Algumas das histórias mais fantásticas e tristes de riqueza e poder, submissão e escravidão, aconteceram em alguns dos seringais da Amazônia entre o final do século 19 e início do 20. Para reviver, ao menos visualmente, aqueles tempos, você pode visitar o Museu do Seringal Vila Paraíso, localizado no igarapé São João, um afluente do rio Tarumã. A viagem até lá, de lanchas ajato, demora cerca de 30 minutos e já é o começo do clima, com a exuberante floresta e os rios de águas escuras.
“O Museu do Seringal” foi o cenário do filme, ‘A selva’, filmado em 2001, uma adaptação do livro homônimo, de 1930, do escritor português Ferreira de Castro que, em sua adolescência, viveu num seringal, em Humaitá. Ao final das gravações, a produção do filme cedeu as instalações para o Governo do Amazonas que, através da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, as transformou no Museu, inaugurado em 16 de agosto de 2002”, falou Dênio Mota, gerente do Museu.
O prédio principal do Museu é a casa do seringalista, ou coronel de barranco, onde se ostentava o luxo e a riqueza adquiridos com a venda do látex extraído das seringueiras pelos nordestinos, quase escravos, vindos do Nordeste, enganados com falsa promessa de enriquecimento. A casa é repleta de objetos realmente antigos, como um piano de 1911 e um relógio carrilhão, além de uma infinidade de outras peças de mobiliário e decoração.



Ao lado desta casa fica o barracão de aviamentos repleto de tudo o que o seringueiro precisava para uma incursão na floresta virgem, onde realizaria o seu trabalho. Mal sabia que tudo ali lhe seria cobrado e por mais que produzisse pélas e mais pélas de borracha, jamais conseguiria quitar a dívida com o patrão.
Triste e sombrio
Mais adiante está uma pequena capela em honra de N. Sra. da Conceição, existentes em praticamente todos os seringais daquela época onde o coronel pedia perdão pelos seus pecados e os cometia novamente contra os seringueiros.
“Algumas seringueiras cercam o ambiente e os guias mostram como era realizado o processo de extração do látex riscando a árvore e logo vindo o ouro branco escorrer do caule da árvore”, informou Dênio.
Seguindo por trilhas, em meio à mata, o visitante do Museu do Seringal irá conhecer o lado mais triste e sombrio enfrentado pelos nordestinos no tempo dos seringais.
Numa mesma área da floresta, está a tosca moradia do seringueiro e o tapiri onde ele defumava o látex até endurecer e se transformar na péla (bola) de borracha com até 50 kg de peso. A habitação, armação feita com troncos de árvores coberta de palhas da paxiúba, abrigava apenas a rede e os poucos pertences de trabalho do seringueiro. Ficava bem acima do solo supostamente para protegê-lo de algum ataque de feras. No tapiri, com os baldes cheios de látex, o seringueiro defumava o leite até que, depois de um exaustivo trabalho, o produto virasse uma péla, porém, o que ele não sabia é que a intensa fumaça provocada durante o processo, era altamente tóxica podendo levá-lo à morte em pouco tempo. Mas não havia problema. O Nordeste estava cheio de nordestinos prontos para virem para a Amazônia. O destino de muitos deles é mostrado no Museu. Um cemitério no meio da mata onde, geralmente quando morriam por alguma doença, eram enterrados pelos companheiros, isso se o coronel não os mandava matar e jogar no rio, ou se atacados por alguma fera, ou mesmo por indígenas, terminavam seus dias em decomposição em alguma vereda da floresta, para nunca mais serem vistos.

Ingresso livre
Durante a visitação ainda tem a Casa de Banho das Mulheres, no caso, a personagem dona Yayá, interpretada por Maitê Proença, no filme; e uma Casa de Farinha.
Lógico que tal situação não ocorreu da mesma forma em todos os rios onde as seringueiras eram exploradas, Purus, Juruá e Japurá, principalmente. Alguns donos de seringal moravam em casas comuns do interior, outros não maltratavam seus empregados e vários perderam os grandes ganhos com o fim do monopólio da Amazônia no comércio da borracha, a partir de 1911. O certo é que as seringueiras, os seringalistas, os seringais e os seringueiros são parte importante na história da economia da região entre o Amazonas e o Pará.
A travessia até o Museu do Seringal é feita a partir da Marina do Davi, na Ponta Negra, nas lanchas da Coop-Acamdaf (Cooperativa dos Profissionais de Transporte Fluvial da Marina do Davi). O valor da passagem é R$ 21. As lanchas saem a todo momento, tão logo lotem. Informações: 9 9473-7977 e 3658-6159.
“O funcionamento do Museu do Seringal é de segunda-feira a sábado, das 9h às 16h, e aos domingos, das 9h às 15h. Às quartas-feiras permanece fechado, para manutenção. Atualmente não é cobrado ingresso. No local podem ser adquiridos balas e bombons regionais. Não há sinal de internet em toda a área. As visitas podem ser agendadas pelos fones: 3631-6047 e 3631-3632, e duram em torno de 45 minutos. Escolas e grupos podem agendar pelo e-mail: [email protected]”, concluiu.
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