Pecuária do Amazonas retrocede no terceiro trimestre

Em: 15 de dezembro de 2022

A pecuária amazonense retrocedeu no terceiro trimestre. Ao contrário do ocorrido no trimestre anterior, o segmento bovino de corte encolheu em todas as comparações, em sintonia com o aumento do preço da carne. A inflação também produziu impactos negativos na atividade leiteira e na avicultura de postura, não apenas na depreciação da demanda, mas também no encarecimento dos custos de produção. O Estado, entretanto, seguiu na contramão da média nacional, que avançou nas três atividades. É o que mostram os dados mais recentes das pesquisas trimestrais que compõem as Estatísticas da Produção Pecuária do IBGE.

A pecuária de corte do Amazonas somou 40.673 cabeças de gado bovino, entre bois, vacas, novilhos e vitelos. Houve retração de 6,12% ante os três meses anteriores (43.324), e recuo de 1,36% no confronto com o mesmo acumulado do ano passado (41.175). Foi o pior resultado da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para o período, desde 2010 (49.634). Em termos de pesagem, os abates superaram 9.394 toneladas, registrando decréscimos de 5,59% e de 1,74%, em relação aos respectivos períodos anteriores. O número de informantes se manteve em 15, em todos os casos.  

Os abates foram crescentes no Amazonas, de 2011 a 2017, quando chegaram ao número máximo de 68.500, para começarem a cair nos anos subsequentes – especialmente após a pandemia. A sondagem do terceiro trimestre de 2022 mostra que produção seguiu oscilante entre julho (13.663), agosto (14.738) e setembro (12.272). Os bois representaram 79,47% dos animais abatido, com 32.322 cabeças que somaram 7.993 toneladas. A quantidade foi 3,14% menor do que a do segundo trimestre (33.370). Outro diferencial do período foi a reintrodução das vacas (7.931) nos abates.

O Estado seguiu em trajetória inversa à da média nacional, que somou 7,85 milhões de cabeças, em aumentos de 6,22%, no trimestre, e de 11,9%, em reação ao mesmo período de 2021. “A variação positiva de 32,3% ante setembro do ano passado deve-se, em grande parte, ao embargo chinês à carne bovina brasileira vigente entre setembro e dezembro de 2021 por conta de dois casos atípicos de Encefalopatia Espongiforme Bovina”, salientou o supervisor da Bernardo Viscardi, em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE. 

O órgão de pesquisa não informou novamente os dados de abate de suínos no Amazonas, já que a quantidade local de informantes ficou novamente abaixo de três. A atividade também bateu recorde em todo o país (14,45 milhões) também avançou no Brasil, com a maior alta trimestral (+5%) desde 1997. Segundo o IBGE, as exportações recordes (288,55 mil toneladas) contribuíram para o escoamento da produção. 

Ovos e leite

A produção de ovos de galinha não foi melhor e também percorreu trajetória oposta à da média nacional. Encolheu 3,91%, na virada trimestral, passando de 11.793 mil dúzias para 11.332 mil dúzias. O declínio foi ainda maior na comparação com o dado de 12 meses atrás (14.505 mil dúzias), e chegou a 21,87%. Foi o número mais baixo da série histórica do IBGE desde o começo da pandemia, no primeiro trimestre de 2020 (11.285). A produção se manteve basicamente equilibrada em julho (3.868), agosto (3.825) e setembro (3.638). Em contraste, a produção brasileira de ovos de galinha bateu novo recorde da série, alcançando 1,02 bilhão de dúzias e atingindo alta de 0,5% sobre o 2021.

Já a quantidade de galinhas poedeiras (1,50 milhão) encolheu 6,25% e 22,68%, no Amazonas, respectivamente. Vale notar que a base de dados do IBGE informa também que a quantidade de estabelecimentos informantes locais para os dados de poedeiras e produção de ovos (24) também foi menor do que as registradas no segundo trimestre de 2022 (25) e no acumulado de julho a setembro do ano passado (31). 

O mesmo se deu na aquisição de leite cru, que não passou de 2,08 milhões de litros no Estado. Houve recuo de 2,35% diante da quantidade registrada no trimestre precedente (2,13 milhões) e diminuição de 7,14% na comparação com o terceiro trimestre de 2021 (2,24 milhões). O leite industrializado, apresentou os mesmos números. Esta foi a única atividade no qual o desempenho nacional (6,10 bilhões de litros) também mostrou recuo em relação ao trimestre anterior (+1,7%), embora a produção tenha crescido 11,1% diante do dado de julho a setembro do ano passado,

Concorrência e inflação

O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, assinalou à a reportagem do Jornal do Commercio que a variação ocorrida no número de abates de gado bovino está “dentro de uma alternância que sempre ocorre no terceiro trimestre de cada ano”, embora houvesse alguma expectativa de melhora, em razão da deflação histórica no período. O pesquisador admite, no entanto, que o retrocesso ocorrido série histórica desde 2020 são preocupantes, pois demonstram uma ocorrência que pode se transformar em tendência, por se tratar de “um período tão longo”. 

“Ainda é algo para se confirmar, mas a forte concorrência com produtos vindo de outros Estados, e a retração da demanda, podem ser alguns dos motivos que desestimulam o incremento de abates nos frigoríficos do Estado. Já a produção de ovos voltou a cair aos níveis do início da pandemia em 2020. O custo final desse produto, segundo o IPCA elevou-se consideravelmente, em torno de 18%. Isso retraiu o consumo. A diminuição das poedeiras é uma consequência de queda na produção. Já a produção de leite pode ter sofrido queda no trimestre, mas se mantém na média das alternâncias”, ponderou. 

Pandemia e cheias

Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, salientou que a pandemia e as cheias têm sido fatores negativos para a atividade bovina, ao pressionar custos de produção e diminuir a receita. O dirigente lembra que a pecuária amazonense se ressente também de dificuldades para a ampliar o rebanho, em virtude da “legislação ambiental restritiva”, e de carências na regularização fundiária e de infraestrutura. Mas ressalva que a o segmento ainda mostra potencial para crescer. “A expectativa é que a atividade possa crescer, para que o Estado diminua sua dependência de importação de carne, além de gerar mais emprego e renda no interior”, afiançou.

Muni Lourenço acrescentou que, apesar de o Amazonas contar com um dos maiores polos nacionais de produção de ovos, a avicultura de postura vem “sentindo bastante” com a alta de custos dos insumos, principalmente a partir do encarecimento de rações. “Os abates tem menor desempenho porque os polos de produção do Sul e do Centro-Oeste do país têm custos de produção menores e grande escala de produção. Nossa expectativa é que a produção de ovos se mantenha fortalecida, principalmente porque a atividade é geradora de grande emprego e renda no campo e torna o ovo de galinha mais barato e acessível à população”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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