A inveja
“Agora em mim pulsa aquele asqueroso sentimento. Cego e vil, ardiloso, perigoso. Abismo de centenas. Milhares em dores pavorosas”. Essa estrofe inicial da prosa poética “Sentimentos de Caim” escrito pelo poeta Ghido D’aravezzo (pseudônimo) fala de um dos pecados mais presentes no dia-a-dia: a inveja. Esse termo tem origem na língua latina invidere que quer dizer, olhar com maldade, com hostilidade. Numa definição mais breve pode-se dizer que inveja é uma forma de “olhar torto”.
Por ser um pecado capital, a inveja gera outros pecados. Desse modo, Santo Tomás de Aquino (1225-1274) fala no seu livro Sobre o Ensino (De Magistro) e os Sete Pecados Capitais que a inveja tem cinco filhas: murmuração, detração, exultação pela adversidade, aflição pela prosperidade. Na história de Caim e Abel, a inveja que aflorou no primeiro causou uma amargura tamanha que culminou com um fratricídio. “Ora, sendo a inveja uma tristeza pela glória de outro considerada como um certo mal, segue-se que, movido pela inveja, tenda a fazer coisas contra a ordem moral para atingir o próximo e, assim, a inveja é vício capital.” (Santo Tomás de Aquino).
A inveja no mundo do trabalho
Dentro da empresa as pessoas agem, reagem e interagem. A força dessa ação pode resultar em sucessos e vitórias pelos quais surgem reações (boas ou não) que daí emanam em interações com outros para propagar o êxito ou denegri-lo. Parece-me que a inveja é um dos vícios capitais mais presentes no mundo do trabalho. Os seus efeitos dentro desse universo podem ser tão desastrosos quanto fora dele e por vezes ultrapassam as paredes da empresa. A política interna de premiação procura estimular os funcionários. Assim tem-se o vendedor número um, o melhor funcionário do mês, a melhor equipe do trimestre etc. É natural supor que tal estratégia seja uma usina de inveja, contudo, esse não é o objetivo e sim causar no funcionário o desejo de fazer o melhor, de empregar toda sua competência. Claro que nessa corrida pelo êxito profissional alguns vão se destacar e esse fato poderá gerar a inveja. Precisamos aprender a domar esse vício.
No ambiente de trabalho, a inveja pode gerar uma série de inconvenientes tais como impacto no clima organizacional devido a um ambiente de hostilidade e desrespeito, desmotivação, baixa produtividade –há maior gasto de tempo e outros recursos para prejudicar o outro do que para trabalhar e atingir as metas tanto da empresa quanto as suas próprias- boicotes e outras ações antiéticas etc. Nesse contexto é comum as frases “O que ele(a) tem que eu não tenho?” “O que ele(a) viu nele(a)?” Em geral, o invejoso corporativo tem uma “miopia” que não o permite enxergar seus pontos de melhoria os quais são importantes na percepção da empresa para que ele ocupe cargos mais elevados ou seja merecedor de reconhecimento e recompensa.
As ações do invejoso corporativo se espelham justamente nas filhas da inveja conforme mencionadas por Santo Tomas. Desse modo a murmuração ou fofoca pode ser usada como meio de causar descredibilidade no outro colega, de gerar uma imagem negativa. De forma mais audaciosa o invejoso se vale da detração. Quando o colega invejoso consegue diminuir a glória da sua vítima ou vê-la passando por um momento ruim, o invejoso exulta, se alegra. Em sentido contrário, quando não consegue esse propósito então se entristece e se aflige pela prosperidade do seu próximo.
O antídoto
Eu gosto de dizer que a inveja é um sentimento involuntário (assim como o broto da paixão entre outros) assim, todos nós estamos fadados a sentí-lo. Como se fosse uma espécie de erva daninha, a inveja cresce em todos os campos e sufoca. O invejoso não é um construtor. Vive em função dos outros. Mudar essa postura exige educação e autoconhecimento. Olhando pelo lado das virtudes como antídoto para o vício capital, creio que três das quatro virtudes cardeais –prudência, justiça e força podem ser exercitadas como forma de domar a inveja. Buscar criar relações de confianç







