Mesmo com parte da imprensa chamando as manifestações pacíficas da população de atos antidemocráticos, e instituições da Justiça tentando regrar as aglomerações, milhares de pessoas continuam posicionadas em frente ao CMA (Comando Militar da Amazônia) num gesto que está se repetindo em todo o Brasil há mais de duas semanas.
As manifestações tiveram início logo após o resultado das eleições para presidente, no dia 30 de outubro, quando muitas dúvidas sobre a veracidade do resultado do pleito foram levantadas, dúvidas até agora não esclarecidas e ampliadas com a divulgação do relatório feito pelo Ministério da Defesa, que acompanhou a apuração dos votos.
O mais curioso é que a principal bandeira levantada pelos manifestantes é a liberdade do povo brasileiro, ainda assim são motivos de chacota por quem se considera da oposição e vitorioso nas eleições.
O empresário Fabiano Magalhães é um dos manifestantes que está acampado na frente do CMA.
“Venho aqui diariamente, desde o dia 31. Chego por volta do meio-dia e vou embora às duas horas da madrugada. O brasileiro é inteligente. Vamos vencer essa luta. O povo é a força que o presidente Bolsonaro precisa. Todo mundo aqui tem certeza que houve fraude nas eleições, por isso a revolta, ou você acha que não seria melhor estarmos na tranquilidade de nossas casas? Mas estamos aqui, lutando para que a justiça seja feita”, falou.
No dia 7 passado, o ministro Alexandre de Moraes mandou a PM, a Polícia Civil e a Polícia Federal identificar os líderes e financiadores das manifestações, o que não aconteceu porque o movimento não tem líderes. É espontâneo. O povo que ruma para o CMA quer simplesmente mostrar sua indignação com os rumos que o país está tomando.
Nada é bagunçado
Assim como acontece em grandes catástrofes, quando as pessoas se ajudam, nas manifestações populares ocorre o mesmo. Diariamente chegam doações de água e alimentos para aqueles que permanecem no local. A reunião de milhares de pessoas se tornou uma grande festa pela democracia do Brasil.
“Normalmente, de 50 a 60 pessoas diariamente preparam os alimentos nas cozinhas improvisadas. Nos finais de semana esse número chega a 80 voluntários. São servidas cerca de 1.500 refeições diárias (água, frango, churrasco, arroz, macarrão, farinha, polenta, frutas de sobremesa), mas nos finais de semana são aproximadamente 2.500 refeições, tudo realizado de maneira ordeira e pacífica, com a população aguardando na fila, depois jogando o lixo, no lixo. Nada aqui é bagunçado”, afirmou Fabiano.
Para se ter ideia da organização da manifestação, os vendedores ambulantes de bebidas são instruídos a não vender bebidas alcoólicas.
O religioso José Fernandes também está mobilizado em frente ao CMA desde o dia 31 passado e tem até uma barraca no local, no ‘camping’ improvisado que reúne mais ou menos 40 outras barracas.
“Diariamente chegou aqui às 9h e saio às quatro da manhã. O movimento tem sido assim, intenso, desde o começo, principalmente à noite. Por volta da meia-noite todo mundo sossega. Tem gente de várias religiões, inclusive padres e pastores, e muita gente ora, e clama mesmo pelo Brasil, mas temos que ter cuidado. Existem ‘infiltrados’, que reclamam e tentam tumultuar o ambiente. Não queremos esse tipo de gente em nosso meio. Nosso objetivo é Deus, pátria, família e liberdade. Muitas pessoas nos oferecem pix e dinheiro para ajudar. Não aceitamos. Aceitamos, sim, alimentos e bebidas”, avisou José.
Indígenas e motociclistas
Numa autêntica festa, um carro de som permanece no local desde o dia 31 de outubro tocando o Hino Nacional, da bandeira, dobrados e músicas ufanistas. Vez por outra informações são dadas, pelo microfone, como quando o PL (Partido Liberal) declarou não reconhecer o resultado das eleições, e solicitando sua anulação, levando o povo ao delírio. Pedidos são feitos, como não obstruir as pistas, por exemplo, bem como são ditas palavras de ordem tipo ‘SOS Forças Armadas’, entre outras, e orações unem os religiosos
A advogada Adriane Oliveira chegou ao local no dia 4 de novembro e montou uma barraca próxima à entrada do Comando. Ela se divide ajudando na cozinha e junto aos manifestantes. Na tarde de terça-feira (15), Adriane recepcionou um grupo de uns 100 indígenas, de várias etnias, que vieram mostrar de que lado estão, da mesma forma a igual número de motociclistas que animou o ambiente ao chegar roncando os motores de suas máquinas, e portando bandeiras do Brasil.
Já a professora aposentada Armíria Alves Pereira nem lembra que tem 82 anos e todos os dias, ao final da tarde, faz o seu plantão em frente ao CMA.
Enquanto isso, muitos aproveitam para faturar uma grana vendendo, principalmente, camisas verde e amarelo, e bandeiras do Brasil nos mais diversos tamanhos.
O cearense João Batista chegou ao local pela primeira vez, animado pelo feriado, com uma barraca repleta dos mais diversos artesanatos para enfeitar a cabeça.
“Eu mesmo faço estes artesanatos e vendo na zona Leste, onde moro, mas hoje resolvi vir aqui e mal cheguei, já comecei a vender”, comemorou.
Todas as pessoas entrevistadas pelo Jornal do Commercio disseram que enquanto não se resolver a situação política do país, permanecerão no local, aguardando ações das Forças Armadas. O tempo dirá qual o destino do Brasil.
Por Evaldo Ferreira
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