A Conab revisou para baixo suas projeções para a safra de grãos 2022/2023, no Amazonas. A expectativa agora é que a produção desabe 23,4% em relação a 2021/2022, passando de 47.800 para 36.600 toneladas. Em outubro, a estimativa ainda era que a produção chegasse ao menos a um empate. As apostas foram redobradas na soja, mas são mais que compensadas por tombos no cultivo de arroz, milho e feijão. O novo prognóstico indica ainda um decréscimo de 25,5% na área de plantio das culturas e uma expansão de 2,8% em sua produtividade.
Divulgado na semana passada, o segundo levantamento da Companhia de Abastecimento Nacional para a atual safra informa que o Estado é ponto fora da curva em relação ao Brasil (+15,5% e 313,03 milhões) e à região Norte (+6,6% e 14,31 milhões). É uma das três unidades federativas que aparecem com números negativos, juntamente com Paraíba (-2,5%) e Rio de Janeiro (-3,2%). Mas, é o único que aparece com índice de queda de dois dígitos. Em contraste, a maior taxa de expansão vem do Rio Grande do Sul (+61,8%).
Segundo a Conab, os produtores privados estão reforçando a aposta na soja, que já aparece com alta de 46,7%, somando 19.800 toneladas. O prognóstico anterior era de manter a oferta no mesmo nível: 13.500 toneladas. O milho, cujo plantio se concentra em Manacapuru e Boca do Acre, aparecia com perspectiva de 1,3% de acréscimo (23.800), mas já trocou de sinal (-59,7% e 9.600).
O arroz sequeiro, que já havia enfrentado dois anos consecutivos de queda, também teve seu número piorado. A cultura, que se concentra especialmente em Eirunepé e Envira, tem estimativa de queda de 37%, com 5.100 toneladas (2022/2023) contra 8.100 toneladas (2021/2022). É um desempenho dez vezes pior do que o cálculo pessimista de outubro (-3,7% e 7.800). Já o feijão caupi, que se destaca por vir de agricultura familiar –cultivado principalmente em Lábrea e Boca do Acre –deve trocar a estabilidade das últimas quatro safras para uma retração de 12,5%, não passando de 2.100 toneladas.
Área e produtividade
O levantamento informa que o Estado deve usar uma área menor para o cultivo, no lugar da estagnação anteriormente estimada. A projeção foi corrigida de 19.600 para 14.600 hectares, uma diferença de 25,5%. O recuo é puxado pelo milho (-60% e 3.800 hectares), arroz (-34,5% e 1.900 ha) e feijão (-14,8% e 2.300 ha). O único dado positivo vem da soja (6.600 ha), que comparece com a mesma taxa de alta de produção (+46,7%).
Em todo o país, apenas Santa Catarina (-3,1%) acompanhou o Amazonas na queda de área de plantio. O melhor desempenho vem de Roraima (+20%). A Conab aguarda incremento de 3,2% para a média nacional, com a área semeada no país devendo chegar a 76,8 milhões de hectares. Para o conjunto da região Norte, a elevação deve ser de 8%, atingindo mais de 4,49 milhões de hectares.
Como se espera um tombo maior para produção ante a área cultivada, a produtividade (2.507 quilogramas por hectare) sinaliza sair da estabilidade para uma elevação de 2,8%. Milho (+1,6% e 2.539 kg/ha) e feijão (+0,6% e 905 kg/ha) aparecem com dados positivos, em detrimento do empate da soja (3.000 kg/ha) e do tombo no arroz (-4% e 2.689 kg/ha). As médias do Brasil (+11,9%) e da região Norte (-1,4%) aparecem com sinais divergentes, em uma lista que incluiu sete quedas e 12 resultados superiores ao do Amazonas.
Soja x arroz
No texto do estudo, a Conab destaca que as previsões climáticas para os próximos três meses, segundo o modelo estatístico do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), indicam previsão de chuva acima da média climatológica. “Para a região Norte, com exceção de áreas do Sul do Pará, Sudoeste do Amazonas, Acre e Rondônia, onde a previsão indica tendência de chuvas dentro ou abaixo da média”, acrescentou o texto do segundo levantamento da safra de grãos.
A Companhia de Abastecimento Nacional não entra em detalhes sobre o desempenho local do feijão e do milho, mas confirma que a semeadura de arroz vem perdendo espaço, em favor do aumento das apostas na soja. “Em áreas de sequeiro, embora se tenha um bom regime de chuvas, o fator limitante para o cultivo de novas áreas está na competição de área de soja, que possuem maior rentabilidade e mercado menos instável”, explicou.
O Amazonas conta com cultivo de soja nas calhas dos rios Madeira (4.400 hectares) e rio Purus (2.200), mas a maioria das áreas visitadas teriam sofrido seu plantio retardado, em virtude do atraso no regime de chuvas. “Houve necessidade de replantio de 250 hectares, em Humaitá. Até o final do levantamento, quase todas as áreas indicadas já haviam sido semeadas devido ao retorno das chuvas. A alta precipitação e a insolação favorecem o bom desenvolvimento vegetativo e minimizam os efeitos negativos da ausência de cobertura vegetal em áreas de primeiro plantio”, assinalou a Conab.
Inflação dos insumos
Para o titular da Sepror (Secretaria de Produção Rural do Amazonas), Petrucio Magalhães Júnior, as flutuações nos dados de cultivos de cereais nos Estados devem estar relacionadas ao impacto da alta da inflação dos insumos que, em sua maioria são importados e precificados em dólar. “Fertilizantes e defensivos agrícolas sofreram alteração e chegaram a triplicar seus valores. Por consequência, devem ter afetado a área de produção para as demais culturas”, estimou.
Segundo o secretário estadual, as estimativas para a soja foram alteradas para cima, embaladas pela abertura de novas áreas de produção e a chegada de novos empreendedores, em especial no Sul do Estado, que já desponta como fronteira agrícola, estimulado por políticas públicas do governo do Estado para diversificar a matriz econômica e estimular a geração de emprego e renda, com sustentabilidade. Guimarães disse também que a concentração das apostas dos produtores rurais na soja, em detrimento de outras culturas de grãos, não é motivo de preocupação.
“A região tem vocação também para pecuária, que recentemente recebeu a certificação internacional de área livre de febre aftosa sem vacinação. Mais de 60% da criação de gado está lá. É vocacionada também para piscicultura, e produção de açaí e para café. Enfim, são várias atividades econômicas, que incluem também agricultura familiar e extrativismo. É uma área geográfica imensa, com muitos campos naturais”, listou.
Em entrevistas anteriores à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, reforçou que a percepção do setor privado é que milho e soja demonstram perspectivas de crescimento na região, a despeito das dificuldades em torno da regularização fundiária e do licenciamento ambiental. “Esperamos que essa estagnação não se confirme. Temos trabalhado com informações de produtores rurais privados que apontam para uma ampliação de áreas de produção. Principalmente em Humaitá”, finalizou.
Por Marco Dassori
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