículos zero quilômetro mais comercializados no Amazonas no levantamento parcial da primeira semana de janeiro são motocicletas. O pódio é ocupado por Honda CG 160 (180 unidades), Honda Pop 110i (92) e Honda Biz (78). O veículo de quatro rodas com melhor colocação ainda é o utilitário Chevrolet S10 (62). Na sequência, completando o ranking do ‘top ten’ amazonense, estão as motos Honda NXR160 (55), Yamaha YBR 150 (35), Yamaha Fazer 150 (31), o automóvel Fiat Strada (31), e as motocicletas Honda XRE 190 (24) e Yamaha Fluo 125 (23).
Banco próprio
De uma forma geral, o maior obstáculo ainda é o acesso e o custo do crédito. Em um ambiente econômico de Selic ainda a 15% ao ano, a taxa média mensal do crédito para aquisição de veículos pesa no bolso da clientela, que ainda enfrenta as restrições bancárias ao seu acesso. A pesquisa mensal da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) informa que o CDC (crédito direto ao consumidor) dos bancos para financiamento de automóveis está em 2,10% ao mês e 28,32% ao ano. Concessionárias que trabalham com banco próprio e clientela de maior poder aquisitivo, por outro lado, vêm enfrentando menos dificuldades.
Em entrevista concedida anteriormente à reportagem, a diretora geral da loja Garcia Veículos, Silvana Semen, as vendas seguiram dentro do esperado nos últimos meses. “Nosso índice de aprovação de crédito é bem elevado e a montadora tem oferecido condições bem vantajosas, com taxas reduzidas, dependendo da entrada”, relatou. “A aceitação é maravilhosa e há muita identificação do cliente com a marca. A maior parte de nossas vendas envolvem trocas de seminovos por um zero-quilômetro”, emendou.
A situação é semelhante no nicho de veículos híbridos e elétricos. “Trabalhamos com taxa de 0%, em até 36 vezes, sendo que o mercado oferece 1,6% por mês. A entrada é de 60% do valor do veículo, embora os bancos exijam mínimo de 20%. A maioria do nosso público tem ticket médio de R$ 200 mil, o que foge da média do varejo, além de contar com nível de avaliação de crédito muito melhor”, relatou a gerente comercial da GWM Revemar, Ariane Carvalho, em entrevista recente à reportagem.
“Bases consistentes”
Em comunicado à imprensa, o presidente da Fenabrave, Arcelio Junior, considerou que o desempenho de janeiro reforça a resiliência da demanda brasileira por veículos novos, ainda que o ambiente de crédito siga mais restrito em função dos juros. “O resultado confirma que o setor inicia 2026 com bases consistentes. Mesmo com menos dias úteis, observamos crescimento real, o que demonstra a manutenção da demanda”, avaliou.
Segundo o dirigente, automóveis e comerciais leves apresentaram “desempenho estável”, em comportamento que sinaliza demanda condicionada ao custo do crédito e ao teto da renda das famílias. “Os veículos leves iniciam 2026 mantendo o nível de atividade. O mercado segue sensível às condições de financiamento, mas demonstra capacidade de sustentação do volume”, ponderou, acrescentando que o minoritário segmento de automóveis e comerciais leves elétricos vem conquistando “resultados consistentes”. A Fenabrave estima que as vendas das duas categorias devem crescer 3% (2.625.912).
As motocicletas voltaram a se destacar como principal vetor de crescimento, com “expansão expressiva” que consolida tendência estrutural de incremento de demanda. “O crescimento é sustentando pelo uso profissional, especialmente em serviços de entrega, pela busca por alternativas de mobilidade individual e pela ampliação do uso do consórcio como modalidade de aquisição. Trata-se de um movimento ligado a mudanças no perfil de mobilidade e no comportamento do consumidor”, encerrou. A projeção da Fenabrave para o aumento de vendas de motocicletas em 2026 é de 10% (2.416.980).







