Vendas, custos e perspectiva das MPEs do Amazonas

Em: 2 de fevereiro de 2022

A adoção de meios online aumentou ainda mais entre os MEIs e MPEs do Amazonas. Mas, o bônus gerado pela maior circulação de pessoas que se seguiu ao impulso da vacinação e às medidas de flexibilização se encerrou e as vendas seguiram abaixo do esperado, no último trimestre do ano passado. Em paralelo, os custos operacionais estão mais pesados, em meio às altas da inflação e dos juros. Como se não bastasse, o espectro de uma terceira onda da pandemia causada pela variante ômicron fez o futuro ficar mais longe. 

É o que aponta a 13ª edição da pesquisa “Impacto da pandemia de coronavírus nos pequenos negócios”, conduzida pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa), entre 25 de novembro e 1º de dezembro de 2021, por meio de formulário online. No total, foram ouvidos 6.883 empreendedores em todas as unidades federativas do Brasil – 62 deles, no Amazonas. A maioria (59%) é composta por microempreendedores individuais, seguidos por donos de microempresas (36%) e de empresas de pequeno porte (5%).  

Em meio ao surgimento de novas variantes da covid-19, a esperança dos empreendedores registrou ligeira piora: em média, a expectativa para um retorno da economia “ao normal” passou de 12 para 14 médias meses. O problema mais presente é a pressão dos custos sobre os resultados (52%), incluindo insumos/mercadorias, energia, combustível e aluguel. Os demais se queixam da falta de clientes (19%), dívidas com impostos (10%), dívidas com empréstimos (9%), “outros” e dívidas com fornecedores (1%). 

A questão da energia é estratégica, mas as medidas para promover a economia do insumo no ambiente corporativo se resumem principalmente na orientação de funcionários sobre a importância de reduzir o gasto (55%), evitar o consumo nos horários de pico (26%) e inspecionar a qualidade das instalações elétricas (25%). A minoria está podendo investir nesse sentido, como trocar equipamentos por similares mais modernos (14%) ou instalar painéis solares (1%). Em contraste, 17% não tomaram nenhuma providência.

Vendas e custos

Para 74%, o faturamento mensal está abaixo do patamar pré-pandemia. É um dado melhor do que o registrado no terceiro trimestre (78%), mas supera com folga a média nacional (68%). Apenas 14% disseram que aumentou e outros 7% assinalam que permaneceu igual. Em média o faturamento foi 33% pior do que o de uma “semana normal”. Entre a maioria dos MEIs e MPEs amazonenses que vendeu menos, a retração foi de 52%. Para a minoria que obteve melhores resultados, a alta foi de 47%. 

O mesmo afunilamento não se deu para a expectativa para as vendas de Natal. Realizada nos dias iniciais de maior movimento para a data comemorativa, a sondagem mostra um relativo otimismo, apesar das adversidades. A maioria (57%) informou aguardar um volume comercializado superior ao do mesmo período de 2020, em dado superior à média brasileira (38%). Em torno de 22% esperavam piora e outros 21% tinham expectativa de empate. A base de comparação é depreciada, já que o período foi marcado por restrições à realização de promoções, em virtude das medidas de distanciamento social, e pela subida de casos de covid-19, às vésperas da segunda onda da pandemia. 

Da mesma forma, em maior ou menor grau, 94% dos empreendedores amazonenses ouvidos pelo Sebrae adiantaram que pretendem investir no própria empresa, em 2022. Para 28%, o aporte será para modernizar o negócio, com novos produtos e novos processos, mas há também quem diga que vai ampliar o mix de produtos e serviços (21%), ampliar a capacidade produtiva ou de atendimento (17%), investir na divulgação (15%), reformar o estabelecimento (9%), ou pelo menos apostar na própria capacitação (4%).

Internet e Pix

Seis em cada dez empresas tiveram de fazer mudanças para sobreviver à crise. Apenas 28% disseram que continuam funcionando da mesma forma que antes da crise da covid-19, ao passo que as pessoas jurídicas restantes tiveram de sair temporária (10%) ou definitivamente (5%) do mercado – contra os 8% e 4% anteriores, respectivamente. Assim como ocorrido em levantamentos anteriores, a melhora nas vendas seguia em paralelo com o maior uso de recursos online nas empresas. 

Nada menos do que 77% relataram lançar mão de aplicativos, redes socias e internet para vender. O meio mais popular é o WhatsApp (85%), seguido de longe por Instagram (37%), Facebook (36%), aplicativos de entregas ou serviços a domicílio (6%), Olx (6%), loja virtual própria (5%), Mercado Livre (4%), Magalu, Americanas (ambas com 2%, cada). Mas 14% apontaram que não utilizam nenhum dos meios citados. A ferramenta digital mais popular é o WhatsApp for Business (68%). Na sequência estão ferramenta para gestão de clientes (38%), Google Meu Negócio (35%) e propagandas pagas no Google, Facebook ou Instagram (32%), entre outros.

O uso do Pix também se tornou mais difundido entre os proprietários de pequenos negócios do Amazonas. Em torno de 90% informaram que já trabalham com à nova modalidade, que permite transferências bancarias instantâneas – contra os 82% detectados no levantamento anterior, realizado no terceiro trimestre do ano passado. Apenas 10% informaram que não aderiram ao novo meio de pagamento à vista lançado pelo BC (Banco Central).

Em síntese, para 49% dos entrevistados no Amazonas, a frase que melhor define o momento atual é “ainda tenho muitas dificuldades para manter meu negócio”, sendo seguida pela fatia dos que estabelecem que “os desafios provocaram mudanças que foram valiosas para o seu negócio” (33%). A minoria diz que está “animado com as novas oportunidades” (17%) ou que “o pior já passou” (13%). Na sondagem trimestral anterior, as respectivas fatias foram 49%, 22%, 17% e 12%.  

“Difícil fase”

Em entrevistas anteriores à reportagem do Jornal do Commercio, a gerente da unidade de Gestão e Estratégia do Sebrae-AM, Socorro Correa, já havia destacado que, a despeito da relativa melhora, a quantidade de empresas de pequeno porte do Amazonas que deixaram de funcionar após o retorno das atividades econômicas seguia crescente. O presente levantamento aponta que essa fatia passou de 12% para 15%, entre o terceiro e o quarto trimestres do ano passado. “Empresa fechada significa suspensão de renda para empreendedor e empregados. É uma triste realidade para um país que já vivia alto índice de desemprego, antes da pandemia”, lamentou.

A executiva já havia observado ainda que a maior preocupação nas empresas sobreviventes é a disparada da inflação, que eleva os custos e a necessidade de repasse aos preços, sob o risco de não vender. “Se a pandemia foi uma difícil fase, estamos em uma ainda mais complicada do ponto de vista econômico: sobreviver em uma economia com inflação anual acima de 10%”, desabafou. “Sinceramente, não vejo melhora no curto prazo. O Brasil passa por grande instabilidade econômica e não enxergo uma resposta concreta do governo federal. Isso deixa empresários e trabalhadores inseguros. Espero estar errada e que o país possa viver dias de prosperidade”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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