Arrecadação segue menor no AM

Em: 24 de agosto de 2022
<strong>Arrecadação segue menor no AM</strong> - receita arrecadacao

Marco Dassori

Twitter: @marco.dassori   Insta: @jcommercio

A receita tributária estadual do Amazonas voltou a retrair em julho. A soma de impostos, taxas e contribuições ainda conseguiu avançar 18,33% ante junho, ao passar de R$ 1,20 bilhão para R$ 1,42 bilhão, já descontada a inflação. O confronto com o dado de 12 meses atrás (R$ 1,43 bilhão), contudo, apontou para um tropeço real de 0,93%. No acumulado do ano, a arrecadação não passou de R$ 7,59 bilhões e ficou só 0,88% abaixo da marca de igual intervalo de 2021 (R$ 8,87 bilhões), apesar do impacto da segunda onda, na base de comparação. Os números são da Sefaz (Secretaria de Estado da Fazenda). 

O decréscimo foi puxado pelo terceiro mês de retrocesso no ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e FTI (Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas). Outras contribuições incidentes sobre a indústria incentivada de Manaus também perderam o fôlego, a exemplo do FMPES (Fundo de Apoio às Micro e Pequenas Empresas e ao Desenvolvimento Social do Estado do Amazonas) e da contribuição para a UEA (Universidade do Estado do Amazonas). As taxas cobradas pelo fisco, por outro lado, avançaram em uma escala de dois dígitos.

Responsável por perto de 90% da receita tributária estadual, o ICMS ainda acelerou 21,15% entre o sexto (R$ 1,04 bilhão) e sétimo (R$ 1,26 bilhão) mês de 2022. Mas, o resultado também não foi suficiente para superar o patamar de julho de 2021 (R$ 1,30 bilhão), indicando queda de 2,58% para o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços. De janeiro a julho, o tributo já mostra queda de 0,64%, ao acumular apenas R$ 7,93 bilhões (2022) contra R$ 7,98 bilhões (2021).

Dados não deflacionados disponibilizados no site da Sefaz mostram que o comércio manteve a liderança arrecadatória entre os setores econômicos do Amazonas, totalizando R$ 616,66 milhões em tributos, em julho. O volume recolhido foi 13,49% superior ao do mesmo mês de 2021 (R$ 543,34 milhões). Ocupando novamente a segunda posição, a indústria (R$ 556,31 milhões) avançou bem menos (+2,91%) na mesma comparação, enquanto os serviços (R$ 90 milhões) caíram 4,10%. Em sete meses, comércio (R$ 3,65 bilhões), indústria (R$ 3,52 bilhões) e serviços (R$ 665,38 milhões) tiveram altas brutas respectivas de 15,10%, 6,53% e 6,42% – mas apenas o primeiro cresceu em termos reais.

Veículos e fundos

Julho foi mais um mês de elevação para o IPVA (Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores), segundo tributo em termos de receita gerada para o Estado. Assim como no levantamento anterior, a arrecadação praticamente empatou entre junho (R$ 48,66 milhões) e julho (R$ 48,64 milhões). Mas, voltou a superar o registro do mesmo mês do ano passado (R$ 47,47 milhões) desta vez por uma margem de 2,46%. De janeiro a julho, o incremento chegou a 10,27%, com R$ 307,59 milhões (2022) contra R$ 278,94 milhões (2021).

O melhor desempenho proporcional veio das taxas administradas pelo fisco estadual, que escalaram 84,33% (R$ 17,84 milhões) no mês e 31,34% (R$ 71,58 milhões) no ano. O minoritário ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação) arrecadou R$ 1,99 milhão e subiu 16,63% na variação anual (+21,26%), além de reforçar azul na base acumulada (+8,53% e R$ 16,07 milhões). Já o IRRF (Imposto de Renda Retido na Fonte) subiu 8,74% em relação a 12 meses atrás (R$ 82,75 milhões) e aglutinou 10,03% de elevação entre janeiro e julho (R$ 602,89 milhões). 

Depois de registrarem performances contraditórias em junho, as contribuições econômicas que incidem sobre a atividade do PIM, voltaram a desabar no mês passado, em uma escala de dois dígitos. Majoritário, o FTI despencou 8,71% (R$ 122,88 milhões) no mês e 8% (R$ 862,63 milhões) no ano. A maior baixa veio do FMPES, que encolheu 17,33% (R$ 24,85 milhões) e 4,33% (R$ 175,26 milhões), respectivamente. A situação não foi muito diferente para a contribuição para a UEA, que teve quedas respectivas de 14% (R$ 50,96 milhões) e 3,76% (R$ 390,64 milhões).

“Cenário instável”

Procurado, por meio de sua assessoria de imprensa, o titular da Sefaz, Alex Del Giglio, não quis falar dos números. Em entrevistas anteriores à reportagem do Jornal do Commercio, o secretário estadual já havia dito que o recolhimento tributário estadual vem apresentado resultados abaixo do esperado nos últimos meses, em razão de decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) – o Difal do ICMS para o Simples Nacional – e medidas federais – a redução linear das alíquotas do mesmo tributo para combustíveis, energia, transportes e comunicações. 

Em sua fala mais recente, o chefe da Secretaria da Fazenda também evitou projeções, ao assinalar que a conjuntura macroeconômica desfavorável e seus impactos no PIM induzem retração na receita. “É notório que o cenário econômico instável, com juros em alta e redução do consumo de bens não-essenciais, em especial de eletroeletrônicos, se reflete no arrefecimento da arrecadação tributária do Amazonas”, resumiu.

“Tímida arrecadação”

Para a ex-vice-presidente do Corecon-AM (Conselho Regional de Economia do Estado do Amazonas), e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, a queda se deve aos impactos inflacionários na renda das famílias e sua capacidade de consumo. Ela lembra que, em paralelo com a retração nas vendas, as empresas enfrentam mais dificuldades para obter crédito e investir, em razão dos juros mais altos. E acrescenta que a macroeconomia ainda se ressente dos reflexos da pandemia e da guerra no desabastecimento da cadeia produtiva e elevação de custos. Já a redução de alíquotas de ICMS em diversos setores também contribuiria para esvaziar o recolhimento.

“Os dados refletem o momento da economia, ainda com muita dificuldade para a tão esperada retomada da atividade econômica. Tal resultado reflete as medidas recentes e impactos das mudanças na esfera tributária. A tímida arrecadação preocupa, pois impacta direta e indiretamente nos repasses para a UEA e compromete os investimentos em setores estratégicos e de extrema relevância para a população mais vulnerável. Para os próximos meses, por causa do período eleitoral, a situação deve permanecer neste mesmo patamar no que tange à arrecadação pública”, analisou.

Na mesma linha, o ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Junior, assinala que os recolhimentos menores de ICMS, FTI, FMPES e UEA refletem uma nova rodada de retração na atividade industrial amazonense e concorda que as escaladas dos juros e da inflação foram fundamentais para esse resultado.

“Isso vem provocando um recuo do consumidor e desaquecimento da atividade. E o modelo ZFM é muito sensível ao comportamento da economia nacional, pois basicamente produzimos para o mercado interno. A menor arrecadação das contribuições assessorias pode refletir também menor compra de insumos, provavelmente em decorrência de uma espera por um câmbio mais favorável, ou pela dificuldade de obter insumos”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar