Dia das Crianças injetou mais de R$ 53 milhões em vendas no comércio de Manaus

Em: 23 de outubro de 2022

O crescimento alcançado pelas vendas do varejo amazonense no Dia das Crianças foi significativo, mas ficou abaixo do esperado pelos comerciantes. A alta foi de 3,8% e gerou receita bruta de R$ 53,78 milhões. A pesquisa da CDL-Manaus (Câmara dos Dirigentes Lojistas de Manaus) havia projetado, no entanto, um incremento de 4% e faturamento nominal de R$ 54,09 milhões. Ainda assim, a taxa de expansão foi melhor do que a alcançada no ano passado (+3,4%). Vale notar que o IPCA atualizado de setembro foi de 7,17%. 

O ticket médio também ficou levemente aquém das projeções dos lojistas. O valor aguardado para as vendas era de R$ 167, mas acabou fechando em R$ 165. No ano passado, os consumidores gastaram pouco menos do que R$ 160 na compra, em média. A pesquisa da CDL-Manaus para intenção de compras na data mostrava, por outro lado, um predomínio dos consumidores que pretendiam gastar de R$ 101 a R$ 200, opção de 26% dos entrevistados. Mas, outros 25% sinalizaram estar dispostos a dispender de R$ 201 a R$ 300, e apenas uma minoria de 12% informou que não iria além dos R$ 100.  

Em linhas gerais, essa é a segunda data comemorativa seguida em que o comércio local vende menos que o esperado, mesmo sem levar em conta a inflação. O crescimento registrado nas vendas no Dia dos Pais também ficou 0,2 pontos percentuais abaixo das estimativas preliminares, não passando de 2,8% –contra os 3% esperados. A receita bruta, contudo, foi muito maior e chegou a R$ 93,28 milhões. Em números absolutos, o desempenho do Dia das Crianças se aproximou ao do Dia dos Namorados (R$ 60,87 milhões), embora o incremento tenha sido maior neste caso (+5%).

Alguns dados apresentados na sondagem de intenção de compras já revelavam maior cautela do consumidor local, apesar da injeção de liquidez e apelo ao consumo. Três entre quatro consumidores informaram à CDL-Manaus que pretendiam comprar presentes no Dia das Crianças, percentual menor que o registrado em datas comemorativas anteriores. A maioria dos entrevistados (41%) apontava os preços dos produtos como principal critério de escolha, na hora da compra, em detrimento daqueles que indicavam a qualidade (13%) como fator de desempate.  

A CDL-Manaus ainda não dispõe do balanço a respeito dos meios de pagamento e pontos de venda preferidos pelo consumidor neste Dia das Crianças. Levantamento da entidade empresarial informava que o somatório das preferências sobre o crédito –parcelado no cartão (30%) e no cartão da loja (11%) e crediários (6%) –superavam os pagamentos à vista –dinheiro (29%), cartão de débito (14%) e Pix (7%). A primazia ainda era para as compras no Centro (45%), seguido de perto pelos shoppings (39%), e à distância pelas lojas de bairro (9%), internet (6%) e supermercados (1%).

Demanda reprimida

Lojistas com tradição em produtos voltados para a data dizem, entretanto, que os resultados igualaram ou até superaram as projeções. “Não sei dizer como foi para os outros, mas o Dia das Crianças deste ano foi excelente para nossas operações. Foi melhor do que esperávamos e conseguimos um crescimento real de 6%. E acreditamos que as vendas no Halloween devem ser ainda maiores”, comemorou o proprietário e diretor da Tropical Multilojas, Allan Bandeira de Melo.

Segundo o empresário, o desempenho só pode ser atingido em razão de “muita pesquisa” sobre a necessidade da clientela e graças às compras programadas para reforço nos estoques, com antecedência de pelo menos 70 dias na autorização do embarque. Foi a opção para evitar problemas logísticos e evitar perdas pela escalada da inflação sobre os preços das mercadorias. Mas, além de imobilizar capital, a empresa também teve de comprimir ainda mais as margens, com brindes e promoções, para garantir as vendas.

Entretanto, Allan assinalou que o Dia das Crianças aqueceu as vendas nas sete lojas do grupo Tropical –cinco multilojas e dois atacadões –e não apenas em produtos infantis, mas também nos departamentos de confecções e utilidades domésticas. O motor das vendas teria sido a demanda reprimida. “O consumo foi baixo até o terceiro trimestre, mas o consumidor precisa comprar em alguma época do ano. Acredito que esses três meses seguidos de deflação ajudaram, assim como a melhora no mercado de trabalho e o dinheiro liberado pelos governos durante a campanha deste ano”, avaliou.  

“Freio de mão”

Em matéria anterior do Jornal do Commercio, o presidente da CDL-Manaus, Ralph Assayag, assinalou que as projeções para o Dia das Crianças estavam ancoradas ao ambiente mais favorável surgido após declínio das estatísticas da pandemia e o fim das restrições de distanciamento social ao comércio, fator que deu mais confiança ao consumidor –pelo menos em termos sanitários. “A motivação também está associada ao aspecto familiar que, após a pandemia, conseguiu flexibilizar as confraternizações. Ano passado ainda existia o receio de manter esse laço afetivo com todo mundo reunido. Fica complicado comprar um presente para uma criança e para outra não”, acrescentou. 

Em nova entrevista ao Jornal do Commercio, Assayag observou que, embora o Dia das Crianças seja uma das datas comemorativas mais importantes do calendário do comércio, seu foco ainda é potencialmente limitado em brinquedos e artigos infantis. Tanto que a lista de produtos para este ano era dominada por bonecas (18%) jogos, videogames (14%). Segmentos mais tradicionais do varejo, como calçados (8%) e vestuário (7%) apareciam com fatias minoritárias. E, embora tablets (14%) estivessem bem cotados, outros produtos de maior valor agregado, como smartphones (4%) mostravam potencial mais limitado de vendas.

O presidente da CDL-Manaus considerou que o adiantamento de pagamentos de bolsas e demais benefícios, por parte dos governos, assim como as políticas de transferência de renda, ajudou a injetar alguma liquidez no mercado em um momento em que “qualquer dinheiro a mais pode ajudar nas vendas”. Mas, destacou que o clima de suspense gerado pelo segundo turno das eleições para presidente e governador desviaram o foco do consumo e dos investimentos. Por esse mesmo motivo, o dirigente não arrisca estimativas para os próximos meses.

“As festividades de fim de ano correm por fora da situação eleitoral. Mas, tudo que vai acontecer depois do dia 30 pode ser modificado. Então, nós podemos esperar os resultados das eleições para saber quem ganha e como vai ficar o número de empresas participantes, quantidade de contratações e expectativas de vendas. Isso é o que todo mundo está esperando. Porque, neste momento, todos estão com o freio de mão puxadíssimo. Por isso, não dá para prever como vai ser”, concluiu.

Por Marco Dassori – Twitter: @marco.dassori

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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