A região central de Manaus abrigou, durante décadas, desde o início do século 19 até finais da década de 1960, belos casarões, frutos da pujante economia proporcionada pelo comércio da borracha que enriqueceu seus proprietários. Com a chegada da Zona Franca, a partir de 1967, muitos desses casarões foram colocados abaixo para abrigar as novas lojas do incipiente modelo econômico e outros foram severamente desfigurados, sem falar das dezenas que ficaram abandonados pelos mais diversos motivos.
Vez por outra algum desses casarões é restaurado, também para as mais diversas utilizações, e volta a ser belo como foi há um século. É o caso do Hotel Villa Amazônia, inaugurado há menos de três meses, na rua 10 de Julho, 315, quase em frente à abandonada Santa Casa de Misericórdia.
“Desde 2010 fazíamos uma busca por um terreno no centro histórico de Manaus. Em 2011, um dos sócios da nossa empresa passou em frente ao imóvel e viu uma faixa amarela com um telefone e a mensagem que estaria a venda. Ligou e teve a notícia que os fundos do terreno eram mais amplos e sem nada construído”, falou Augusto Costa Filho, outro sócio do Villa Amazônia.
De 2011 até a inauguração do Villa Amazônia este ano, o casarão passou por um longo e trabalhoso processo de restauração.
“O casarão estava em vias de desmoronar. Por dentro, estava um horror. Passamos praticamente os três primeiros meses de obra reforçando a estrutura da casa, com calçamento de colunas e vigas, vasto uso de estrutura metálica, estaqueamento e substituição de estrutura de madeira comprometida”, lembrou.
Com estilo do início do século 19
Mas o casarão é apenas parte do hotel, onde fica a recepção, o bar e, no andar superior, o restaurante Fitzcarraldo. “Só depois de finalizar a construção da parte dos fundos, foi iniciado o processo de restauro do casarão com pessoal especializado no trabalho de recuperação de madeira, adornos, portas, janelas, telhado e pintura”, disse.
Já o hotel teve o projeto arquitetônico desenvolvido pelo escritório paulista AMZ, com uma linguagem contemporânea e sofisticada, mas sem deixar de lado, em nenhum momento, a cultura e a história amazonense.
Trata-se de um pequeno prédio de quatro andares, um hotel boutique, com apenas 30 exclusivos apartamentos (cinco Standard, 20 Superiores e cinco Premium) com varandas voltadas para um jardim e uma piscina de pedra natural. Todos contam com lençóis especiais, amenities selecionados e infraestrutura de equipamentos e serviços presentes nos melhores hotéis. Os apartamentos Superiores e Premium possuem banheira. O hotel conta ainda com sala de ginástica e espaço para reuniões de trabalho.
“A decoração é toda ambientada com móveis no estilo dos utilizados no início do século passado: criados mudos, escrivaninha, mesas, abajures, entre outros”, explicou a gerente Emília Garcia.
“A ideia de hotel surgiu por acreditarmos que havia uma carência de estabelecimentos menores, confortáveis e com excelência de serviço em Manaus. O fato de a casa ser tombada e muito bonita é, sem dúvida, um dos nossos maiores chamarizes, por isso focamos em receber bem os hóspedes que buscam conforto e bons serviços no centro histórico de Manaus, mas também queiram respirar os ares de um passado incrível e estejam interessados em redescobrir a cidade”, ensinou Augusto.
Francês mesclado com o regional
Além do casarão, outro chamariz do hotel é o restaurante Fitzcarraldo. No filme homônimo, de 1982, Fitzcarraldo é um alemão alucinado que sonha em construir uma casa de ópera, na cidade de Iquitos, no Peru. No restaurante, quem “enlouquece” os clientes, com os pratos que cria, é o chef paulista Bruno Lorenzoni. Há apenas quatro meses em Manaus, Bruno veio cheio de ideias para novos pratos. Sabendo que, durante a época áurea da borracha, a cultura francesa imperou em Manaus, da moda, às expressões na fala passando pela gastronomia disponibilizada nos restaurantes de então, Bruno mesclou a culinária francesa e italiana aos nossos peixes e temperos. “Fiz adaptações com o regional, busquei os peixes mais solicitados pelas pessoas daqui e fui ao mercadão, atrás de temperos que eu não conhecia, entre eles o cumarú, que dá um gosto especial aos pratos”, revelou.
Foi assim que surgiram o “Kirche de pirarucu defumado com crispe de couve”, e o “Tambaqui com cama de cará roxo e tartar de banana pacovã”. “Estão entre os carros-chefes do Fitzcarraldo”, contou. E temperos regionais começam a fazer história. “Servi um ‘Pirarucu com purê de batata doce e pesto de jambu’ e a cliente achou que estava passando mal quando a língua dela começou a ficar dormente”. O jambu é conhecido por essa característica peculiar, agora explicada pelo chef a todos que pedem qualquer prato com a erva. “Quanto ao cumarú, fica excelente em sobremesas como o ‘Creme brulle de cumarú’, com um sabor que eu, até então, desconhecia”.
O Fitzcarraldo, com seu ambiente de Belle Époque, tem capacidade para 70 pessoas sentadas e abre para o café da manhã, almoço e jantar, “com música ambiente”, completou Emília.
“Nosso posicionamento é focar em conceito, serviços e uma estrutura bastante diferenciada. Imagino que, mesmo no cenário atual, temos bastante espaço para crescimento. Não sei dizer se estamos certos, mas seguiremos fiéis a essa proposta”, finalizou Augusto.







