Villas-Bôas e a Raposa Serra do Sol

Em: 20 de junho de 2008
Orlando Villas-Bôas era desses homens que falava com os olhos, com as mãos, mantendo sempre a mesma disposição e prosa para superar obstáculos.
Orlando Villas-Bôas era desses homens que falava com os olhos, com as mãos, mantendo sempre a mesma disposição e prosa para superar obstáculos.

Faz quase dois anos que havia perdido a vontade de escrever. Do que se falar, quase só havia misérias, sortilégios, escândalos, corrupções. A degradação humana se alastrando. As guerras ainda em vigência num planeta que se diz civilizado. A alarmante desigualdade entre seres humanos catequizados para serem iguais.
Mas eis que a internet me salva da letargia. Recebo uma raridade, um depoimento de um homem bom, sobre um assunto ruim: a questão da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Lá onde homens brancos e índios estão envolvidos numa disputa insana, armados, prontos para uma guerra. Pois as guerras continuam em vigor, como uma lei amaldiçoada, no nosso planeta civilizado.
Então leio o que recebi de uma amiga sobre o homem bom, Orlando Villas-Bôas, o expedicionário que partiu do Centro-Sul para conquistar o Oeste brasileiro nos idos de 1944. Ele e os irmãos eram os sertanistas da “Marcha para o Oeste”, plano que Getúlio criou para “integrar” o Brasil. “A idéia era chegar até o Araguaia e fazer um traçado dali para Manaus, este seria o roteiro da expedição. Foi quando fomos para a vanguarda da expedição”, diria ele anos mais tarde.
Era uma expedição armada, com apoio de aviões da FAB, temia-se a selva e seus animais, mas não a presença de índios. “O índio foi um acidente na marcha da expedição, pois, quando chegamos lá, não sabíamos de nada”, declararia pouco antes de morrer. Havia armas, sim, porém na expedição havia também um líder nato, vocacionado para o humanismo. Liderados por Orlando, no lugar do rifle, os expedicionários adotaram o abraço, o respeito e a palavra.
Em vez de uma marcha de conquista, impôs no grupo uma mudança de atitude, transformando-a numa marcha de integração. Orlando Villas-Bôas era desses homens que falava com os olhos, com as mãos, mantendo sempre a mesma disposição e prosa para superar obstáculos. Com isso sobreviveu aos governos e ditaduras, de Getúlio aos militares, mantendo vivo um projeto com dimensões inigualáveis em qualquer outro lugar do mundo.
A convivência de longos anos com mais de 13 grupos de índios levou Orlando e os irmãos Cláudio, Leonardo e Álvaro, a lançarem no Brasil a base humanista da política indigenista. No rastro da expedição, os acampamentos foram se transformando em cidades, cerca de 18 na região percorrida. “Sem nossa participação, essas cidades surgiriam da mesma forma, só que num processo de luta. E fizemos isso em paz”.
Paz. Esta é a palavra e a atitude que está faltando. A área indígena Raposa Serra do Sol está cercada de intolerância, de vaidades imperdoáveis. O governo, que deveria ser o conciliador, chega com leis em mãos e de arma em punho. Em vez do diálogo, usa o monólogo da imposição. A expedição Raposa Serra do Sol está desgastada, impotente, vencida qualquer que seja o seu desfecho, pela ausência de um líder humanista como Orlando Villas-Bôas.
Falta-lhe um sertanista que saiba falar com os olhos e usar o abraço no lugar das leis. Falta ao governo rebuscar seus arquivos para encontrar a sabedoria do maior de todos os seus sertanistas. O homem que ao lado dos irmãos enfrentou o desafio de fazer o que acreditava ser certo, mesmo contra as determinações. Promover a paz. Com isso, mudou a mentalidade de uma expedição preparada para massacrar e evitou uma história que seria de sangue e mortes.
Mas se achar incoerente buscar a sabedoria de um homem morto, ainda que um homem bom, poderá encontrar essa sabedoria na tradição humanista das tribos, relatada por esse homem iluminado que, certamente, repousa em paz nos campos de caça de Tupã:
“Basta dizer o seguinte: nós vivemos com eles 40 e tantos anos, e nunca vi índios discutindo. Eu nunca vi uma mãe puxar a orelha da filhinha, e nem o pai dar um coque no filho. O velho é o dono da história, o índio é o dono da aldeia, a criança é a dona do mundo! A coisa mais importante de uma aldeia indígena é a criança. Nós perdemos essa noção. A criança hoje, na sociedade em geral, é uma realidade incômoda.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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