O faturamento da indústria amazonense sinalizou recuperação em março, mas fechou o trimestre no vermelho. A mesma oscilação se deu nas horas trabalhadas e no uso da capacidade instalada das fábricas. Já o nível de emprego declinou em todas as comparações, em sentido inverso à evolução da massa salarial dos trabalhadores. Em contraste, a indústria nacional seguiu praticamente estagnada. É o que revelam os números locais dos Indicadores Industriais da CNI (Confederação Nacional da Indústria), compilados em parceria com a Fieam (Federação da Indústria do Estado do Amazonas).
De acordo com a CNI, o faturamento real da manufatura do Amazonas escalou 21,2% na variação mensal, mas em ritmo insuficiente para suplantar as perdas de fevereiro (-4,9%) e janeiro de 2023 (-24,7%). A comparação com o mesmo mês de 2022 confirmou um tombo de 42,8%, deixando o trimestre no campo negativo (-41,7%). Na média nacional as vendas líquidas aceleraram 1,4% no mês, ficando 2,1% acima da marca do terceiro mês de 2022 e 2,5% mais fortes no acumulado do ano.
Os dados da CNI – que levam em conta uma mostra pequena de empresas e outros segmentos não presentes no PIM – mostram um quadro mais preocupante para o faturamento das empresas, do que o apontado nos Indicadores. A Suframa confirma a aceleração das vendas em março, tanto em dólares (US$ 3.05 bilhões), quanto em reais (R$ 15,49 bilhões). Mas, aponta crescimentos também na base anual e no trimestre – de 4,55% (US$ 8.28 bilhões) e de 6,26% (R$ 42,46 bilhões) respectivamente –, carreados pelas indústrias eletroeletrônica e de duas rodas, em detrimento de bens de informática.
Produção oscilante
Situação semelhante se deu nas horas trabalhadas nas linhas de produção do Estado. segundo a CN, foi registrado um progresso de 3,7% ante fevereiro, após a estagnação do levantamento anterior (-0,3%). Mas, o confronto com a marca de igual intervalo do exercício anterior, entretanto, confirmou uma nova retração de dois dígitos (-22%), que foi quase tão intensa no acumulado do ano (-19,1%). Em todo o país, o indicador subiu 1% na variação mensal, e teve altas próximas a esse nível nas demais comparações (+0,6% e +1,1%).
O dado de UCI (utilização da capacidade instalada) também oscilou. A proporção de máquinas em produção da indústria estadual passou de 81,7% para 74%, em relação a fevereiro, configurando uma diferença de 7,7 pontos percentuais (ou -9,42%). Já o confronto com igual mês de 2022 (75,5% de uso) indicou retração de 1,5 p.p. (ou -1,99%). No acumulado dos três meses (79,17% de ocupação), contudo, houve alta de 0,4 p.p. (+0,5%). O indicador nacional (79,2% de uso) foi mais elevado, mas seguiu a mesma dinâmica.
Os números de produção da CNI também contrastam com os dados do IBGE para o mesmo período. Segundo o órgão federal de pesquisa, a produção industrial do Amazonas acelerou pela quarta vez consecutiva, entre fevereiro e março (+ 1,6%), registrando o melhor resultado do país. O confronto com março do ano passado confirmou uma escalada de 23,5% para o mês e uma elevação de 14,8% para o trimestre, disseminada em quase todos os segmentos, com destaque para combustíveis, eletroeletrônicos, bens de informática e motocicletas.
Empregos e salários
Os dados relativos à mão de obra da indústria do Amazonas, por sua vez, indicaram desempenhos novamente contraditórios. A média do saldo de contratações no parque fabril do Estado recuou 0,7%, em movimento oposto ao de fevereiro (+1,8%). A queda se manteve com maior intensidade no confronto com janeiro do exercício anterior (-12%) e no aglutinado de janeiro a março (-12,2%). Os respectivos números brasileiros (+0%, +1% e +0,9%) ficaram novamente próximos à estabilidade.
Outros levantamentos já haviam confirmado que as contratações com carteira assinada vinham mantendo ritmo na indústria do Amazonas. Segundo o ‘Novo Caged’, o setor criou 161 vagas formais em âmbito local, entre fevereiro e março, com alta de 0,13% ante o estoque antecedente. As contratações foram puxadas pela indústria de transformação (+171), especialmente nas linhas de produção de “outros equipamentos de transporte” (+151) e de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (+130). Em três meses, o acréscimo de vagas formais no setor foi de 0,17% (+207), conforme a base de dados do MTE.
A pesquisa dos Indicadores da CNI revela, por outro lado, que a massa salarial ganhou musculatura mais uma vez. A soma dos vencimentos dos trabalhadores avançou 14,9% em relação a fevereiro, em medida ainda mais forte do que a anterior (+7,2%). Houve uma escalada de 10% ante fevereiro de 2022 – período em que os afastamentos de trabalhadores e pausas na produção, em decorrência da terceira onda, se tornavam menos comuns. No trimestre, o saldo se manteve positivo em 15,5%. O Amazonas se saiu melhor do que a média brasileira (+0,4%, +4,4% e +4,3%) apenas neste quesito.
“Relativa estabilidade”
Em texto e vídeo divulgados pela assessoria de imprensa da CNI, a economista da entidade empresarial, Larissa Nocko, assinalou que, o emprego permaneceu estável na indústria brasileira, mas a massa salarial e o rendimento médio aumentaram e recuperaram parte das perdas dos meses anteriores. E o faturamento mostrou avanço, após dois meses de retração. A UCI e as horas trabalhadas também avançaram, sinalizando aquecimento. A economista ressalta que cinco dos seis desempenhos analisados mostraram alta, sendo esse o primeiro resultado positivo geral em 2023.
“Em linhas gerais, os dados mostram um desempenho positivo em março, mas os problemas que vêm impactando negativamente a atividade industrial permanecem, como os juros altos e a demanda enfraquecida. Por isso, ainda é cedo para avaliar se março representa o início de uma mudança de trajetória e recuperação consistente, ou se o avanço foi pontual”, ponderou.
Em entrevistas anteriores à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Fieam, e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, ressaltou que a dinâmica econômica local é “altamente dependente” da indústria e que “qualquer variável tem reflexo potencializado”, especialmente em um cenário de falta de insumos, alta de juros e volatilidade política. Antonio Silva acrescentou ainda que os Indicadores da CNI contam com uma amostragem menor do Polo Industrial de Manaus e, por isso, alguns dos subsetores ponderados podem impactar mais negativamente os números globais do setor.
Em nova entrevista, o presidente da Fieam ponderou que, dentro dos movimentos cíclicos da economia, é natural que o período imediatamente posterior a uma crise apresente indicadores altamente positivos. “Passado o momento de alavancagem, os dados irão se acomodar, fenômeno esse que está agora sendo observado. Em aspecto geral, os números são positivos e denotam o cenário presente de relativa estabilidade. Embora possamos observar inflexões positivas e negativas ao longo dos últimos meses, estão dentro da normalidade do atual panorama econômico”, concluiu.







