Dentre as principais economias do mundo, o Brasil tem um dos maiores níveis de juros. A taxa básica do país, a Selic, está definida hoje em 13,75% ao ano, e esse patamar, descontado o custo da inflação, faz com que o país tenha também um alto “juro real”.
Pela inflação projetada, o juro real brasileiro gira em torno de 7%, e já chegou a ficar em torno de 8% no fim do ano, um número que até hoje é citado pelo governo.
O debate sobre o valor ideal dos juros tem ganhado os holofotes desde janeiro, em meio aos embates de ministros do governo Lula e parte do empresariado com o BC (Banco Central). Entre a população, o tema também ganhou destaque e levou a maioria dos brasileiros a decretar que a taxa de juros está “mais alta do que deveria”, segundo o Datafolha.
“Ninguém consegue tomar dinheiro emprestado a 13,75%, a um juro real de 8% se você descontar a inflação”, voltou a repetir Lula durante o Dia do Trabalhador na última segunda-feira, 1º de maio.
Juro real e nominal: qual é a diferença?
Os economistas olham para duas métricas diferentes de juros:
- O juro nominal, definido pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). A taxa Selic, taxa de referência de juro nominal no Brasil, está hoje em 13,75%;
- E o juro real, que incorpora o “custo” da inflação no rendimento e varia a depender dessa projeção.
Ao mexer na taxa de juros nominal, as autoridades monetárias tentam influenciar indiretamente a taxa real e obter os efeitos desejados —é usada a chamada Equação de Fisher, que desconta a inflação do juro nominal.
Uma vez projetados esses custos, a taxa que consumidor e empresas encontrarão de fato no mercado varia a depender dos diferentes produtos, do consignado ao cartão de crédito.
Mas a projeção de juro real termina sendo usada como referência das condições gerais nos mercados. Ao escolher tomar crédito para expandir uma linha de produção, uma empresa levará em consideração o custo dessa dívida, diante da inflação e dos juros esperados no futuro.
Brasil tem maior juro real, seguido do México
O Brasil tem o segundo maior juro nominal do mundo (atrás da Argentina) e, descontada a inflação, o maior juro real.
De uma lista de 40 países monitorados pela Infinity Asset, o Brasil liderou com o maior juro real em março, segundo o ranking mensal elaborado pela gestora e pelo portal MoneYou.
No último ranking, o Brasil aparece com juro real em torno de 7%, diante de uma inflação projetada para os próximos 12 meses em torno de 6%.
O Brasil é seguido pelo México (juro real em torno de 6%) e pelo Chile (em torno de 5%) na lista dos maiores juros reais.
A liderança do Brasil entre os maiores juros reais do mundo se mantém mesmo se a Selic for cortada inicialmente em 0,25 p.p., mostra a Infinity.
Se a Selic for mantida em 13,75%:
- Brasil: juro real de 6,94%, segundo ranking de março da Infinity Asset;
Se houver corte de 0,25 p.p. na Selic:
- Brasil: juro real de 6,84%.
Se houver aumento de 0,50 p.p. na Selic:
- Brasil: juro real de 7,06%.
A aposta mais provável entre os economistas por ora é que o Copom mantenha a Selic em 13,75% ao menos até o segundo semestre.

O paradoxo da Argentina
Jason Vieira, estrategista-chefe da Infinity Asset, defende que o juro real por si só não é capaz de explicar o cenário das economias.
“Juros reais podem cair muito rapidamente, basta a inflação subir. Mas isso também não é bom, não é? Se a inflação disparar e o juro nominal ficar estável, o juro real cai, mas por um motivo ruim”, argumenta ele.
Dos 40 países no ranking da Infinity, a Argentina tem o maior juro nominal (na casa dos 80%), mas o menor juro real (de -19%).
Isso ocorre porque a inflação projetada está em torno de 100%. Ou seja, o juro real negativo argentino foi obtido devido a uma inflação fora do controle.
O cenário de juro real negativo é também visto na Europa, mas em menor escala: após a Argentina, a Holanda é a penúltima do ranking, com juro real perto de -8%. A União Europeia, que historicamente tem juro real levemente negativo ou perto de zero devido à inflação baixa, tem sofrido com pressões inflacionárias diante da guerra na Ucrânia.
Brasil já pode ter juro real menor?
Há algum consenso de que o juro real, idealmente, deveria ser menor no Brasil via redução da taxa nominal na Selic. Mas o debate está em como (e quando) chegar lá.
Para críticos, ter a maior taxa de juro real do mundo hoje, por si só, mostra um cenário inadequado. O vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin disse neste mês que “não há nada que justifique” o patamar do juro real brasileiro.
As altas de juros, no geral, são usadas pelo BC como forma de controle inflacionário. E a leitura no governo e em parte do empresariado é de que, uma vez que a inflação arrefeceu, já haveria condição de cortar a Selic e, por consequência, levar a uma redução no juro real.
Empresas que tomaram crédito quando os juros estavam menores hoje sofrem para honrar os compromissos e tendem a segurar novos investimentos, levando a demissões e desaceleração da economia.
Algumas chegam a casos drásticos de falência e descompasso de suas dívidas, que a alta de juros escancarou. Como a EXAME mostrou, o número de pedidos de recuperação judicial no Brasil é o maior em cinco anos.
Já defensores das decisões recentes do Copom (que manteve a Selic por cinco reuniões consecutivas até o momento) apontam que um corte na taxa de juros sem que riscos tenham sido equacionados podem levar a descontrole da inflação.







