Agricultura & Pecuária – Cabo antigo

Em: 11 de abril de 2008
Começa mais um abril ’vermelho’. Foices e facões se erguem na grita do MST e seus congêneres. Gente sofrida, rostos irados, os intrépidos invasores de terras afrontam a lei e rompem a ordem.
Começa mais um abril ’vermelho’. Foices e facões se erguem na grita do MST e seus congêneres. Gente sofrida, rostos irados, os intrépidos invasores de terras afrontam a lei e rompem a ordem.

Começa mais um abril ’vermelho’. Foices e facões se erguem na grita do MST e seus congêneres. Gente sofrida, rostos irados, os intrépidos invasores de terras afrontam a lei e rompem a ordem. Progressistas ou retrógrados?
As imagens do presente lembram o filme do passado. Na Revolução Francesa, em 1789, os sofridos camponeses enfrentam, simultaneamente, os senhores feudais e o clero. Afinal, a Igreja, grande detentora das terras da Europa Ocidental, abençoava a corvéia e, em troca do dízimo, dava proteção espiritual ao feudalismo. Em Paris, a revolta dos ’sans-culottes’ derruba a Bastilha, inaugurando a Idade Contemporânea. Fim da servidão.
Triunfam as idéias iluministas. Novos filósofos acuam a superstição medieval, atacando os ditames absolutos da religião. O povo e a nascente burguesia procuram seu espaço na História. A ciência ainda engatinha, lançando luzes na escuridão. Chega o Renascimento.
Hoje, tudo parece claro. Mas foi longa a travessia da razão. Desde que o físico Galileu Galilei, em 1633, acabou denunciado por heresia à Santa Inquisição, o obscurantismo paulatinamente recuou. Apenas no século 19, todavia, restava vencido. Mesmo assim, seu negro espectro, alimentado pela ignorância, ronda escondido por aí.
Pense na reforma agrária. Desde a Grécia antiga se relatam as lutas no campo. Esparta, oligárquica, ao derrotar Atenas, progressista, cria obstáculos à democracia rural. Mais tarde, no Império Romano, Caio Graco impulsiona, não sem oposição, o direito agrário, garantindo à plebe o acesso a terra.
No mundo moderno, em 1910, Emiliano Zapata e Pancho Villa levantam as massas camponesas do México. Os revolucionários do Exército de Libertação zapatista tomam terras no fuzil. O país vive enorme confusão social. A regularização fundiária vem somente em 1934, com o presidente Cárdenas, que recria os ’ejidos’, forma comunitária de trabalho rural, baseada na cultura indígena.

Um Pouco de História
Em 1917 ocorre a Revolução Russa, inaugurando o regime comunista no mundo. A agricultura é socializada na marra, surgindo os ’kolcoses’. Passa o tempo. Fidel Castro toma o poder em Cuba, em 1959. O socialismo, pela primeira vez, bate às portas da América. Toda propriedade rural acima de 420 hectares é nacionalizada. O Partido Comunista passa a comandar a agricultura.
Pela via democrática, Salvador Allende vence as eleições presidenciais no Chile, em 1970. Radicaliza seu governo e rompe a coalizão política que o sustenta, decretando massiva reforma agrária. Em três anos, 47% das terras cultiváveis são redistribuídas em pequenos lotes. Apimenta a receita da Bolívia e do Peru, onde chefes militares decretam a repartição da terra. O latifúndio vira minifúndio.
A luta pela reforma agrária quase sempre esteve associada à idéia do socialismo, utópico ou real. E nunca ocorreu tranqüilamente. Momentos de ruptura causam, é obvio traumas. No México revolucionário, dizem ter morrido 600 mil pessoas. Na Rússia, a coletivização forçada causou 6 milhões de mortes. Allende tombou morto. Manteve a sina de Zapata, também assassinado. Como Robespierre, guilhotinado.
Na história latino-americana, especialmente no Brasil, por longo tempo se cultivaram, na esquerda, duas unanimidades: todos contra o imperialismo norte-americano e contra o latifúndio. Neles residiriam os grandes males do subdesenvolvimento. A redistribuição fundiária, nesse sentido, seria imprescindível ao progresso. Justiça social dentro do capitalismo.
Passam-se quatro décadas. O socialismo acorda do sonho, ou pesadelo. A globalização da economia faz esquecer o imperialismo e o latifúndio se transforma em grande empresa rural. Com o êxodo do campo, o Brasil se urbaniza forte e rapidamente. Vem a modernização tecnológica, abre-se o cerrado. A agricultura nacional empareda as nações ricas.

Muda o mundo
A reforma agrária perde sentido econômico. Mas permanece a desigualdade social, amargo fruto da História nascida nas capitanias hereditárias. Como democratizar a terra

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar