“Lixo Zero” Manaus sem lixo

Em: 2 de fevereiro de 2022

Até a década de 1950 as ruas, e principalmente os igarapés, de Manaus eram limpos. O que se produzia unicamente era o lixo orgânico, aquele que em pouco tempo se decompõe e some. Aí veio a modernidade, a Zona Franca, com suas indústrias, em fins da década de 1960, e o manauense ficou conhecendo o plástico, esse vilão da poluição. O resto da história, todos já conhecem. Mas o Instituto Lixo Zero quer mudar isso e fazer Manaus voltar a ser uma cidade sem resíduos descartados pelas ruas e igarapés.

“Em dezembro, quando houve a entrega do Prêmio Lixo Zero, em Manaus, Rodrigo Sabatini, presidente do Instituto Lixo Zero Brasil lançou um desafio para Sabá Reis, secretário da Semulsp (Secretaria Municipal de Limpeza Urbana): deixar um bairro com lixo zero”, falou Daniel Santos, embaixador do Instituto no Amazonas.

O bairro escolhido foi a União. Nos primeiros 13 dias de execução do projeto piloto, de 06 a 18 de janeiro, foram coletados 89 quilos de resíduos plásticos pelos moradores, sendo 70 quilos em condições de serem aproveitados na reciclagem e 18,3 quilos de rejeito. Neste primeiro momento, 49 famílias participaram da ação, mas a ideia é estender posteriormente aos demais moradores do bairro, conforme a adesão for ocorrendo. As famílias foram orientadas a fazer a separação, higienização e acondicionamento correto dos resíduos. Todo o material coletado foi entregue à AMAU (Associação de Moradores e Amigos da União) para que o comercializem e gerem renda na própria localidade.

“O projeto mostrou que a partir do momento em que a população se envolve, recebe informação e tem suporte, ela muda seu comportamento”, avaliou Daniel.

Gratificante ver o resultado

Rafaela Bandeira da Silva é gari da empresa Marquise Ambiental e fez parte do projeto Lixo Zero como gari comunitária junto com mais três colegas. Ela visitava as casas dando as informações para os moradores de como separar, higienizar e acondicionar os resíduos plásticos em sacos previamente deixados por ela.

“Visitei umas 20 casas e depois voltei, nas quartas-feiras, para recolher o material que os moradores já haviam colocado nos sacos exatamente como eu havia orientado. Depois levamos esse material para os containers que a prefeitura deixou próximo justamente para esse descarte”, contou.

“Meus três colegas também fizeram o mesmo trabalho em outras casas. No final das duas semanas recolhemos quase 90 quilos de resíduos plásticos, que deixaram de ser descartados de forma incorreta indo parar nas ruas ou igarapés, ou no aterro sanitário”, alertou.

Rafaela lembrou que foi formado um grupo de WhatsApp onde os moradores se comunicam diretamente com os garis comunitários solicitando informações sobre o descarte correto dos resíduos e tirando outras dúvidas. Todo o material recolhido pelos quatro garis comunitários foi encaminhado para a AMAU.

“Sou moradora da União e voluntária do projeto Lixo Zero, mas pretendo continuar realizando esse trabalho por muito tempo. É gratificante verificar que mesmo depois que o projeto piloto parou para avaliação da prefeitura, as famílias continuaram separando corretamente os resíduos que produzem e nós os recolhendo e levando para a AMAU”, afirmou.

PEVs nos supermercados

Luiz Paz, coordenador da Coleta Seletiva da Semulsp informou que o bairro União foi escolhido para receber o projeto piloto por ser um bairro pequeno onde residem 1.460 famílias.

“Cadastramos 80 famílias para fazer parte do projeto, mas devido a algumas situações, trabalhamos somente com 49. Elas foram instruídas a selecionar apenas plásticos, nesse primeiro momento, e assim foi feito. No total foram 89 quilos recolhidos para reciclagem”, disse.

“Depois dos 13 dias do projeto, paramos para fazer a avaliação dos resultados e como deve ser o processo de infraestrutura para a futura ampliação. Pretendemos retornar em março ampliando gradativamente o número de famílias, depois passando para outros bairros até atingir toda a cidade de Manaus. A população não é mal educada. Ela clama por ações assim, e quando acontecem, ela participa ativamente”, avisou.

Luiz Paz é o responsável pelos 25 PEVs (Pontos de Entrega Voluntária) espalhados por grandes supermercados da cidade. Os contentores (containers) são disponibilizados para receber plásticos, papel, vidros e metais, depois recolhidos pela Semulsp e entregues a associações de recicladores.

“No primeiro semestre de 2021 foram recolhidos 180 toneladas de recicláveis. Até o meio do ano a meta é chegar a 40 PEVs. Sobrando apenas o lixo orgânico e os rejeitos seguindo para o aterro sanitário, este terá mais tempo de vida útil”, informou.

“O dia em que toda a população de Manaus, ou a grande maioria, se conscientizar e der uma destinação correta para os resíduos que produz, a cidade limpa agradecerá”, finalizou.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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