Fazer com que os seguros automotivos sejam acessíveis a uma parcela cada vez maior de proprietários de veículos é um dos desafios do setor no Brasil. Exemplos a serem seguidos são Estados Unidos e Europa, localidades nas quais o mercado segurador enxergou uma oportunidade que até então não foi aproveitada por aqui.
Ao se calcular o prêmio de um seguro automotivo, são considerados fatores como valor de mercado do veículo, índice de roubo e furto, perfil do motorista principal e região de circulação. Há ainda, dentre outros, um quesito que é o custo das peças de reposição.
Já é de conhecimento comum que as autopeças originais são mais caras do que as alternativas oferecidas pelo mercado independente de reposição. Tal diferença, no Brasil, pode chegar a mais de 1.000%, conforme apontou recente levantamento feito pela Anfape (Associação Nacional dos Fabricantes de Autopeças).
Com a criação da Capa (Certified Automotive Parts Association), em 1987, estabeleceu-se um marco no mercado de reposição de autopeças dos Estados Unidos. Foi graças à chancela dessa entidade, encarregada de certificar a qualidade dos componentes alternativos, que as seguradoras americanas passaram a utilizar peças alternativas no reparo de carros sinistrados. Tal conduta também favoreceu o consumidor final, pois permitiu reduzir os custos de reparação sem afetar o valor do veículo.
No caso europeu, não só as seguradoras passaram a utilizar as peças oferecidas pelo mercado independente como também aderiram formalmente à luta pela livre concorrência. Prova disso é que o CEA (Comité Européen des Assurances), entidade que reúne mais de 5 mil empresas de seguros da Europa, dentre elas AIG, Allianz, BBVA, Generali, HDI, HSBC, ING, Liberty, Mapfre, Mitsui Sumitomo, Santander, Tokyo Marine, Zurich e UBS, é hoje um dos membros da Ecar (The European Campaign for the Freedom of the Automotive Parts and Repair Market), associação européia que representa o setor de reparação independente.
Se tudo isso fosse aplicado no mercado segurador brasileiro, os seguros poderiam ficar, em média, 30% mais baratos, privilegiando não só os atuais segurados, mas permitindo também que proprietários de veículos com mais de dez anos passassem a se valer desse recurso para proteger seu bem.
Atualmente, apenas 30% da frota nacional são segurados e 95% destes têm no máximo dois anos de uso. Essa situação acontece porque o preço de uma apólice para um carro mais velho chega a custar 20% de seu valor de mercado, enquanto que, para um veículo novo, raramente passa dos 5%.
O mercado segurador brasileiro pode, e deve, se inspirar nos modelos adotados pelos Estados Unidos e pela Europa, já que isso trará ganhos para todas as partes envolvidas.
O desafio maior está em garantir a sobrevivência do setor independente de autopeças, hoje ameaçado por ação das montadoras, que querem monopolizar o segmento de reposição por meio do registro do desenho industrial das autopeças.
Se todos juntarem esforços, consumidor, cadeia independente e seguradoras, é possível sim reverter esse cenário.
ROBERTO MONTEIRO é diretor-executivo da Anfape (Associação Nacional dos Fabricantes de Autopeças).






