Vendas de veículos novos dão marcha-a ré no Amazonas, apesar dos benefícios do governo 

Em: 20 de julho de 2023

As vendas das concessionárias amazonenses de veículos zero deram marcha a ré em junho. Os emplacamentos somaram 6.310 unidades e caíram 11,59% ante maio (7.137), apesar de uma modesta elevação de 1,30% no confronto com igual período de 2022 (6.229). O recuo ocorreu no mês de lançamento do programa de incentivos do governo federal à aquisição de veículos sustentáveis (MP 1.175/2023), e foi puxado pelo segmento majoritário de motocicletas –que vinha crescendo mês a mês. O acumulado do ano ainda se mantém com alta geral de 19,59% (35.843) e dados negativos só para veículos pesados.

Os números são da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), que se amparou nos emplacamentos do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) e levou em conta todos os tipos de veículos –incluindo automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus e motocicletas. Vale notar que os dados locais devem ser levados também sob a perspectiva do transit time (tempo de trânsito) entre faturamento e emplacamento, um hiato que pode durar 30 dias, em virtude da logística de translado entre as fábricas do Centro-Sul e as concessionárias no Estado.

Na média nacional, junho registrou o licenciamento de 348.460 veículos, 2,47% a menos do que em maio (357.269). O saldo brasileiro também veio 10,30% mais elevado do que o de 12 meses atrás (315.931). No primeiro semestre, as vendas expandiram 13,94%, totalizando 1.881.359 unidades, mesmo com o desempenho sendo impactado pela guerra na Europa e a falta de peças e componentes na indústria. 

A Fenabrave atribuiu a performance ao aquecimento de vendas proporcionado pelos incentivos da Medida Provisória nº 1.175/2023, que contou com a adesão de 28 montadoras de todas as categorias de veículos. Ainda assim, diante da volatilidade do cenário econômico e da possibilidade de elaboração de novas políticas públicas de fomento ao setor, a entidade manteve sua projeção de crescimento de 3,3% em 2023.

Automóveis X motocicletas

Em junho, só duas das sete categorias listadas pela Fenabrave tiveram expansão de vendas no Amazonas, na variação mensal. O melhor desempenho veio do segmento minoritário de caminhões, que escalou 50,82%, com apenas 92 unidades comercializadas. O outro destaque positivo veio justamente dos automóveis (+3,17% e 1.528). Já implementos rodoviários (-35,14% e 24), ônibus (-27,78% e 13), “outros veículos”, como tratores, máquinas agrícolas e carretas (-19,05% e 34), motocicletas (-17,90% e 4.017) e comerciais leves (-0,50% e 602) amargaram quedas.

O número de categorias com expansão de vendas foi maior no confronto com o mesmo mês do ano passado: caminhões (+21,05%), automóveis convencionais (+8,83%) e comerciais leves (+6,17%). No acumulado do ano, o rol de segmentos no azul incluiu motos (+27,22% e 23.343), carros de passeio (+10,38% e 8.442), comerciais leves (+5,28% e 3.112) e implementos rodoviários (+3% e 206), em detrimento dos caminhões (-15,33% e 370), ônibus (-3,82% e 151) e “outros veículos” (-2,23% e 219).

A despeito do tropeço nas vendas, as motocicletas voltaram a aumentar a diferença em relação aos veículos de quatro rodas no ranking das categorias veiculares mais comercializadas no Amazonas. A participação das motos no bolo de vendas do Amazonas continuou predominante, avançando de 61,22% (2022) para 65,13% (2023), no comparativo do acumulado ano. Em sentido contrário, a soma dos automóveis e comerciais leves voltou a reduzir sua fatia na mesma comparação, com 32,24% (2023) contra 35,38% (2022).

Consumidores negativados

Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o gerente regional de Seminovos do Grupo Revemar, Rubem Lima, disse que os primeiros meses do ano foram de vendas “acima do esperado”, mas apenas para sua linha de carros usados. “O problema não é de demanda, mas de inadimplência. O crédito está muito difícil e só costuma sair para o cliente com perfil AA, com as dívidas em dia e renda adequada”, mencionou.

Em nova entrevista, o executivo destacou que o panorama melhorou para os carros zero, com a MP 1.175/2023. “Tivemos um excelente julho e começamos este mês no mesmo ritmo, com bastante procura. Isso ajudou e houve até ‘redução’ de juros. Porém, a inadimplência continua muito alta, e faz muitos financiamentos serem recusados. Nossas expectativas são boas, temos de ser otimistas. Teremos uma ‘ressaca’ desse incentivo, até o final do ano e a estratégia será chamar atenção do consumidor para isso, uma vez que os descontos dados agora não são do governo, mas das montadoras”, avaliou.

Em entrevistas anteriores, o gerente geral da Cometa Motocenter, Agno da Silva Montalvão, explicou que o mercado local de motos veio de um boom de vendas desde 2022, puxado pelos segmentos de delivery e locação de veículos, e que “o problema das filas” para adquirir o produto melhorou, principalmente nos modelos de 125 e 160 cilindradas. 

Procurado novamente, o executivo informou que a alta de 9% atingida no acumulado do ano ficou abaixo do esperado. “O resultado se deve à restrição de crédito. O apetite de compra das pessoas não caiu, porém muitas estão negativadas. Para o segundo semestre, as expectativas são ótimas, pois a taxa de juros deve cair e o governo está com ações para limpar nomes [o programa Desenrola]. E a fábrica está com a promessa de produzir mais motos. Então, esperamos crescer em torno de 15% neste segundo semestre”, afiançou.

“Medidas propositivas”

Em comunicado à imprensa, a Fenabrave ressaltou que o “mecanismo de desconto patrocinado na aquisição de veículos sustentáveis”, atingiu seu objetivo e aqueceu o mercado de automóveis e comerciais leves de até R$ 120 mil.Segundo a entidade, o maior movimento se deu a partir de 20 de junho, com o volume de efetivação diária de vendas superando 22 mil, nos últimos dias do mês. Foi um desempenho similar ao de 2012, ano de recorde histórico de emplacamentos e mais de 3,6 milhões unidades vendidas. 

“Até a publicação da MP, os consumidores estavam em compasso de espera. Após isso, houve o tempo de troca de notas fiscais entre concessionárias e montadoras, a habilitação das montadoras aos créditos tributários e o início do atendimento aos pedidos dos clientes”, contou o presidente da Fenabrave, José Maurício Andreta Jr. 

Diante do esgotamento dos R$ 500 milhões inicialmente destinados ao incentivo, o governo federal aportou mais R$ 300 milhões em descontos tributários. Conforme a Fenabrave, as montadoras também adicionaram descontos a alguns modelos, enquanto os bancos dos fabricantes lançaram “taxas atrativas”.

Andreta Jr se mostra preocupado com os próximos meses, dado que a segunda leva de recursos já deve se esgotar em julho, mas adianta que as conversas com o Executivo federal continuam. “O governo têm se mostrado muito aberto a ouvir medidas propositivas, e a Fenabrave tem sido convidada a demonstrar seus pontos de vista. Tenho certeza de que, junto ao poder público, encontraremos novas alternativas para buscar o crescimento contínuo”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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