A demanda por seguro-desemprego no Amazonas voltou a oscilar em setembro

Em: 23 de outubro de 2022

A demanda por seguro-desemprego no Amazonas voltou a oscilar em setembro, sob o impacto da deflação e das políticas federais extemporâneas de transferência de renda e incentivo ao consumo. O número de requerentes despencou 12,14% na comparação com agosto, no maior tombo registrado no ano. Passou de 6.760 para 5.939, após ensaiar uma nova escalada e atingir o segundo maior patamar de 2022, no mês anterior. A procura, no entanto, se manteve 13,14% superior à registrada no mesmo período de 2021 (5.249), conforme a base de dados do Ministério do Trabalho e Previdência.

A redução ocorre um mês após a aceleração nas contratações formais detectada pelo ‘Novo Caged’. Embalado pela recuperação dos setores de serviços e agropecuária, além do aquecimento na indústria e no comércio, o Amazonas abriu 4.088 postos de trabalho com carteira assinada, em agosto. Pelo oitavo mês seguido, as admissões (+22.478) bateram as demissões (-18.390), permitindo acréscimo de 0,87% sobre o estoque anterior. Foi um desempenho que veio mais forte do que o registro de julho (+3.620), embora tenha ficado aquém do dado de 12 meses atrás (5.668).

O Estado acompanhou a média nacional no declínio da busca pelo benefício, embora com variações melhores. A retração detectada entre agosto (582.007) e setembro (537.650) foi de 7,62%, mas houve um acréscimo de 8,74% no confronto com igual mês de 2022 (494.435). Os papéis ainda se invertem no acumulado. O Amazonas já soma 55.706 solicitações em nove meses, patamar ainda 10,67% superior ao de 2021 (50.333). Em todo o país, foram registrados 5.108.538 pedidos de seguro-desemprego, o que representou uma elevação de 8,85%, na comparação com igual aglutinado do ano passado (4.692.952). 

A procura foi mais forte na segunda (3.093) quinzena, do que na primeira (2.846), o que pode sinalizar repique no próximo mês. A soma do total dos pagamentos do benefício no Amazonas superou os R$ 19,48 milhões, sendo que o valor médio das parcelas foi de R$ 1.507,83 –em um total de 12.920 cotas. Houve redução significativa no valor global dos benefícios e na quantidade de prestações (R$ 24,37 milhões e 16.234), em relação a agosto. Mas, o valor médio se manteve praticamente o mesmo (R$ 1.501,05). Mas, conseguir o benefício ficou mais difícil, já que a taxa de habilitação caiu de 87,3% para 80,9%, na mesma comparação.

Indústria e construção

O arrefecimento na demanda pelo benefício concedido aos trabalhadores formais demitidos foi uma realidade para praticamente todos os setores econômicos do Amazonas. O empurrão veio principalmente da indústria, que respondeu por 23,5% (1.381) do total e teve queda de 27,62% na variação mensal (-27,62%), embora a variação anual (-0,57%) tenha ficado estatisticamente estável. Foi praticamente a mesma quantidade de novas vagas confirmadas pelo Novo Caged, em agosto (+1.370), algo semelhante ao ocorrido em outros setores. Estas foram puxadas pelas contratações nas fábricas de bens de informática e eletroeletrônicos (+397), entre outras.

O maior recuo proporcional entre agosto e setembro (34,30%) veio da construção (586), que também mostrou o avanço mais significativo em relação ao mesmo mês de 2021 (+45,04%). Mesmo sem nenhuma data comemorativa, o comércio (1.460) conseguiu diminuir a marcha em ambas as comparações (-5,26% e -4,20%). Minoritária, a agropecuária (53) seguiu o mesmo rumo (-19,70% e -29,33%). A única atividade a amargar aumentos no contingente de trabalhadores procurando seguro-desemprego em ambos os casos (+4,38% e +32,34%) foi a de serviços (2.455), que respondeu por 41,34% da demanda. 

Em síntese, a base de dados do Ministério do Trabalho e Previdência mostra ainda que, além de atuar no setor de serviços, o perfil majoritário do trabalhador amazonense que procurou o seguro-desemprego em setembro era composto por homens (64,96% e 3.858), de 30 a 39 anos de idade (34,58% e 2.054), com ensino médio completo (74,30% e 4.413), e que ganhavam entre um salário mínimo e um salário mínimo e meio (47,62% e 2.828) por mês.

“Ampla recuperação”

Na análise da ex-vice-presidente do Corecon-AM (Conselho Regional de Economia do Estado do Amazonas), e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, a oscilação apresentada em setembro acerca da demanda por seguro-desemprego do Amazonas não causa nenhuma surpresa, uma vez que reflete o atual estado do mercado, que sofre influência das questões macroeconômicas nacionais e internacionais, que se materializam em inflação, juros e endividamento em alta. Mas, a economista avalia que os próximos meses serão de “ampla recuperação” da economia brasileira e amazonense.

“Para os próximos meses, as expectativas são positivas visto ser o melhor trimestre do ano. São meses de demanda elevada para produtos e serviços e espera-se uma retomada em definitivo na geração de empregos temporários. Copa do Mundo, Black Friday, Natal, Ano Novo, férias escolares, são eventos que aquecem a economia e demandam mão de obra temporária, que pode se tornar definitiva após uma possível contratação”, assinalou, acrescentando que 2023 segue como uma incógnita, em virtude do fator eleitoral. 

Sazonalidade e rotatividade

A consultora empresarial, professora e integrante da seção regional da Abed (Associação Brasileira de Economistas pela Democracia) no Amazonas, Denise Kassama, considera que o destaque positivo da indústria se deve à sazonalidade e assinala que o perfil majoritário dos trabalhadores que buscam o seguro-desemprego não é nenhuma surpresa. “Por esse período, as fábricas já começam a contratar mão de obra extra para a produção voltada para as festas de fim de ano. Essa já é uma rotina no PIM, que vem admitindo mais mulheres. Homens de 30 a 39 anos e apenas com o ensino médio, por outro lado, já estão na marginalidade da linha de emprego do Distrito”, analisou. 

A economista confirma que a virtual coincidência entre o número de admitidos em um mês e os demandantes por seguro-desemprego sinalizam que a taxa de rotatividade no emprego está elevada no Amazonas. “Quando a oferta de vagas é baixa para uma demanda muito grande, o empregador pode gerar as regras de admissão que quiser, porque ele tem um exército industrial de reserva muito grande para testar. É essa mão de obra que está preparada e qualificada, mas não encontra vaga disponível”, frisou.  

Denise Kassama diz que a redução na procura pelo benefício ainda reflete um mercado de trabalho que vem se recuperando gradualmente após os meses mais duros da pandemia, mas observa que os números ainda estão abaixo de 2021. “Estamos em um processo de retomada do crescimento econômico e a expectativa natural é que a situação do emprego melhore. Não em virtude das políticas públicas, mas pela necessidade das empresas de uma forma geral buscarem a retomada de seus mercados. Mas, tudo isso depende do resultado do atual pleito eleitoral”, finalizou.

Por Marco Dassori – Twitter: @marco.dassori

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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