O utilitarismo clássico baseia-se no princípio de que a melhor ação é a que produz a maior felicidade para o maior número de pessoas. Daí sucede que o utilitarismo político é inevitável para o crescimento de um país, enquanto aquele praticado nas relações pessoais pode ser indesejável. O primeiro justifica-se porque as políticas públicas atenuam conflitos sociais na impossibilidade de agradar a todos os cidadãos, uma vez que sempre haverá alguém prejudicado, ao passo que o segundo caso exige conquistar apoio da maioria em prejuízo de alguns, por exemplo, zombar de algumas pessoas em proveito da gargalhada da maioria.
Essa doutrina é muito confundida com as noções de individualismo, materialismo e interesse, embora uma possa levar a outra conforme à disposição da prática utilitária. O inglês Jeremy Bentham é considerado o criador do utilitarismo como filosofia moral. As ações humanas, na sua concepção, devem seguir o princípio da utilidade em consideração à quantidade de prazer e dor que provocam aos indivíduos. Por sua vez, Karl Popper defende que o utilitarismo deve ser entendido apenas como a minimização da dor. Dada a variedade de interpretações, é um erro levar a doutrina ao pé da letra.
Na política, ela acaba sendo apropriada para conquistar o bem-estar de uma maioria dentro de um limite nacional, mas com a negligência de um grupo tido por minoritário. No Brasil, a continuidade da cobrança da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) é apregoada pelo governo Lula como útil para combater problemas de interesse geral beneficiando principalmente o Sistema Único de Saúde, mas afeta as transações financeiras do grupo empresarial. Ideal é o mundo onde fosse possível o benefício de todos, mas real é aquele onde sempre existiu e existirá conflitos mediados pela prática do utilitarismo.
O utilitarismo não pode ser uma doutrina repudiável em si, uma vez que admite interpretações múltiplas, senão o modo como se apropria dela e para que fim. Os Estados Unidos maximizam o bem-estar de sua população promovendo guerras em outros territórios para conseguirem recursos naturais e mercado consumidor para sua inesgotável produção industrial. Assim sendo, é oportuno expor a crítica feita no século 19 pelo escritor uruguaio José Enrique Rodó, que contrapôs a virtude do espiritualismo latino-americano à ganância do utilitarismo estadunidense numa tentativa de evidenciar um conflito de valores.
É preferível o benefício da maioria ao estouro dos conflitos que atravessam a sociedade. Entretanto, essa constatação mais vale para o universo político, visto que nas relações pessoais o utilitarismo pode render desavenças e mágoas se aplicado inadequadamente.
Borbulha o caldeirão de doutrinas filosóficas no mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, o mal uso que se pode fazer delas a partir das inúmeras vias de interpretação. Em muitos aspectos apontados, é melhor pensar bem se há ou não utilidade em toda e qualquer abordagem utilitária, pois o bem-estar material não pode estar acima do moral.
Bruno Peron Loureiro é bacharel em Relações Internacionais.







