Vendas de veículos despencam

Em: 12 de março de 2026
Com queda superior a 39% em fevereiro, mercado automotivo amazonense recua apesar do avanço nacional nas vendas.
'Concessionárias registraram forte retração nas vendas em fevereiro.' Divulgação
'Concessionárias registraram forte retração nas vendas em fevereiro.' Divulgação

As concessionárias amazonenses de veículos zero quilômetro puxaram o freio de mão em fevereiro, em sentido contrário ao ocorrido com a média nacional. Em um mês negativo para cinco das sete categorias, o setor somou 4.210 unidades comercializadas, configurando um tombo de 39,25% inferior ao de janeiro (6.930). Apenas as categorias de veículos pesados conseguiram avançar. No confronto com fevereiro de 2025 (6.873), o volume comercializado desabou 38,75%. Com isso, o acumulado do ano (-16,19%) segue no vermelho, com a saída de 11.140 somente unidades. O resultado foi puxado para baixo por todas os segmentos, principalmente o das motocicletas.

Com performance semelhante, Manaus concentrou 77,31% (3.255) das vendas do Estado, durante o mês passado, e 78,59%, no bimestre (8.755). Os números são da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), que se amparou nos emplacamentos do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) de automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus e motocicletas. Vale notar que os dados locais devem ser levados também sob a perspectiva do transit time (tempo de trânsito) entre faturamento e emplacamento – que pode durar 30 dias, em virtude da logística de translado.

Em contraste, a média nacional apresentou números positivos, em sintonia com os incentivos do programa federal Carro Sustentável, e os esforços das concessionárias. Fevereiro registrou licenciamento de 374.926 veículos no país, em performance 2,24% mais forte do que a de janeiro (366.695) e 4,13% acima do patamar de 12 meses atrás (360.061). Em dois meses (741.621), a taxa de elevação foi de 5,73%. Em comunicado à imprensa, a Fenabrave ressaltou a “adaptação e resiliência” do segmento e manteve as projeções para 2026, com incremento de 6,10% (5.259.803) nas vendas no Brasil.

 

Automóveis x motocicletas 

Só duas das sete categorias listadas venderam mais, entre janeiro e fevereiro. As altas se restringiram a ônibus (+145,45% e 27 unidades) e caminhões (+28,95% e 49). Na outra ponta, os piores resultados vieram dos segmentos majoritários: automóveis (-43,71% e 1.109) e motocicletas (-41,62% e 2.328). As quedas se disseminaram também entre os comerciais leves/utilitários (-25,03% e 653), “outros veículos” como tratores, máquinas agrícolas e carretas (-18,75% e 26 unidades) e implementos rodoviários (-10% e 18).

A comparação com fevereiro do ano passado mostrou desempenho ainda mais desfavorável, com incremento somente para os ônibus (+17,39%), em mês negativo principalmente para motocicletas (-42,52%). Já o bimestre foi positivo para todas as categorias, principalmente os caminhões (-51,12% e 87), mas também “outros veículos” (-38,95% e 58), implementos rodoviários (-33,33% e 38), ônibus (-32,14% e 38), comerciais leves/utilitários (-23,99% e 1.524), motos (-16,71% e 6.316). e automóveis (-6,84% e 3.079). 

Diferente do ocorrido no mês anterior, os veículos de quatro rodas voltaram a diminuir sua desvantagem em relação às motocicletas no ranking das categorias veiculares mais comercializadas no Amazonas. A participação das motos continuou predominante no aglutinado do ano, mas desta vez caiu de 57,05% (2025) para 56,70% (2026) no confronto com igual intervalo do exercício anterior. Em paralelo, a soma dos automóveis e comerciais leves ampliou sua fatia na mesma comparação, com 41,32% (2026) contra 39,95% (2025). 

De acordo com a base de dados da Fenabrave, os três modelos de veículos zero quilômetro mais comercializados no Amazonas durante o decorrer de fevereiro são motocicletas. O pódio é ocupado por Honda CG 160 (626 unidades), Honda Biz (309) e Honda Pop 110i (301). O veículo de quatro rodas com melhor colocação em toda a lista ainda é o utilitário Chevrolet S10 (246). Na sequência, estão as motos Honda NXR160 (153), Yamaha Fazer 150 (132) e Yamaha YBR 150 (116). Completando o ranking do ‘top ten’ amazonense, commparecem os automóveis Volkswagen Polo (111), Fiat Strada (107) e o Chevrolet Montana (97).

 

Gargalo no crédito

O maior obstáculo para as vendas ainda é o acesso e o custo do crédito. Em um ambiente econômico de Selic em 15% ao ano, a taxa média mensal do crédito para aquisição de veículos pesa no bolso da clientela, assim como as restrições bancárias ao seu acesso. A pesquisa mensal da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) informa que, em fevereiro, o CDC (crédito direto ao consumidor) dos bancos para financiamento de automóveis estava em 2,12% ao mês e 28,63% ao ano.

A consultora da Braga Motos, Simone da Silva, já mencionou, em entrevista anterior à reportagem, que as vendas vêm crescendo a despeito do gargalo no crédito. A preferência da clientela por financiamentos sem entrada, também não ajuda, já que as instituições costumam liberar o empréstimo apenas mediante entrada de 40% a 50% do valor do veículo. Em paralelo, o número de “CPFs com restrições e escore baixo” ainda é significativo. Uma saída que vem sendo aventada para esse nó está nos consórcios, mas estes também condicionam a operação ao cadastro do solicitante. 

Concessionárias que trabalham com banco próprio e clientela de maior poder aquisitivo enfrentam menos dificuldades. Em entrevista concedida anteriormente à reportagem, a diretora geral da loja Garcia Veículos, Silvana Semen, destacou que o índice de aprovação de crédito é “bem elevado” e a montadora tem oferecido “condições vantajosas”, o que tem ajudado nas vendas. A identificação do cliente com a marca também tem favorecido os resultados, já que a maior parte das transações envolve trocas de seminovos por um zero-quilômetro, geralmente da mesma marca.

 

“Reação consistente”

Em comunicado à imprensa, o presidente da Fenabrave, Arcelio Junior, considerou o saldo de fevereiro positivo. “O mercado segue demonstrando capacidade de adaptação e resiliência. Mesmo em um contexto de juros ainda elevados, observamos um consumidor ativo e os segmentos de maior volume reagindo de forma consistente. Vale destacar a grande evolução nas vendas diárias. Mesmo com apenas 17 dias úteis, fevereiro registrou um desempenho nominal superior a janeiro (21 dias úteis)”, emendou.

De 11 de julho a 28 de fevereiro, os veículos que integram o programa Carro Sustentável somaram 301.977 emplacamentos, 24,8% a mais do que em igual intervalo de 2024/2025. “Observamos um consumidor mais criterioso, mas disposto a investir quando encontra boas condições e produtos alinhados a suas necessidades”, afirmou.   

Já as motocicletas prossegue sendo o destaque do mercado automotivo, conforme o presidente da Fenabrave, com “crescimento expressivo” nos dois primeiros meses do ano. “A motocicletas continua sendo uma solução eficiente de mobilidade individual e para serviços de transporte, que cresceu desde a pandemia. A moto tem sido considerada como segundo veículo da família”, encerrou, acrescentando que o segmento de veículos eletrificados vem passando por fase de crescimento gradual e amadurecimento, e deve enfrentar volatilidade até se consolidar no país.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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