Varejo cresce, mas segmentos dependentes de crédito amargam quedas no AM

Em: 16 de junho de 2023

O varejo do Amazonas consolidou trajetória de recuperação em abril e emendou um segundo mês de expansão na variação mensal. O volume comercializado foi 0,6% maior que o do mês anterior, mesmo com cinco dias úteis a menos. Foi uma performance melhor do que a alcançada pela indústria e os serviços amazonenses, na mesma comparação. O resultado também foi 3,7% superior ao do mesmo mês de 2022, embora já em desaceleração ante março (+9,5%). O quadrimestre sustentou alta de 3,9%, mas o acumulado dos últimos 12 meses não foi muito além da estabilidade (+0,8%). É o que revelam os dados da Pesquisa Mensal do Comércio, divulgados pelo IBGE. 

Assim como em março, o Estado bateu a média nacional em quase todas as comparações. A atividade estagnou em todo o país na variação mensal, não passando de 0,1% de acréscimo. Foi o quarto resultado próximo a zero nesse tipo de comparação. No mês da Páscoa, o incremento se limitou a apenas três dos oito segmentos do varejo, com destaque para produtos básicos e de menor valor agregado. O comércio brasileiro cresceu 0,5% frente a abril de 2022 e não foi muito além nos acumulados do ano (+1,9%) dos 12 meses (+0,9%). Diante disso, a CNC estimou que o setor deve crescer 1,8% ao final deste ano.

Outro contraponto em relação ao mês anterior veio dos segmentos comerciais de bens dependentes de crédito, inseridos no chamado varejo ampliado. Em sintonia com a escalada dos juros bancários, variação mensal foi negativa. Já a inflação manteve descolamento da receita nominal e, mesmo em trajetória de desaceleração, continuou inibindo vendas mais fortes. Puxada pelos preços dos remédios e dos planos de saúde, o IPCA teve alta de 0,61%, perdendo força em relação a março (+0,71%), conforme o mesmo IBGE. 

O comércio teve volume de vendas positivo em apenas 16 das 27 unidades federativas brasileiras, entre março e abril – contra as 23 do levantamento anterior. O aumento de 0,6% levou o Estado a descer da nona para a décima posição do ranking. O melhor número veio da Paraíba (+3,6%) e o pior, do Espírito Santo (-4,3%). Mesmo com a elevação de 3,7% ante abril de 2022, o varejo local tombou do quinto para o 11º lugar, em um rol liderado pelo Acre (+4,9%) e encerrado pelo Rio Grande do Norte (-7,1%). No acumulado do ano, o Amazonas caiu da 15ª para a 13ª posição, com Tocantins (+12,4%) e Rio de Janeiro (-1,2%) protagonizando os extremos.

Receita e crédito

A situação foi diferente na receita nominal – que não leva em conta a inflação do período. A variação mensal indicou um virtual empate (+0,1%), em desempenho muito inferior ao de março (+1,6%). Os impactos do IPCA levaram a uma diferença ainda maior nas comparações de longo prazo. O confronto com abril do ano passado ficou positivo em 4%, contribuindo para um aumento de 6,1%, no quadrimestre, e de 5,3%, no aglutinado de 12 meses. As respectivas médias nacionais foram -0,2%, +2,4%, +6,9 e +11%.

Em razão do tamanho da amostragem, o IBGE ainda não segmenta o desempenho do comércio no Amazonas. Sabe-se apenas que os subsetores de veículos e material de construção apresentaram saldo negativo nas vendas, levando o varejo ampliado a um decréscimo de 2,6% na comparação com março – contra o avanço de 5,4% da sondagem anterior. O aumento foi de apenas 3,2% em relação ao mesmo mês do ano passado, reduzindo o aumento dos acumulados do ano (+5,4%) e mantendo o aglutinado dos 12 meses (-0,3%) no vermelho.

O crescimento do comércio brasileiro na variação mensal se restringiu a três dos oito dos segmentos comerciais sondados: hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (+3,2%); livros, jornais, revistas e papelaria (+1%); e artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (+0,3%). As vendas declinaram nos subsetores de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-7,2%); tecidos, vestuário e calçados (-3,7%); combustíveis e lubrificantes (-1,9%); artigos de uso pessoal e doméstico (-1,4%); e móveis e eletrodomésticos (-0,5%). Do lado do varejo ampliado, veículos (-5,9%) e material de construção (-0,8%) também encolheram.

Dólar e pandemia

O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, enfatizou que, embora com uma taxa de crescimento pequena, o comércio amazonense conseguiu vendas positivas pelo segundo mês seguido, em abril. “A alta foi significativa, principalmente levando em conta que está bem acima da média nacional, e que 11 unidades federativas sofreram quedas. Ainda assim, as lojas de automóveis, peças e materiais de construção não tiveram boas vendas. Mas, a média móvel trimestral positiva em 0,7% indica boas possibilidades de crescimento no próximo mês”, ponderou.

Em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE, o gerente da pesquisa, Cristiano Santos, destacou que o resultado positivo e diferenciado dos supermercados e hipermercados no âmbito nacional está ligado principalmente às vendas da Páscoa. “Antes da pandemia, os resultados das vendas do varejo para a data apareciam sobretudo em abril. Nos anos subsequentes, os ovos começaram a ser vendidos muito antes, em janeiro, e essas vendas eram diluídas ao longo desses meses. Neste ano, houve uma volta ao padrão de antes, e o resultado forte das vendas da Páscoa puxou o subsetor, explicou.

De acordo com o pesquisador, a divisão de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação vem sofrendo com as oscilações do dólar. Já a atividade de tecidos, vestuário e calçados atravessa “cenário muito negativo” desde setembro de 2022. Santos associa o desempenho a uma mudança de comportamento do consumidor decorrente da pandemia. “Com o menor deslocamento das pessoas, houve menos necessidade de consumir produtos dessa natureza. Essa mudança no consumo impactou as grandes redes, que têm fechado lojas nesse período em todo o país”, frisou.

“Políticas públicas”

O presidente da assembleia geral da ACA (Associação Comercial do Amazonas), Ataliba David Antonio Filho, diz não ter se surpreendido com os números do IBGE. O dirigente salienta que, embora os números tenham sido positivos para produtos essenciais à população, como alimentos, remédios e combustíveis, segmentos de maior valor agregado e dependentes de crédito tiveram suas vendas represadas pelos juros e pelo clima de incertezas em relação aos programas de governo para facilitar o acesso a esses itens. 

“O varejo ampliado sofreu com esse clima. Havia muita expectativa em relação ao anúncio do programa de carro popular e também da aprovação da medida provisória do Minha Casa Minha Vida, entre outras medidas do governo que enfrentavam dificuldades para ser aprovadas pelo Congresso. O consumidor estava com receio de se endividar e ir parar no Serasa ou no SPC. A definição, agora, das políticas públicas para ambos os programas traz mais otimismo, acredito que teremos vendas mais alvissareiras nos próximos dias”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar