O desempenho de vendas do comércio da capital amazonense ficou novamente abaixo do esperado, no Dia dos Pais. A alta foi de 3%, contribuindo para uma renda bruta de R$ 95,9 milhões, na sexta maior data comemorativa do calendário comercial. As informações são da CDL-Manaus (Câmara dos Dirigentes Lojistas de Manaus), que projetava expansão de 3,1% e faturamento de R$ 98 milhões para o setor. O incremento, no entanto, veio um pouco mais encorpado do que o atingido no ano passado (+2,8%). Já o ticket médio foi de não passou de R$ 105, ficando igualmente abaixo das projeções dos comerciantes (R$ 110).
Pesquisa do Instituto Fecomércio de Pesquisas Empresariais do Amazonas revela, por outro lado, que o crescimento de vendas foi uma realidade para apenas 47% dos comerciantes. Já a proporção de lojistas com vendas estagnadas chegou a 31%, enquanto os 22% amargaram queda. Em torno de 50% se preparam para a data, com aumentos de estoques em relação ao Dia dos Pais de 2022 e 41% mantiveram o mesmo nível de compras. A prévia para o Dia das Crianças mostra um panorama mais favorável e otimista, com 99% dos empresários assinalando expectativas de incremento – sendo que 58% esperam altas de até dois dígitos nas vendas.
O levantamento do Ifpeam confirma ainda que as vendas a crédito mantiveram primazia, apesar da escalada dos juros, e embora haja avanço na fatia de consumidores que buscaram pagar à vista. Outro dado relevante é o aumento expressivo nas vendas online, em sintonia com as mudanças de costumes impostas pela pandemia. Já o ímpeto nas contratações de trabalhadores temporários se limitou novamente a 28% das empresas. A sinalização para as próximas datas comemorativas é ainda mais conservadora: somente 17% dizem que vão reforçar a força de trabalho neste segundo semestre.
Descontos e brindes
Entre as empresas que conseguiram resultado positivo de vendas, 50% conseguiram subir apenas até 10% e outra metade foi além disso. A pesquisa destaca que os resultados mais satisfatórios vieram dos segmentos de perfumaria e cosméticos, vestuários, calçados, artigos esportivos, acessórios e agências de turismo. Do lado das empresas com vendas em baixa, 68% tiveram declínios de um dígito em relação ao Dia dos Pais do ano passado, 23% encolheram entre 11% e 35%, e 9% sofreram tombos de 36% a 49%. Conforme o Ifpeam, as quedas foram mais generalizadas entre os salões de beleza e as lojas de móveis.
Em um ambiente ainda marcado pelo comprometimento da renda das famílias por elevadas taxas de juros e de endividamento, a estratégia para atrair freguesia ainda prioriza “descontos e ofertas especiais” (41%), além de “brindes ou sorteios” (41%). Completam a lista as vendas parceladas sem juros (17%) e frete grátis (1%). Em paralelo, a quantidade de empresas que já trabalham também com vendas online, com o intuito de se aproximar ainda mais dos consumidores, já passou de 59% para 77%, em apenas dois meses. A boa notícia é que, desta vez, não há demissões em curso.
Entre as formas de pagamento, contrariando a sinalização de que o consumidor fugiria de vendas a prazo – e do risco de inadimplência em um ambiente econômico de juros elevados –, nada menos do que 50% escolheram o cartão de crédito para adquirir o presente do Dia dos Pais, enquanto 10% preferiram usar o crediário, carnê ou cartão da própria loja onde adquiriram o presente. Os pagamentos à vista (Pix, dinheiro, transferência bancária, etc) responderam por 29% do total e 11% optaram por pagar com cartão de débito.
Nada menos do que 72% das empresas ouvidas relatou que preferiu manter os quadros de funcionários sem alterações na data comemorativa – mesmo percentual registrado no Dia dos Namorados. Entre os comerciantes que contrataram, 16% chamaram entre 4 e 10 trabalhadores; 11% registraram o ingresso de até 3 empregados; e apenas 1% contrataram mais de 10 pessoas. Os números sinalizam piora para os próximos meses, já que apenas 17% esperam contratar neste semestre – percentual muito menor do que os 49% apontados no levantamento anterior do Ifpeam.
“Medo da inadimplência”
No texto do levantamento das vendas do Dia dos Pais, a CDL-Manaus avalia que os resultados demonstram aquecimento do comércio local no Amazonas para a data comemorativa e outros fatores que podem fazer a diferença no Dia das Crianças. “Destacam-se o aumento nas vendas online, pela comodidade; promoções e descontos, campanhas de marketing personalizadas, além da forte influência das redes sociais para a escolha dos presentes”, sintetizou o texto.
Já o presidente em exercício da Fecomercio-AM, a Aderson Frota, diz que a piora do cenário econômico detectada a partir de 2022, traduzida em aumento de taxas de endividamento e de inadimplência e queda do poder aquisitivo das famílias, dificulta a capitalização das datas comemorativas pelo comércio. “Por enquanto, o varejo é o que mais tem sofrido, sem números positivos de vendas ou geração significativa de empregos, o que não é normal para o verão. Até os supermercados estão reclamando”, apontou.
Frota argumenta, no entanto, que é necessário manter o otimismo, apesar das dificuldades. “O programa Desenrola está operando, mas ainda atinge uma faixa muito pequena. O fato de o governo federal ter aumentado a faixa de isenção do imposto de renda e o salário mínimo se incorpora no esforço de ressuscitar o poder de compra do consumidor. O momento ainda é de cautela, porque os juros estão muito altos e o rotativo dos cartões de crédito joga muita gordura em cima dos débitos. Mas, pensamos em fechar o ano com um número positivo”, concluiu.
Boxe ou coordenada: Saiba mais sobre a pesquisa do Ifpeam (só se tiver espaço)
Realizado entre 31 de agosto e 4 de setembro, o estudo do Ifpeam ouviu representantes de 102 empresas de comércio e serviços da capital, atuantes em pelo menos 12 segmentos. A lista inclui os subsetores de vestuário (21%), artigos esportivos (10%), perfumes e cosméticos (8%), calçados (8%), agências de turismo (7%), joalherias e relojoarias (5%), eletroeletrônicos (5%), acessórios/utensílios (4%), bares e restaurantes (4%), óticas (3%), salões de beleza e barbearias (3%), e “outros segmentos” (22).
Os entrevistados são gerentes (72%), proprietários dos estabelecimentos (25%) ou ocupam cargo de líder de setor (3%). A maior parte das lojas sondadas está nos comércios de bairros (47%), seguidas pelos shoppings centers da cidade (34%) e pelos estabelecimentos do Centro (19%). Ao menos 44% são empresas de pequeno porte (10 a 49 pessoas ocupadas). As microempresas (até nove pessoas), companhias de grande porte (100 ou mais pessoas), e médias empresas (50 a 99 pessoas) responderam por fatias respectivas de 34%, 13% e 9%.






