Sem poder receber insumos e escoar sua produção, PIM anuncia férias coletivas

Em: 19 de outubro de 2023

O estrangulamento logístico gerado pela vazante histórica deste ano já está fazendo o Distrito Industrial de Manaus parar. Sem poder receber insumos industriais e escoar sua produção, já que o nível dos rios atingiu patamar que não permite que os navios aportem na capital amazonense, pelo menos 20 empresas já protocolaram pedidos de férias coletivas junto ao Sindmetal-AM (Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas), o mais representativo do PIM. A expectativa da entidade laboral é que esse número chegue ao dobro somente nesta semana.

O diretor-executivo e secretário de Comunicação do Sindmetal-AM, Afrânio Barão, informou à reportagem do Jornal do Commercio que se trata de fábricas dos segmentos eletroeletrônico, duas rodas, metalúrgico e naval. Segundo o dirigente, a antecipação das férias coletivas foi proposta às empresas vitimadas pela estiagem para evitar demissões em massa e garantir a manutenção de 40 mil a 45 mil empregos, até que os rios retomem o nível de calado que permita a navegação. “Torcemos para que isso aconteça o mais rápido possível”, afiançou.

Nesta quarta (18), a Samsung Eletrônica da Amazônia Ltda anunciou a antecipação das férias coletivas de fim de ano, durante reunião com o superintendente da Suframa, Bosco Saraiva. Foi a primeira indústria do PIM a comunicar oficialmente que vai suspender temporariamente os trabalhos. A paralisação prematura, que está programada para o período de 30 de outubro a 14 de novembro, vai atingir parte dos colaboradores da fábrica que atuam na produção, especificamente nas linhas de TV, áudio e ar-condicionado.

De acordo com o vice-presidente da fábrica da Samsung em Manaus, Woo Yong Lee, aproximadamente 1.500 colaboradores receberão as férias coletivas antecipadas. “Devido à falta de insumos, não haverá atividade de produção nas referidas linhas. Portanto, espera-se que no final do ano, quando o nível do rio estiver mais elevado, essas linhas já estejam novamente abastecidas com os insumos, e os colaboradores possam retomar às atividades de produção”, justificou o executivo, em texto veiculado pela assessoria de imprensa da Suframa.

No mesmo texto, a autarquia informa que, até esta terça (17), não havia recebido nenhuma informação sobre o assunto férias coletivas, por conta da falta de insumos, em consequência da vazante dos rios. E acrescenta que trabalhava com “as informações oficiais repassadas pelo Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), de que não havia paralisação da produção nas linhas das fábricas por conta do problema”. Procurada pela reportagem do Jornal do Commercio, a entidade respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que “está aguardando o resultado de uma pesquisa sobre como as empresas associadas estão gerindo os possíveis impactos decorrentes da seca da hidrovia do Amazonas”.

Sem alternativas

O presidente executivo da Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), José Jorge Nascimento Júnior, confirmou à reportagem do Jornal do Commercio que algumas empresas do segmento realmente estão parando, diante das dificuldades de receber insumos e escoar a produção, já que os navios pararam de chegar e as balsas contam com capacidade de carga muito menor. O dirigente enfatiza que a crise logística não deixou alternativas ao PIM.

“Ou a gente faz pelo modal fluvial, ou pelo aéreo. Infelizmente, não temos o rodoviário. O custo do frete aéreo é muito maior e não tem capacidade de atendimento para nossas necessidades. E, neste momento específico, o aeroporto está com obras e com limitações de tamanhos de aviões para pousos. Só nos resta tão somente esperar que o governo federal faça, de fato, a dragagem nos pontos mais críticos o quanto antes, para que não tenhamos outros trechos de travamento. Acho que a lição que fica é que precisamos nos preparar para momentos como esse, com o mapeamento, balizamento e sinalização dos rios, para que a navegação seja assegurada o tempo todo”, recomendou. 

Dragagem em questão

O diretor adjunto de Infraestrutura, Transporte e Logística da Fieam, e professor da Ufam, Augusto Cesar Rocha, está participando de pesquisas para verificar como está a real situação do PIM diante da crise logística, e diz que espera já dispor de uma amostra suficiente para tanto, até esta quinta (19). De acordo com o especialista, a amostra anterior apontava que 4% de empresas do Polo foram afetadas, com até dois dias de tempo perdido em 80% delas. Foi constatado também que em torno de 1500 contêineres não foram entregues no Amazonas. 

“Teremos uma reunião nesta sexta [20], para tratar o tema. De minha parte, a pergunta que me move é: cadê a dragagem? O pessoal que opera na área assegurou para mim, às 16h30 desta terça [17], que não tinha começado. Parece que iniciou em uma área do Alto Solimões, que é importante para região. Mas não para a cabotagem”, cobrou. 

Um dos pontos mais nevrálgico para a logística fluvial do PIM é a região do Rio Amazonas próxima ao município de Itacoatiara, conhecida como Taboal. Em vídeo divulgado por sua assessoria de imprensa, o governador Wilson Lima anunciou, nesta terça (18), que conversou com o ministro dos Portos, Silvio Costa Filho, e que este lhe garantiu que os trabalhos da referida área começam efetivamente nesta sexta (20) – 24 dias após a assinatura do governo federal na ordem de serviço para os trabalhos.

Estratégias diferenciadas

O vice-presidente da Fiam e presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus, Nelson Azevedo, reforçou à reportagem do Jornal do Commercio que muitos navios deixaram de trafegar por conta da seca histórica e que não há quantidade suficiente de balsas, impondo restrições ao fluxo de produtos manufaturados. Outra dificuldade, conforme o dirigente, vem da falta de uma alternativa terrestre, já que a BR 319 “está intransitável devido à falta de manutenção, por entraves ambientais”.

“Ainda não chegou ao nosso conhecimento quais empresas estariam programando a antecipação das férias coletivas, de dezembro para outubro ou novembro. Contudo, cada uma delas tem sua estratégia de gerenciar as restrições e tomar as medidas adequadas, dentre elas, a antecipação das férias coletivas, originalmente programadas para dezembro de cada ano. Essa alternativa é uma forma de preservar os postos de trabalho para posterior retomada da produção, tão logo essas restrições sejam superadas”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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