Amazonas terá safra 10,44% menor este ano

Em: 5 de dezembro de 2022

O IBGE confirmou, em sua avaliação de novembro, que o Amazonas deve fechar o ano com uma produção agrícola de 1,38 milhão de toneladas. A projeção indica queda de 10,55% em relação a 2021 (1,57 milhão de toneladas), que já foi um ano de retração. O maior tombo esperado vem da mandioca, cultura majoritária em volume, mas os prognósticos são negativos também para a fruticultura, o arroz e o feijão. As únicas altas aguardadas para este ano vêm do milho e da cana-de-açúcar, enquanto o café segue estagnado. 

Os dados foram extraídos da pesquisa do LSPA (Levantamento Sistemático da Produção Agrícola), calculado mensalmente pelo IBGE. A mesma base de dados informa que, apesar das oscilações de cada cultura, as expectativas para as áreas globais de plantio (145.946 hectares) e colheita (127.873 hectares) seguem as mesmas do ano passado. O rendimento de todas as culturas somadas, por outro lado, não passou de 1.350,56 quilogramas por hectare.

Em contrapartida, a previsão para a safra brasileira de grãos, cereais e leguminosas é de novo recorde neste ano. O IBGE calcula que a produção deve somar 262,8 milhões de toneladas, 3,8% a mais que em 2021 (253,2 milhões). Em termos de área colhida, a estimativa é de 73,3 milhões de hectares e 6,8% maior. Arroz, milho e a soja são os três principais produtos deste grupo que, somados, representam 91,6% da estimativa da produção e respondem por 87,1% da área a ser colhida. Para 2023, é aguardado um incremento de 9,6% (288,1 milhões de toneladas) na produção e um novo recorde da série histórica –iniciada em 1975. 

Com números diferentes, a Conab confirma recuo para o arroz, mas aponta retrações também para milho e feijão, indicando que a única alta da safra de grãos viria da soja. Vale notar que o IBGE tem metodologia diferente. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística considera a produção dos 12 meses do ano em seus cálculos, ao passo que a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) leva em conta os calendários das safras. Outra diferença é a abrangência: enquanto a estatal foca na safra de grãos, o órgão de pesquisa inclui também fruticultura, café, mandioca e cana-de -açúcar em seu levantamento.

Mandioca e fruticultura

A queda de produção no Amazonas é puxada principalmente pela mandioca, carro-chefe do setor agrícola do Estado, que chegou a alavancar os números de anos anteriores. O IBGE projeta que sua produção deve ficar em 852.867 toneladas neste ano, 18,57% a menos do que o registrado no ano passado (1,05 milhão). Em contraste, o minoritário segmento de cereais, leguminosas e oleaginosas aparece com expansão de 10,23%, e 31.369 toneladas. Foi puxado pelo milho (+17,04% e 21.940 toneladas), já que arroz (-7,75% e 2.809 toneladas) e feijão (-1,72% e 2.620 toneladas) têm estimativas de queda.

Outros dados negativos vieram da fruticultura: cacau (-7,16% e 869 toneladas), laranja (-2,21% e 78.294 toneladas), banana (-1,86% e 146.86 toneladas) compareceram com desempenhos negativos em 2022. O café sinaliza registrar mais um ano de estabilidade, tanto para a variante arábica (1.836 toneladas), quanto para a canéfora (2.679 toneladas). A nota positiva vem da cana-de-açúcar (+13,98% e 267.297 toneladas).

“Chegamos a outubro com uma previsão de safra com diversas culturas em queda. Por consequência, a produção total já demonstra que teremos um ano de queda. Os resultados são frutos de análises realizadas pela comissão formada por vários órgãos atuantes na atividade no Estado. A previsão de queda, de acordo com a comissão, reflete o que vem ocorrendo no campo amazonense, por diversos fatores, embora ainda reste um mês para o fechamento do ano/safra”, resumiu o supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques.

Cheia e incertezas

Em entrevistas anteriores à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, assinalou que a produção rural amazonense enfrenta desafios para sua expansão, principalmente em questões relativas à regularização fundiária e acesso ao licenciamento ambiental. Em paralelo, o Estado ainda depende essencialmente de produtos importados de outras unidades federativas para atender seu consumo interno. Em nova entrevista, contudo, o dirigente apontou que o maior entrave em 2022 veio da mudança climática.

“O recuo na produção de mandioca teve como principal motivo a cheia extrema que nosso Estado enfrentou este ano, e que impactou em danos para a atividade, sobretudo na produção das áreas de várzea. O mesmo ocorreu no caso da fruticultura. A previsão de alta de produção de milho e de cana-de-açúcar, por outro lado, é muito bem-vinda, ao mostrar crescimento nessas culturas, que são muito importantes para o setor primário. Tanto nos grãos, quanto nas culturas industriais”, ponderou.

Indagado sobre as expectativas, o presidente da Faea assinalou que 2023 já sinaliza incertezas. “No cenário nacional, há dúvidas diante da transição de governo, e da expectativa sobre a política econômica que prevalecerá. Em nosso Estado, a atividade agropecuária enfrenta ainda um aumento nos custos de produção. Principalmente em decorrência da conjuntura mundial, impactada ainda pelo desarranjo nas cadeias de produção decorrente da pandemia, e também pela guerra da Rússia com a Ucrânia”, frisou.

Estoques reguladores

O titular da Sepror (Secretaria de Produção Rural do Amazonas), Petrucio Magalhães Júnior, concorda que as enchentes atípicas prejudicaram a safra de 2022. Mas, argumentou que o retorno do GCEA (Grupo de Controle da Estatística Agropecuária) –que integra IBGE, Conab, e órgãos estaduais e federais ligados ao setor primário –seria importante para “alinhar os números”, até porque a pesquisa não coleta dados de safras importantes para o Estado, como a da soja.

O secretário estadual aponta que fatores relacionados ao mercado interno também contribuíram para um desempenho aquém do esperado. Lembra também que, por se tratarem de culturas caracterizadas em sistemas de produção de base familiar, o aumento dos custos de produção dos insumos agrícolas, fertilizantes e combustível podem ter influência direta na redução das áreas de produção de arroz, feijão e mandioca. O titular da Sepror pontua, entretanto, que há motivos para aguardar um resultado melhor em 2023.

“O novo governo federal, que vem focando na volta do estoque regulador de alimentos, que hoje se encontra quase zerado. Deve haver a volta do programa de aquisição de sementes, no qual o Amazonas teve participação ativa. Com isso, esperamos voltar a crescer na produção de milho, arroz e feijão, com a distribuição de sementes. Tanto do governo federal, quanto do governo estadual. O plano safra 2023/2024 do governo Wilson Lima será lançado no primeiro trimestre de 2023, e deve indicar novas políticas públicas para estimular a produção dessas culturas, que compõem a cesta básica do consumidor amazonense”, encerrou.

Por Marco Dassori

Twitter: @marco.dassori

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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