Indústria do AM tomba nas vendas, mas segura empregos 

Em: 14 de novembro de 2022

O faturamento da indústria do desabou, em setembro. O resultado veio negativo em todas as comparações e em sentido contrário à escalada de vendas registrada em agosto, além de seguir na contramão da média nacional. Em um mês negativo também para a massa salarial e para o uso da capacidade instalada das fábricas, houve avanço apenas para os empregos e a quantidade de horas trabalhadas. É o que revelam os dados locais dos Indicadores Industriais da CNI (Confederação Nacional da Indústria), compilados em parceria com a Fieam (Federação da Indústria do Estado do Amazonas). 

A inflexão negativa veio após o indicador da CNI ter reunido a melhor coleção de taxas locais de crescimento do ano. E mostra que, nem a deflação do IPCA do mesmo mês, nem o recuo renovado na inflação da indústria, foram suficientes para melhorar os ganhos das empresas. Segundo o IBGE, o IPP (Índice de Preços ao Produtor) caiu 1,96%, entre agosto e setembro, apresentado a segunda maior queda da série histórica do índice – que não leva em conta impactos de tributos e fretes em seu cálculo. O desempenho foi puxado pelos subsetores de combustíveis (-6,79%), alimentos (-3,77%) e metalurgia (-1,13%).  

Os Indicadores Industriais da CNI mostram que, a despeito do impulso no consumo, alimentado também por outros estímulos federais e transferências de renda, o faturamento real da manufatura do Amazonas tombou 6,3% na variação mensal, eliminando parte do ganho do mês anterior (+22,7%). Foi a sexta queda neste ano, ocorrida após os ensaios de recuperação de julho e agosto. Em relação ao mesmo mês do ano, a indústria amazonense despencou 21,3%, levando o acumulado do ano (-6,2%) ao campo negativo. Em contrapartida, a média nacional se manteve estável no mês (-0,2%) e foi melhor nas demais comparações (+7,9% e +1,6%, respectivamente). 

Em paralelo, as horas trabalhadas nas linhas de produção locais (+3,9%) aceleram o passo, na passagem de agosto para setembro, mas em um ritmo já mais tímido do que o de agosto (+11,8%), em um ano marcado por oscilações. No confronto com a marca de 12 meses atrás, houve uma subida de 1,9%, contribuindo para reforçar o acumulado do ano (+11,6%). Em todo o país, o setor retraiu 1,1% na variação mensal, mas conseguiu sustentar taxas de crescimento nas demais comparações (+3,3% e +3%). 

O nível de UCI (utilização da capacidade instalada) – que trata do percentual de máquinas empregadas na produção – não passou de 83,7% e praticamente estancou (-0,3%), após a decolagem de dois dígitos, em agosto (+13,8%). Em relação a setembro do ano passado (80,2% de uso), ainda houve expansão 3,5 pontos percentuais (+4,36%). Em nove meses, a indústria do Amazonas usou 79,2% de sua capacidade e teve variação positiva de 3 p.p. (+3,72%) ante 2021 (80,7% de uso). Já o indicador nacional (80,2% de uso) praticamente empatou com agosto de 2022 (-0,1%) e caiu 1,50% ante setembro de 2021 (81,4% de uso).

Empregos e salários

Os dados relativos à mão de obra da indústria do Amazonas, por sua vez, novamente mostraram resultados conflitantes. O saldo de contratações no parque fabril do Estado subiu 0,5%, na comparação com agosto, após apresentar dois meses seguidos de empate. A estagnação se manteve, entretanto, no confronto com setembro de 2021 (+0,1%). De janeiro a setembro (+7,1%) o índice de crescimento local voltou a ser dilapidado. Em âmbito nacional, a atividade encolheu na variação mensal (-0,4%), mas foi melhor ante o dado de 12 meses atrás (+0,6%) e na base acumulada (+1,8%).

Outros levantamentos já haviam confirmado que as contratações continuam superando as demissões na indústria do Amazonas. Segundo o ‘Novo Caged’, o setor se manteve na vice-liderança e emendou seu quinto mês seguido no azul, ao criar 1.269 vagas celetistas (+1,07%). foi puxado principalmente pelo reforço nas linhas de produção das indústrias de transformação (+1,14% e +1.235), especialmente nas divisões de equipamentos de informática produtos eletrônicos e ópticos (+772) e de produtos alimentícios (+196). Em nove meses, criou 4.793 postos de trabalho e ampliou seu estoque em 4,16%.

O mesmo não pode ser dito da massa salarial real da manufatura amazonense, conforme os Indicadores Industriais da CNI. Setembro marcou decréscimo de 4,4% para a soma dos vencimentos dos trabalhadores, após o incremento expressivo detectado no mês anterior (+10,9%). Em relação ao patamar de 12 meses atrás, contudo, foi registrada uma nova escalada de dois dígitos (+26,3%), ajudando a alavancar em igual proporção o aglutinado dos nove meses iniciais do ano (+28%). A média brasileira (+0,3%, +6,4% e +2,9%) foi positiva em todas as comparações.

Consumo e reorganização

Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNI, a economista da entidade, Larissa Nocko, assinala que a perda de força registrada pelos indicadores da indústria brasileira, em setembro, pode ser contrabalançada por um resultado melhor, no último trimestre do ano. Na análise da economista, emprego, utilização de capacidade instalada e faturamento registraram queda, mas ainda ficaram “muito próximos da estabilidade”, enquanto o recuo nas horas trabalhadas não foi suficiente para abalar o saldo positivo de agosto. 

“Ainda assim, o rendimento médio do trabalhador da indústria de transformação e a massa salarial apresentaram recuperação e vêm se recompondo, desde as perdas sentidas durante a pandemia, e isso pode gerar uma resposta em termos de consumo e vendas para o setor. Da mesma forma, do lado do setor produtivo, a reorganização na cadeia de suprimentos, que alivia a pressão sobre os custos de produção também pode contribuir positivamente”, amenizou. 

“Retomada gradativa”

Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Fieam, e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, reforçou que a economia funciona de forma cíclica, sendo natural que, após um período de “inflexão negativa”, os números apresentem alguma retomada – e vice-versa. Observou ainda que é necessário ressalvar que as bases comparativas foram prejudicadas, em decorrência da pandemia e do problema global na cadeia de fornecimento de insumos, embora a demanda reprimida também seja um fato.

Em nova entrevista, o dirigente considerou os resultados satisfatórios, mas preferiu não falar de expectativas. “Se considerarmos ainda o desalinhamento entre oferta e demanda da produção e mercado, as variações estão dentro de margens aceitáveis. Ressalto, principalmente, os números positivos do indicador de postos de trabalho, que cresceu pelo segundo mês consecutivo. Apesar de uma retomada gradativa, temos que considerar que o mercado ainda está suscetível a oscilações decorrentes de fatores econômicos internos e externos, que afetam o segmento industrial em âmbito global” finalizou.

Por Marco Dassori

Twitter: @marco.dassori  Insta: @jcommercio

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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