Montadoras estocam cerca de 180 mil motos

Em: 30 de março de 2009
Apesar dos incentivos cedidos pelo governo local como tentativa de minimizar os impactos da atual crise financeira, o polo de duas rodas em Manaus perdeu definitivamente fôlego nas vendas
Apesar dos incentivos cedidos pelo governo local como tentativa de minimizar os impactos da atual crise financeira, o polo de duas rodas em Manaus perdeu definitivamente fôlego nas vendas

Apesar dos incentivos cedidos pelo governo local como tentativa de minimizar os impactos da atual crise financeira, o polo de duas rodas em Manaus perdeu definitivamente fôlego nas vendas. A venda de motocicletas que já havia caído 30% em janeiro em relação a dezembro, se vê às voltas com a possibilidade de fechar o bimestre com possíveis 35% de queda acumulada.
A informação, divulgada pelo presidente da Aficam (Associação das Indústrias e Empresas de Serviços do Amazonas), Cristóvão Marques Pinto, aponta ainda que, no comparativo ao mesmo período do ano passado, o setor poderá acumular redução de até 42% nas vendas.
Marques Pinto assegurou que os números estão ligados às demissões que atingiram o público-alvo das concessionárias, pessoas das classes B e C. Para o executivo, uma das alternativas para combater a queda nas vendas e desafogar o pátio das montadoras locais seria incentivar o consórcio. “Não basta reduzir os juros bancários. É necessária aumentar a confiança no consumidor para a rápida aprovação do crédito nas vendas a prazo, sem a qual não é possível a desova. Conceder isenção de impostos em tarifas de energia e de transporte é o mesmo que chover no molhado. Cerca de 180 mil motos estão encalhadas nos pátios das montadoras locais e não há tempo hábil para colocá-las à venda”, afirmou.
A observação de Marques Pinto se refere à obrigatoriedade das motocicletas de atenderem ao Promot 3 (Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares), instituído pelo governo federal no ano passado. No Promot 3, o limite de emissões de monóxido de carbono passa a ser de dois gramas por quilômetro rodado, de 0,8g/km para motocicletas com até 150 cilindradas e de 0,3g/km para aquelas acima dessa potência. “O problema é que as motos encalhadas nos pátios das fábricas vão chegar já defasadas ao mercado na tecnologia e políticas ambientais. Ou seja, o valor agregado do produto já não satisfaz e por isso não causará espanto se os modelos chegarem ao ­consumidor com preços bem abaixo do mercado”, apontou Marques Pinto.

Cllima de mistério

Apesar das informações da Aficam, um clima de mistério permeia as negociações entre o Executivo estadual e as indústrias do setor de duas rodas representadas pela Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares). No início desta semana, o presidente da entidade, Paulo Takeuchi teve duas reuniões sequenciadas a portas fechadas com o secretário da Fazenda Estadual, Isper Abrahim, onde foi debatido o possível aumento dos incentivos fiscais. A assessoria de imprensa da Honda, onde Takeuchi é diretor institucional, afirmou que a reunião com o secretariado teve cunho informal e não houve tomada de decisão com relação à prorrogação de incentivos. Mas a assessoria de imprensa informou em nota que “todas as motos produzidas pela fábrica em Manaus desde o primeiro dia de 2009 já atendem ao Promot 3 e, portanto, com emissões de monóxido de carbono em níveis abaixo dos estabelecidos pela legislação”.

Consumidor está desmotivado

No entendimento do economista Marcelo Valente, existe incentivo que infelizmente não chega ao público consumidor interessado. O anúncio de linhas de ­financiamento para investimento e giro com recursos públicos, segundo exemplificou o especialista, é uma tentativa de se melhorar o humor, o ânimo de quem investe, produz ou consome.
Sobre o atual momento de crise no setor de duas rodas, Valente considerou que, se as expectativas são ruins a ponto de paralisar as decisões dos pilares da economia local, a crise pode ser considerada fato consumado. “Se todos os atores econômicos envolvidos buscam liquidez, ela simplesmente desaparece. No caso do setor de duas rodas, a racionalidade individual pode levar à irracionalidade sistêmica. Cada um faz o que considera certo, mas a soma dos agentes pode levar a um resultado ruim para todos”, avaliou.

Câmbio valorizado

Valente ainda considerou que o câmbio mais
valorizado traz dificuldades para quem importa produtos finais ou componentes, em especial para aqueles com contratos fechados, que calcularam custos baseados em taxas mais favoráveis. “Isso é um ponto positivo para algumas indústrias do setor de duas rodas local, já que praticamente toda a produção é feita em Manaus. Por isso, num ambiente mais adverso em termos de crescimento, é indispensável, por parte do empresário, a tomada de medidas visando ao aumento da competitividade e manutenção dos postos de trabalho. Não se trata de fazer tudo diferente. Trata-se de fazer melhor aquilo que precisa ser feito”, considerou.
Segundo o empresário Tiago de Souza Martins, o grande problema para reaquecer as vendas é que as financeiras estão pedindo entre 20% e 30% de entrada. “O consumidor não tem esse dinheiro. A saída para fechar a venda, em muitos casos, é conceder um alto percentual de desconto, que acaba correspondendo com o valor da entrada, para concluir o negócio”, revelou.

Incentivar o consórcio

Já o representante comercial Irineu Bastos Dias garante que uma das medidas que ajudaria a reverter os números negativos seria incentivar o consórcio. “O crédito restrito continua como um dos maiores entraves. Se o consumidor tiver algum histórico ­negativo, as instituições recusam o financiamento. Se um cliente de 38 anos teve algum débito quando tinha 22 anos, a venda é recusada. Isso ocorre mesmo que a dívida tenha sido paga”, ressaltou.
O presidente da Aficam, Marques Pinto, afirmou que a crise fez o mercado de motos paralisar. Assim, as concessionárias passaram a ter uma tarefa nada fácil. “Os empresários do setor querem também que o governo dê um prazo de devolução do crédito de dois anos e taxas de juros inferiores a 1,5% ao mês. Agora, o mercado de motos espera obter alguma vantagem do governo para poder continuar operando. Sem modelos saindo, os novos encalham, o mercado reduz a marcha, as fábricas param e depois das férias, os empregados ganham a rua”, finalizou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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