Indústria de bicicletas cai 2,9% no mês

Em: 14 de dezembro de 2022

A indústria de bicicletas do PIM voltou a derrapar, em novembro. A produção encolheu 2,9% em relação a outubro, e passou de 54.720 para 53.134 unidades. O recuo veio após o segmento esboçar algum aquecimento, no mês passado –que também teve 20 dias úteis. O braço não motorizado do polo de duas rodas de Manaus despencou nada menos do que 28,3% no confronto com o dado do mesmo período de 2021 (74.078). O tombo no acumulado do ano (584.464), por outro lado, já chega a 19,3%.

Os dados foram divulgados pela Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), nesta terça (13). Na análise da entidade, a resiliência na crise de abastecimento dos insumos e as mudanças de mercado em um país em crise ainda são os principais fatores para o novo decréscimo. Tanto que, em paralelo com os problemas domésticos, as exportações seguiram ascendentes. Vale subsetor segue na contramão das montadoras de motocicletas, que comemoraram novos recordes de produção e vendas, no mesmo mês. 

Em outubro, as quedas contínuas de produção já haviam acendido um novo sinal amarelo para Abraciclo, que revisou novamente para baixo suas expectativas para 2022. A meta é chegar ao final de dezembro com 630 mil unidades fabricadas, 15,9% a menos do que em 2021 (749.320). Até então, a expectativa era produzir 750 mil unidades, o que indicaria um virtual empate (+0,10%). Vale notar que, em janeiro, o segmento apostava em uma alta de 17,44% (880 mil) para o período. 

Os números da Abraciclo vão ao encontro do movimento de declínio detectado nos Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus, a despeito da defasagem comparativa na base de dados da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus). Ao contrário do ocorrido no subsetor de motocicletas, o de bicicletas vem registrando sucessivos recuos de faturamento e produção, mês a mês, desde junho. No acumulado dos nove meses iniciais de 2022, suas linhas de produção amargaram um tombo de 17,82%, somando 492.518 unidades. Com isso, as vendas não passaram de US$ 163,44 milhões.

Ajustes sem resultados

Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da entidade, o vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo, Cyro Gazola, ainda se readequou, após ter atingido o auge durante os meses mais duros da pandemia. Ele destacou que as fabricantes estão mantendo os ajustes programados em suas linhas de produção para se adaptar à nova demanda do mercado, que pede por modelos de médio e alto valor agregado –em detrimento dos produtos de entrada, voltados ao consumidor que ganha menos. “Mas, essas mudanças, que exigiram ajustes em toda a cadeia logística, não refletiram nos negócios do varejo”, explicou. 

Gazola enfatiza, no entanto, que os centros de distribuição e as lojas de todo o território nacional estão abastecidos para atender à demanda no final de ano, “que costuma ser alta”. No entendimento do executivo, a bicicleta é cada vez mais procurada pelas pessoas que querem utilizar um meio de transporte mais sustentável e econômico, fugindo do trânsito nas cidades. Diante do potencial do produto, o vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo avalia que o segmento deve passar por um cenário mais favorável em 2023. 

“Os ganhos [das bicicletas] não ficam restritos a uma melhor mobilidade urbana. Há, ainda, a inclusão social e os benefícios para a saúde, como a melhora do condicionamento físico e a redução dos níveis de estresse”, frisou.  “Teremos um novo governo e, embora existam incertezas quanto ao direcionamento da economia, apostamos num cenário positivo em relação à retomada do poder aquisitivo da população”, ponderou. 

Categorias e exportações

O mercado brasileiro continuou apostando nas Moutain Bikes, em novembro. Em números absolutos, essa foi a categoria que liderou o ranking de produção, com 34.293 unidades e 64,5% da oferta do PIM. Houve incremento de 7,5% em relação a outubro, e um tombo de 33,4% ante o dado de 12 meses atrás. Na sequência estão a Urbana/Lazer (13.242 e 24,9%) e a Infanto-Juvenil (3.510 e 6,6%). A Estrada (1.444 e 2,7%) obteve as maiores expansão anual (+34,8%) e mensal (+111,7%) e , enquanto a minoritária Elétrica (645 e 1,2%) andou para trás em ambas as comparações (-4% e -27,3%).

O Sudeste foi a região que recebeu o maior volume de bicicletas fabricadas no PIM. Foram enviadas 32.451 unidades para lá, no mês passado, o que corresponde a 61,1% do total fabricado. As posições seguintes foram ocupadas pelo Sul (7.920 e 14,9%), Nordeste (5.805 e 10,9%), Norte (4.110 e 7,7%) e Centro-Oeste (2.848 e 5,4%). As três primeiras posições foram mantidas no ranking do acumulado dos 11 primeiros meses do ano, sendo que o Centro-Oeste e o Norte trocaram de lugar nesse tipo de comparação.

Apesar da produção menor, as exportações voltaram a crescer. Em novembro, foram embarcadas 6.067 bicicletas para o mercado estrangeiro, alta de 21,9% na comparação com o mesmo mês do ano passado (4.976) e uma escalada de 56,1% diante de outubro (3.887). De acordo com levantamento do portal Comex Stat, o principal destino foi o Paraguai, que recebeu 5.245, o equivalente a 86,5% do total. Em seguida estão Bolívia (508 e 8,4%) e Uruguai (310 e 5,1%).

Em 11 meses, as vendas externas de bicicletas ‘made in ZFM’ totalizaram 27.206 unidades, alcançando crescimento de 16% em relação ao mesmo período de 2021 (23.445). O Paraguai também foi o principal mercado neste tipo de comparação, com 18.204 bicicletas e 66,9% das exportações. Na sequência estão o Uruguai (4.320 e 15,9%) e a Bolívia (2.006 e 7,4%).

Seca e inflação

Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Aficam (Associação dos Fabricantes de Insumos e Componentes do Amazonas), Roberto Moreno, apontou que a seca atípica de 2022 se aliou às crises logísticas decorrentes da pandemia para comprometer os resultados dos fabricantes de bicicletas da indústria incentivada de Manaus. “O abastecimento teve e ainda tem algumas dificuldades, devido à incapacidade de navios operarem com carga total na região. Alguns armadores com navios maiores tiveram que suspender a rota até Manaus”, frisou.

Já o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus e vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, reforçou que os desempenhos divergentes dos polos de motocicletas e de bicicletas ocorre principalmente em razão do diferencial do avanço dos serviços de delivery, que tende a favorecer mais aquelas do que estas. Mas, o dirigente avalia que, embora a conjuntura econômica tenha reduzido o poder de compra do brasileiro, o futuro ainda é promissor. “Assim que a inflação for controlada, e os juros voltarem a cair, o consumidor irá retomar seus projetos de mobilidade urbana e lazer”, finalizou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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